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Religião Fenícia
Religião
Civilização Fenícia - Idade Antiga - Antiguidade Oriental
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Fontes | Religião fenícia segundo os textos de Ras Shamra | Religião fenícia na Baixa Época | O Culto | A vida além túmulo

Fontes

Existe tuna tríplice fonte para o estudo da religião fenícia: o A.T., os autores antigos gregos e latinos, e as descobertas arqueológicas.

A.T. Através das páginas candentes do A.T. a religião fenícia aparece-nos condenada pelo Monoteísmo hebraico por causa de sua abominável idolatria. Quem não conhece, só para citar um exemplo, o dramático e vitorioso desafio do profeta Elias aos sacerdotes de Baal introduzidos por Jezabel, a princesa de Tiro?

Autores antigos - Uma das principais obras antigas citadas no estudo da religião fenícia é o trabalho de Filon, escritor grego nascido na Fenícia pelo ano 42 da era cristã. Filon traduziu as obras de um sacerdote fenício do século XI a.e.c.. chamado Sanchoniathon. