Pré, Proto-História (246mil a.e.c.)
Idade Antiga (4000 a.e.c. - 476 d.e.c.)
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Civilização Romana | Religião
Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus
Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava às primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e, outras, controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade. A religião da época clássica, aquela que conhecemos melhor graças aos textos e a numerosos testemunhos de toda a espécie, não manteve muitas vezes senão vestígios, dificilmente detectáveis, destas crenças e destes ritos. Esta ou aquela prática de carácter mágico, nos tempos de Cícero ou de Augusto, já não eram mais do que sequelas folclóricas e não teríamos conservado delas nenhuma lembrança se os “antiquários” de então, ávidos de recolher as coisas estranhas do tempo antigo, não lhes tivessem consagrado algumas linhas nas suas obras, que infelizmente, apenas nos chegaram em estado fragmentário. Frequentemente, também, os polemistas cristãos, em busca de argumentos para "provar" a "imoralidade ou o absurdo" da religião ancestral, transmitiram-nos cuidadosamente detalhes cujo carácter arcaico, às vezes mesmo primitivo, tendia a lançar o descrédito sobre a fé dos seus adversários.
Civilização Romana | Cotidiano
As mulheres e a fundação de Roma
Se é verdade que as lendas de um povo ou de uma raça nos revelam os traços mais profundos e as aspirações da sua alma, as de Roma, pelo lugar que concedem às histórias de amor, sugerem que os duros conquis­tadores do mundo dissimulavam em si uma ternura mais exigente do que eles mesmos se permitiram confessar. A história da sua cidade começa com um romance de amor: a paixão súbita do deus Marte pela “vestal” Reia Sílvia. Mas, se formos mais atrás ainda, até ao tempo em que, sob as muralhas de Tróia, se decidiu a sorte do mundo futuro, foi ainda um romance de amor que determinou o desenrolar dos destinos e no fim do qual começa a fortuna de Roma. Este romance dos primeiros tempos é contado por um Hino Homérico. Na montanha Ida, na Frigia, Anquises guardava os seus rebanhos. Anquises era sobrinho de Laomedonte, que reinava em Tróia. Era belo. Neste tempo, os príncipes, e às vezes os deuses, não desdenhavam fazer-se pastores. Ora, a deusa Afrodite tinha visto Anquises e sentiu-se per­dida de amor por ele. Afrodite não podia resistir a uma paixão. Sem tardar, vai ao encontro do belo pastor e conta-lhe toda uma história que vai inventando. Ela é, diz-lhe, uma filha do rei da Frigia. O deus Hermes raptou-a e levou-a para a montanha. Está muito triste, porque ninguém vem em seu socorro! Anquises compadece-se; a conversa torna-se mais terna. Nessa mesma noite, o belo pastor e a deusa, sob o seu disfarce de mortal, unem-se um ao outro. Afrodite, satisfeita, não finge mais. Reve­ la a sua divindade e anuncia a Anquises que em breve lhe dará um filho, mas recomenda-lhe formalmente que não diga a ninguém que a mãe é a deusa do amor, porque, caso contrário, Zeus, irritado por se descobrirem os segredos dos deuses, fulminaria o indiscreto com o seu raio.
Civilização Romana | Religião
Espiritualidade, religião e filosofia na Roma imperial
Como livrar o indivíduo das inquietações da existência? As diferentes sabedorias, a que chamamos filosofia antiga, não se propunham em princípio outro objetivo, e a religião, por sua vez, não procurava outra coisa, pois geralmente não visava à salvação do além. Esse além era muitas vezes negado ou concebido tão vagamente que não passava da tranquilidade da tumba, do repouso da morte. Filosofia, devoção e além suscitavam poucas angústias. Não é tudo: as respectivas fronteiras desses três domínios eram tão diferentes das que possuem entre nós que essas três palavras não tinham o mesmo sentido de hoje. Quem somos? Que devo fazer? Para onde vamos e o que posso esperar? Essas questões modernas nada têm de natural; nem o pensamento nem a devoção antigos as colocavam; elas nasceram da resposta cristã. O problema antigo e suas subdivisões eram diferentes. Entre nós a filosofia é uma matéria universitária e uma parte da cultura; é um saber que os estudantes aprendem e pelo qual se interessam com curiosidade as pessoas cultas. Os exercícios espirituais e as regras de vida pelas quais um indivíduo pode ordenar sua existência constituem uma parte eminente da religião; o além é outra parte: a ideia de não haver nada após a morte é eminentemente irreligiosa a nossos olhos. Ora, entre os antigos, normas de vida e exercícios espirituais formavam a essência da "filosofia", não da religião, e a religião estava mais ou menos separada das ideias sobre a morte e o além. Havia seitas, mas eram filosóficas, pois a filosofia era a matéria de seitas que propunham convicções e normas de vida a quem isso pudesse interessar; um indivíduo se tornava estoico ou epicurista e se conformava mais ou menos a suas convicções, assim como entre nós se é cristão ou marxista, bom o dever moral de viver a própria fé e militar. Um bom paralelo seria a China antiga, onde seitas doutrinais, confucionisino e taoísmo, propunham suas teorias e normas de vida aos interessados; ou o Japão atual, onde o mesmo homem pode se Interessar por uma seita desse gênero e continuar a observar, mino todo mundo, as práticas do xintoísmo e onde se casa segundo o rito xintoísta, porém morre e é sepultado conforme o rito budista, como se adotasse implicitamente as consoladoras crenças do budismo referentes a um além no qual jamais pensara durante sua existência.
Civilização Romana | Cotidiano
Jogos, banquetes, seitas... os prazeres da vida urbana na Roma Imperial
O estilo dos dois ou três primeiros séculos do Império era feito, portanto, de urbanidade e também de urbanismo. Os notáveis, já sabemos, constituíam uma nobreza citadina, que só morava em suas terras nos calores do verão. Da natureza esses urbanos apreciavam sobretudo os prazeres (amoenitas); percorriam suas profundezas selvagens, em pesadas expedições de caça, somente para demonstrar "virtude", coragem. A natureza segundo seu coração humaniza-se em parques, em jardins; uma paisagem será valorizada se um pequeno santuário na colina ou na ponta do cabo acolher o voto latente do local. Os homens só são plenamente eles mesmos na cidade, e uma cidade não se compõe de ruas familiares e multidões calorosas ou anônimas, e sim de comodidades materiais (commoda), como os banhos públicos, e edifícios que a enalteçam no espírito de seus moradores e dos viajantes e a tornem bem mais que um vulgar conjunto de habitações. "Pode-se chamar de cidade", pergunta Pausânias, "um lugar que não tem edifícios públicos, nem ginásio, nem teatro, nem praça, nem adução de água a nenhuma fonte e onde as pessoas vivem em cabanas iguais às choças (kalybai) penduradas na borda de um barranco?" Um romano não podia ser realmente ele mesmo no campo, só se sentia em casa na cidade. Principalmente se a cidade era cercada de muralhas: caso para a psicologia; os muros são o mais belo enfeite de uma cidade, porque, nesse cinturão, as pessoas se sentem como num home coletivo; as muralhas resultavam então da mentalidade privada. Mesmo não vivendo com medo de ladrões, preferimos aferrolhar a porta à noite; a cidade que tem muros pode igualmente se trancar ao escurecer; em consequência, toda entrada ou saída noturna era suspeita; os mal-intencionados não ousavam apresentar-se à guarda que detinha as chaves de cada porta e viam-se obrigados a descer com a ajuda dos cúmplices, num grande cesto, do alto de uma parte mal vigiada das muralhas
Civilização Romana | Filosofia
Sabedoria popular, moral e ética na Roma imperial
A opinião senatorial lembrava em cada ocasião o que cada indivíduo deveria fazer. Por seu turno, a sabedoria popular ensinava: "O sábio faz isso, o louco faz aquilo". O homem do povo dava lições teóricas aos filhos antecipando-se às falhas dos outros e fazendo um díptico1 do bem e do mal e também da imprudência e da prudência na conduta. A arrogância aristocrática não precisava de lições de sabedoria: ela própria era a lei tão logo abria a boca; os provérbios eram bons para o povo. O rico liberto que foi pai do poeta Horácio mandou o filho à escola a fim de receber a educação liberal que lhe havia faltado, mas ensinou-lhe pessoalmente a doutrina da sabedoria: para incitá-lo a fugir do vício e dos amores adúlteros, citava-lhe o caso de Fulano que fora pilhado em flagrante delito e perdera a reputação; para ensinar-lhe a prudência na gestão do patrimônio, mostrava-lhe como Beltrano acabara a vida na miséria. Pois um homem do povo teme tanto a imprudência quanto a imoralidade: "Como ignorar", dizia-lhe, "que tal ação é ou imoral ou desvantajosa quando o indivíduo que a comete só consegue que falem mal dele?". E citava como exemplo positivo a conduta de um grande personagem oficialmente reconhecido como homem de bem, pois fora nomeado jurado: "Eis aí uma autoridade", dizia. Poeta e pensador, o filho sentia algum parentesco entre essa doutrina oral e as lições escritas da filosofia. O povo também o percebia. Quando lemos nos epitáfios: "Ele nunca seguiu as lições de um filósofo" ou "Aprendeu sozinho todas as veneráveis verdades", não se trata de desprezo pela cultura, e sim de reivindicação de uma cultura igual: o defunto não teve necessidade da filosofia para viver como filósofo, para saber onde estavam o bom e o útil.
Civilização Romana | Cotidiano
A exposição da vida privada na Roma imperial
Existe um direito de todos sobre a conduta de cada um. Notável, plebeu e até senador, um romano não pode ter intimidade pessoal; todos podem se dirigir a todos e julgar a todos; todo mundo se conhece, ou tal presume. O menor particular pode, portanto, dirigir-se ao "público", que, afinal, não passa de determinado número de particulares como ele. Pode, por exemplo, fazer graça para divertir a plateia: todos são cúmplices. Hoje em dia conhecemos o humor dos célebres grafites de Nova York, através dos quais qualquer indivíduo revela aos transeuntes e aos passageiros do metrô suas ideias, seus amores ou simplesmente seu nome e sua existência, escrevendo nas paredes tudo que lhe passa pela cabeça. Fazia-se a mesma coisa em Pompeia: as paredes dessa cidadezinha entre outras estão cobertas de grafites traçados pelos transeuntes que queriam divertir outros transeuntes dando-lhes algo para ler. Curiosamente, idêntica publicidade triunfava também no que é o equivalente antigo de nossos cemitérios: a beira de estrada, que não pertencia a ninguém, e era ali, na saída das cidades, que se erguiam os túmulos. Tão logo cruzava a porta da cidade, o viajante passava entre duas fileiras de sepulturas que procuravam chamar-lhe a atenção. A tumba não se dirige à família, ou aos próximos, mas a todos. Pois a cova, embaixo da terra, era uma coisa, objeto de homenagens fúnebres que a família anualmente prestava ao defunto; a tumba com epitáfio era outra coisa: destinava-se aos passantes. Não vamos raciocinar sobre a enganosa analogia dos epitáfios modernos, essas celebrações sem destinatário que falam diante do céu. Os epitáfios romanos diziam: "Lê, transeunte, qual foi meu papel neste mundo. [...] E agora que me leste, boa viagem. — Salve, tu também." (pois a resposta do transeunte está gravada na pedra). Testemunhos comprovam que quando um antigo queria ler um pouco, bastava-lhe caminhar até uma das saídas da cidade; era menos difícil ler um epitáfio que a escrita cursiva de um livro. Deixo de lado um fato mais tardio, as necrópoles e também as catacumbas pagãs.
Civilização Romana | Direito
O direito privado na Roma imperial
Eis, pois, uma imagem compósita da pessoa privada: um cidadão livre nascido em liberdade, opulento e cuja riqueza não é recente, negociante bem-educado e até culto, homem do ócio, mas com uma dignidade política. Como os diferentes detalhes de sua bela vestimenta, cada um de seus traços é um legado dos acasos do passado histórico greco-romano. Não era preciso que as coações impusessem esse ideal: tratava-se de uma evidência. A arte funerária reflete essa imagem imperiosa, pois fala menos frequentemente de um além do que da condição do falecido e o diz numa linguagem compreensível a todos. De um túmulo a outro, segundo o capricho do talhador de pedra e as preferências do comprador, destaca-se esse ou aquele componente: a opulência do defunto, que faz suas contas, recebe a homenagem dos arrendatários, manda cortar o trigo com ceifadeira mecânica — recente maravilha da engenhosidade humana — ou fica em sua loja; o luxo da defunta, sentada numa poltrona de espaldar alto, onde se enfeita diante de um espelho que uma serva lhe estende e escolhe joias num cofre que outra escrava segura. Muitas vezes a imagem se reduz a uma espécie de emblema: uma sombrinha esculpida no lado de uma lápide informará aos passantes que a falecida dispunha de uma escrava para segurá-la e de ócio para dar seus passeios. Por vezes, antes da toalete, a defunta ergue devotamente a mão, em sinal de homenagem, diante de uma estatueta de Vênus, símbolo do casamento, que uma serva retirou do nicho de imagens sacras (lararium) e lhe apresenta.
Civilização Romana | Cotidiano
Patrimônio, trabalho e seus significados na Roma imperial
A economia romana comportava um importante setor servil; havia também a prisão por dívidas, em que um credor sequestrava o devedor com a mulher e os filhos para fazê-los trabalhar; e um setor do Estado em que os condenados, os escravos do fisco (ou seja, de inumeráveis domínios imperiais) penavam sob as chibatadas dos guardas; muitos cristãos conheceram tal destino. Mas o setor principal continuava juridicamente livre. Pequenos camponeses independentes penavam para pagar os impostos; como escreveu Peter Brown, "o Império Romano deixava o terreno livre para as oligarquias locais de notáveis e confiava-lhes o cuidado de garantir as tarefas administrativas; exigia-lhes pouca coisa pela via fiscal e evitava mostrar-se muito curioso quanto à maneira como os impostos eram extorquidos do campesinato; é a espécie de governo displicente que constituiu o princípio de muita dominação colonial num período recente". Outros camponeses eram meeiros desses notáveis. Trabalhadores agrícolas, assalariados, artesãos cujos serviços eram comprados para determinada tarefa tinham com os empregadores um pacto de compromisso que raramente assumia a forma de contrato escrito (à exceção de casos em que havia um contrato de aprendizagem). Assim como o Código Napoleônico acata a palavra do senhor nas contestações relativas aos salários dos criados, assim também um empregador romano faz justiça se os assalariados o roubam, como se fossem escravos. As cidades são essencialmente os lugares onde os notáveis, como a "nobreza citadina" da Renascença italiana, distribuem os lucros da terra: oposição completa com a Idade Média francesa e sua nobreza de castelões. Ao redor desses notáveis urbanos vivem artesãos e comerciantes que são os fornecedores de tais ricos; era isso uma "cidade" romana (que com uma cidade moderna só tem em comum o nome). Como se reconhecia uma cidade? Pela presença de uma classe ociosa, a dos notáveis. A ociosidade é a peça principal de sua "vida privada"; a Antiguidade foi a época da ociosidade tida como mérito.
Civilização Romana | Administração
Os deveres da vida pública na Roma imperial
Pela mesma indistinção do público e do privado, quando se queria designar alguém caracterizava-se sua pessoa pelo lugar que ocupava no espaço cívico, pelos títulos e dignidades políticas ou municipais, caso as tivesse; isso fazia parte de sua identidade, como entre nós a patente junto ao nome de um oficial ou os títulos de nobreza. Ao introduzir um personagem, um historiador ou romancista especificava se era escravo, plebeu, liberto, cavaleiro, senador. Neste último caso podia ser pretoriano ou consular, segundo a dignidade mais elevada à qual fora designado na escala das honras fosse o consulado ou apenas o pretório. Tratando-se de um militar de vocação, que preferia o comando de um regimento numa província ou nas fronteiras e adiava a preocupação de investir-se em Roma de uma dessas dignidades anuais, recebia o título de "o jovem Fulano" (adulescens), mesmo que fosse quadragenário embaixo da couraça: ainda não havia ingressado na verdadeira carreira. Isso com relação à nobreza senatorial; quanto aos notáveis de cada cidade, Censorino assim caracteriza para uso dos leitores o protetor (amicus) ao qual tudo deve e dedica seu livro: "Cumpriste até o fim a carreira municipal, recebeste a honra de ser sacerdote dos imperadores entre os homens principais de tua cidade e te elevas além do nível provincial por tua dignidade de cavaleiro romano". Pois a vida municipal também tinha sua hierarquia. Quem não era plebeu e pertencia ao Conselho local (curia), como verdadeiro notável, era um curial; até mesmo um "homem principal", se tivesse desempenhado na ordem todas as funções anuais até as mais elevadas, que eram também as mais custosas.
Civilização Romana | Política
A corrupção política na Roma imperial
Esquecendo que Roma não é um Estado moderno, muitos historiadores consideraram esses princípios antigos como uma perversão dos princípios modernos; proclamaram que em Roma havia corrupção, propina e clientelismo por toda parte ou ainda não diziam nada, julgando que tais "abusos" só tivessem interesse anedótico. Segundo os modernos, um homem público não serve realmente ao Estado se se aproveita de suas funções para encher os bolsos ou coloca sua ambição pessoal na frente do interesse geral. É esquecer que o Estado moderno não constitui a única forma eficaz de dominação: um mercado negro, uma máfia também o são. A Máfia que protege e explora os imigrantes italianos de uma grande cidade estadunidense ou os trabalhadores imigrados de uma cidade francesa preenche uma função "pública"; faz justiça entre esses recém-chegados e os protege contra o resto da população por solidariedade nacional; deve dedicar-se a seus compatriotas, sob pena de perder toda a credibilidade; faz o bem deles e por conseguinte os comanda paternalmente. Preenche seu papel tanto mais conscientemente quanto o dinheiro que extorque dos imigrantes tem o seguinte preço: quem protege controla e quem controla pilha. Como um velho romano, o menor "patrono" da Máfia tem expressões elevadas sobre sua dedicação à causa comum e entende que sua relação com cada um dos protegidos seja pessoal e confiante. Um nobre romano, ou mesmo um simples notável, parecia-se mais com esse "padrinho" do que com um moderno tecnocrata; enriquecer através do serviço público nunca impediu de ter o serviço público por ideal: o contrário seria surpreendente.
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Religião Fenícia
Civilização Fenícia - Idade Antiga - Antiguidade Oriental
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Fontes | Religião fenícia segundo os textos de Ras Shamra | Religião fenícia na Baixa Época | O Culto | A vida além túmulo

Fontes

Existe tuna tríplice fonte para o estudo da religião fenícia: o A.T., os autores antigos gregos e latinos, e as descobertas arqueológicas.

A.T. Através das páginas candentes do A.T. a religião fenícia aparece-nos condenada pelo Monoteísmo hebraico por causa de sua abominável idolatria. Quem não conhece, só para citar um exemplo, o dramático e vitorioso desafio do profeta Elias aos sacerdotes de Baal introduzidos por Jezabel, a princesa de Tiro?

Autores antigos - Uma das principais obras antigas citadas no estudo da religião fenícia é o trabalho de Filon, escritor grego nascido na Fenícia pelo ano 42 da era cristã. Filon traduziu as obras de um sacerdote fenício do século XI a.e.c.. chamado Sanchoniathon. Infelizmente FIlon só nos é conhecido através de fragmentos citados por diversos autores entre os quais figura Eusébio, a pai da História Eclesiástica.

Escavações arqueológicas - Os textos de Ras Shamra constituem, naturalmente, as principais fontes arqueológicas. Com efeito, as escavações realizadas na antiga Ugarit ampliaram muito nossos conhecimentos sobre as idéias religiosas dos fenícios. (Os textos de Ras Shamra nos fazem conhecer a religião fenícia arcaica, pois, se a redação das tabuinhas remonta a segunda metade do século XV, seu conteúdo encerra mitos e lendas extremamente antigos, por mais modificados que tenham sido através dos séculos. E esta religião parece nitidamente do tipo asiânico pela parte preponderante que dá aos ritos agrários e às divindades da essência de par de fertilidade e de fecundidade.

Um estudo, mesmo sumário, da religião fenícia deve distinguir duas épocas diferentes: a primeira, que nos é descrita pelas tabuinhas de Ras Shamra, remonta ao II milênio a.e.c.; a segunda é a chamada baixa-época e mostra-nos a religião fenícia já sob a influência grega.

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A religião fenícia segundo os textos do Ras Shamra

Vamos citar, a título de exemplo, alguns deuses do panteão fenício tal qual o encontramos nos textos da antiga Ugarit. No cimo do panteão está o deus El-Dagon que possui as atribuições de presidir o curso dos rios e anunciar as chuvas. Em segundo lugar, temos o deus Baal; esse nome, que significa mestre, senhor, designa, nos textos de Ras Shamra, um deus determinado que equivale ao Adad dos mesopotâmicos (Hadad dos sírios). É o deus das alturas, da tempestade, do raio e também da chuva benfazeja ou devastadora. Segundo um dos mitos do Ras Shamra, Baal não possuía ainda templo enquanto que os demais deuses já tinham seu edifício de culto; tal fato parece indicar que Baal era um deus local, pré-fenício, tendo sido posteriormente incluído no panteão. Aliyan, filho de Baal, regia as fontes subterrâneas e os cursos d'água. Anat, virgem guerreira, irmã de Aliyan, lembra Ishtar dos assírios. Mot, antagonista de Allyan, lembra o Nergal dos babilônios; sol do meio-dia, destruidor de toda vegetação e deus dos infernos.

Através dos textos do Ras Shamra, encontramos na origem do panteão fenício, Os deuses característicos dos asiânicos que precederam, na Fenícia como no resto da Ásia Ocidental, a chegada dos semitas. A religião da Fenícia arcaica é, pois, mais um dado importante, ao lado da religião suméria e da religião hitita, para uma reconstituição da religião primitiva da Ásia Ocidental.

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A religião fenícia na Baixa Época

Limitar-nos-emos a citação dos principais componentes do numeroso panteão dessa Época. Esses deuses eram cultuados em diversos lugares, mas cada cidade possuía seu próprio patrono. Os fenícios chamavam seus deuses alonim (plural de el = deus) ou então baalim (plural do baal = senhor). Note-se que esta palavra, além do designar o grande deus Baal dos textos de Ras Shamra, era também empregada para designar separadamente os nomes dos deuses de diversos lugares. Assim, por exemplo, Melqart é o baal de Tiro... Vejamos, agora, algumas divindades e a região de que eram protetoras e onde recebiam culto especial.

Melqart como já exposto, era o baal de Tiro. Seu nome significa "deus da cidade"; os autores gregos e as inscrições bilíngues assimilaram-no à Héracles. A princesa Jezabel introduziu seu culto no reino de Israel, o que lhe valeu as maldições do profeta Elias. Propagado pelos tirios, o culto do Melqart teve fervorosos adeptos no Chipre, Egito e em Cartago.

Dagon era a baal do litoral fenício. Conhecemo-lo no A. T. através da história de Sansão; era cultuado principalmente em Asdod.

Eshmun, deus de Sidon, era identificado pelos autores gregos com Asclépios.

Em Gebal e em Beirut prestava-se culto a uma baalat (feminino de baal). A deusa de Gebal, Ashtart, era, a personificação da fecundidade, deusa da maternidade e da fertilidade, a deusa-mãe.

Além de seu deus protetor, cada cidade fenícia possuía outras divindades nacionais e estrangeiras, principalmente mesopotâmicas, egípcias e gregas. Ao lado do culto aos deuses propriamente ditos, os fenícios veneravam as montanhas, as águas, as pedras e as árvores sagradas. Estas eram consideradas habitações dos deuses.

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O culto

Os santuários fenícios eram construídos de preferência em lugares elevados. O templo consistia essencialmente em um recinto sagrado situado em pleno ar livre e possuindo, ao centro, uma capela ou uma pedra sagrada. Diante da capela ou da pedra havia um altar para os sacrifícios. Uma fonte e um bosque completavam o ambiente.

Nesses templos existia um numeroso clero dividido em diversas categorias de acordo com a função desempenhada. Encontramos, assim, os adivinhos que proferiam oráculos, os barbeiros sagrados encarregados de cortar o cabelo dos que o dedicassem aos deuses, etc. O pessoal dos templos era completado pelos hieródulos dos dois sexos que se dedicavam à prostituição sagrada. Conhecemos mal o funcionamento e a razão de ser dessa instituição contra a qual a Bíblia e os escritores da Igreja protestaram várias vezes com violência.

Os fenícios ofereciam a seus deuses sacrifícios de animais como bois, cervos, bodes, cordeiros, pássaros, etc. Havia, igualmente, libações de óleo, leite e vinho. Quando o sacrifício era de grande importância, costumava ser comemorado por meio de uma estela votiva. O que nos causa espanto e horror é o sacrifício de crianças. Tal costume nefando, atestado por Filon, Deodoro e pelas próprias escavações arqueológicas, persistiu segundo Tertuliano, em plena era cristã.

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A vida de além-túmulo

Os fenícios acreditavam na vida de além-túmulo. A alma humana, separada do corpo, levava uma vida sem prazeres entre outras "sombras". A sobrevivência da alma, entretanto, estava intimamente relacionada com a sorte do cadáver, dai as precauções tomadas para a conservação do mesmo. Sepultavam-no com objetos de uso corrente do morto tais coma lâmpadas, vasos e jóias. Para evitar os contumazes violadores de sepulturas, procuravam-se lugares escondidos e abrigados: poços profundos e cavernas. Os epitáfios, ao mesmo tempo que asseguravam a ausência do quaisquer tesouros nos sarcófagos, continham sérias ameaças e maldições contra os que ousassem profanar a paz dos mortos. Vejamos este interessante exemplo de inscrição funerária do rei Tabnit, encontrada em Sidon:

"Eu, Tabnit, sacerdote de Ashtart, rei dos Sidônios, filho do Eshmunazar, sacerdote de Ashtart, rei dos Sidônios, descanso nesta caixa. Quem quer que sejas, que encontrares esta caixa, não abras meu túmulo, não me perturbes, pois não existe aqui prata, não existe aqui ouro, tem espécie alguma do vasos. Despojado, em repouso sozinho nesta caixa. Oh! Não abras meu túmulo e não me perturbes, pois é uma coisa abominável a Ashtart, e se te ousares abrir meu túmulo e se tu ousares perturbar-me, que não tenhas nem progenitura entre os vivos sob o sol, nem leito de repouso como as rephaim (sombras)".

Os fenícios adquiriram o hábito, certamente por influência dos egípcios, de mumificar pelo menos os cadáveres das pessoas mais importantes. Não é possível dizer com certeza a época em que tal costume foi introduzido na Fenícia, pois as condições climatéricas não favoreceram, como no Egito, a conservação indefinida das múmias.

Como a religião mesopotâmica, a religião fenícia estava desprovida de conceito de recompensa ou castigo no além, relacionados com o procedimento na vida terrena. As práticas religiosas visavam a conciliar a boa vontade e a proteção dos deuses para uma vida longa e feliz neste mundo. Essa mentalidade está bem expressa na seguinte inscrição em que um rei de Biblos invoca a senhora de Biblos para que faça com que ele viva, que prolongue seus dias e seus anos, porque é um rei justo, que ela lhe faça graça aos olhos dos deuses e aos olhos de seu povo.

Palavras e significados
Referências Bibliográficas

CONTENAU, G. La civilisation Phénicienne. Nouvelle édition revue. Payot, Paris 1944.

9 Textos publicados
Civilização Fenícia
Civilização Fenícia | Geografia
Localização geográfica fenícia
O território habitado pelos fenícios era uma pequena faixa de terra limitada ao norte pelo golfo de Issus situado alem do rio Eleutero (hoje Nahr-el-Kebir), ao sul pelo monte Carmelo, a leste pelo Mediterrâneo e a oeste pela cadeia do Libano. Esta última, cujo nome significa branco, forma uma muralha de difícil acesso com altitudes que vão, em alguns pontos, além dos três mil metros. Seus prolongamentos atingem o próprio litoral, e aí terminam abruptamente dividindo a pequena Fenícia em setores
Civilização Fenícia | Introdução
Todos os caminhos passam pela fenícia
O viajante que, partindo do Egito, pretendesse chegar a Babilônia, deveria, em primeiro lugar, atingir a atual região de Alepo, antiga Haleb na Síria, região para a qual convergiam as estradas que levavam do Eufrates Médio ao litoral mediterrâneo. Dois caminhos conduziam do vale do Nilo àquela importante encruzilhada: um, por terra, percorria o istmo, o deserto, as estepes palestinenses e a Síria interior; outro, mais fácil e menos perigoso, consistia no percurso marítimo até o litoral fenício e
Civilização Fenícia - Introdução
Legado Fenício
Navegantes e comerciantes, os fenícios aperfeiçoaram a arte náutica e introduziram uma nova mentalidade em povos distantes, pela venda dos produtos de sua indústria ou da indústria de outras regiões, produtos esses intimamente relacionados com a elevação do nível de vida material; o comércio fenício levou o conforto, o bem-estar a povos das mais diferentes raças e regiões do Mundo Antigo. Mas os fenícios não transportavam somente mercadorias; com os artigos de comércio infiltravam-se os aspectos
Civilização Fenícia - Religião
Religião Fenícia
Os fenícios acreditavam na vida de além-túmulo. A alma humana, separada do corpo, levava uma vida sem prazeres entre outras -sombras-. A sobrevivência da alma, entretanto, estava intimamente relacionada com a sorte do cadáver, dai as precauções tomadas para a conservação do mesmo. Sepultavam-no com objetos de uso corrente do morto tais coma lâmpadas, vasos e jóias. Para evitar os contumazes violadores de sepulturas, procuravam-se lugares escondidos e abrigados: poços profundos e cavernas
Civilização Fenícia - Artes
Arte Fenícia
O que caracteriza as manifestações artísticas dos fenícios é, em geral, a falta de originalidade. Essa falta encontra sua explicação em dois fatos. Em primeiro lugar, os fenícios eram um povo utilitarista que se preocupava constantemente com a realização de bons negócios e a consequente obtenção de lucros compensadores. O -time is money- já era, naquela época, uma norma de vida. É a mentalidade comercial, via de regra, não gera clima propicio para as criações originais e para o desenvolvimento
Civilização Fenícia - Artes
Literatura fenícia
As descobertas efetuadas em Ras Shamra constituíram fonte preciosa pra o conhecimento da literatura fnícia. Com efeito, essa literatura, esquecida durante milênios, revelou-se através do material encontrado, que fazia parte da biblioteca dos templos de Ugarit, como um rico patrimônio cultural. Entre as centenas de tabuinhas, existem documentos diplomáticos, administrativos, documentos de arquivos reais, correspondência comercial e particular, hinos e textos mitológicos. Com relação a esses
Civilização Fenícia - Cotidiano
Alfabeto fenício
A principal característica do alfabeto fenício é seu consonantismo. Os fenícios não escreviam as vogais das palavras: só grafavam as consoantes. Tal fato que, a primeira vista, nos parece estranho, torna-se compreensível quando levamos em considerarão a predominância, nos vocábulos das línguas semíticas, da raiz triconsonantal; este grupo abstrato de consoantes encerra a idéia fundamental do vocábulo e de seus derivados. A essa estrutura fundamental ajuntam-se vogais, prefixos e sufixos que
Civilização Fenícia - Cotidiano
Estrutura político-social fenícia
A população das cidades era constituída, em grande parte, de numeroso proletariado urbano que se dedicava às diversas ocupações industriais. Em algumas cidades fenícias, encontramos colônias estrangeiras. Marinheiros e mercadores, que percorriam mares e terras distantes, completavam o cosmopolitismo dos portos fenícios. A população rural vivia sob rigorosa opressão, os lavradores só eram parceiros, felás, e tinham que entregar ao Estado ou aos antigos cidadãos a quarta parte dos produtos e, em
Civilização Fenícia - Cotidiano
O povo Fenício
Os fenícios não constituíam um povo heterogêneo somente sob o ponto de vista racial; a origem de sua cultura também o é: Assim como na Mesopotâmia não se pode estudar o babilônio sem encontrar o sumério (protótipos sumerianos para as leis babilônicas do Código de Hammurabi, protótipos sumerianos da maior parte das grandes epopeias religiosas da Babilônia), na Fenícia encontramos sob o cananeu, o asiânico e o egeu. Nas duas extremidades do crescente fértil, como o assiriólogo Clay chamava o
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ULTIMAS ATUALIZAÇOES
Mitologia
O príncipe predestinado
Havia em tempos um rei do Egito que não tinha um filho e herdeiro. Então sua majestade (vida, força e saúde) pediu aos deuses do seu tempo que lhe dessem um. Os deuses resolveram conceder-lhe o que ele tanto desejava, e ele dormiu, nessa noite, com sua esposa, e esta ficou grávida. Quando a mulher cumpriu os meses do nascimento deu à luz um rapaz. Ao seu nascimento assistiram as [Sete] Hathores, que se reuniram em volta do pequeno príncipe para lhe preverem o futuro. Então as Hathores disseram: «Nasceu em um mau dia, mau, mau, mau. Morrerá por causa de um crocodilo! E se não for por um crocodilo, será por causa de uma serpente! E se não morrer por causa do crocodilo nem por causa da serpente, será com certeza por causa de um cão!»
Mitologia
O mago Merlin
Era uma vez, na Bretanha, uma moça que deu à luz um bebê tão peludo como nunca se tinha visto igual. Ela pediu às pessoas que ajudaram seu parto que o levassem imediatamente à igreja para ser batizado. - Que nome quer lhe dar? - O nome de seu avô materno - respondeu a moça. O bebê então recebeu o nome de Merlin. Ora, o pai de Merlin era um diabo, mas isso a mãe não tinha coragem de contar para ninguém. Um dia, embalando o menino nos braços, ela o beijou, apesar de sua feiúra, e disse: - Já que não posso contar quem é seu pai, meu querido, vou dizer que você é uma criança sem pai. Conforme a lei, vou ser condenada à morte, mesmo sem merecer. - Certamente você não vai morrer por causa do meu nascimento. Merlin tinha então só nove meses. Sua mãe ficou tão assustada ao ouvi-lo falar que o deixou cair. O menino começou a chorar, chamando a atenção de todos os vizinhos, que quiseram saber a causa daquele barulhão. Por acaso a mãe de Merlin esta­va querendo matá-lo? A quem lhe perguntava, a moça dizia: - Imagine que Merlin fala como adulto! Querendo ouvi-lo, algumas pessoas puseram-se a provocá-lo: - Ah, para sua mãe melhor seria que você nunca tivesse nascido. - Calem-se - gritou o bebê de repente, vermelho de raiva. - Deixem minha mãe em paz. Enquanto eu viver, ninguém ousa­rá fazer-lhe mal ou julgá-la, a não ser Deus.
História
Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus
Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava às primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e, outras, controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade.
História
Ollamaliztli, o jogo de bola asteca
O jogo de bola que Huemac e Tlaloc disputaram era uma das práticas rituais mais importantes da civilização asteca. Longe de praticarem apenas um desporto, os jogadores encenavam uma representação cósmica e mística, culminando eventualmente no sacrifício humano do perdedor. O significado simbólico do jogo variava de povo para povo. Entre os astecas, por exemplo, ele era visto como uma alegoria do eterno duelo entre Huitzilopochtli (o Sol) e as forças noturnas da destruição; já entre os maias quichés, o simbolismo estava centrado na luta entre a vida e a morte, temática central do Popol Vuh, o livro sagrado dos maias (as canchas seriam espécies de portais místicos que davam acesso ao Xibalba, o inframundo maia). Ao mesmo tempo, havia nessas partidas um aspecto profano indubi­tável, já que durante a sua realização a plateia divertia-se e empolgava-se como em qualquer jogo de futebol moderno, realizando apostas elevadíssimas que podiam incluir a esposa, os filhos e a própria liberdade do apostador. O epílogo sangrento também devia ser muito apreciado pela maioria da plateia, sequiosa de barbárie, tal como acontecia nos autos de fé medievais, nos enfor­camentos do velho oeste ou nas touradas que, ainda hoje, fazem o deleite da parcela menos esclarecida da humanidade.
Mitologia
Verdade e Mentira
Parece que em alguma ocasião Verdade havia tomado uma faca emprestada a seu irmão e, quando chegou o momento de a restituir, descobriu que a havia perdido. Explicou o fato, com muitos pedidos de desculpas à Mentira, prometendo reparar tudo com outra faca. A substituição foi rejeitada por Mentira que com absurda fúria disse à Enéade que a faca desaparecida era única: «A lâmina era a montanha de Ial, o cabo era feito de madeira de Copto, a bainha era o túmulo do deus e as correias eram do gado de Kal.» Resolvido a exigir do irmão o que considerava uma justa retribuição, Mentira insistiu em um julgamento legal e fez Verdade comparecer perante um tribunal presidido pela assembleia dos nove deuses da Enéade. Os motivos que teve para tomar tão severa providência eram inspirados por um ódio profundo. A verdade é que Mentira esperava não apenas uma retribuição pelo prejuízo que tivera com a perda da faca, mas também ferir Verdade de uma maneira tão profunda que ele nunca mais criasse problemas no futuro.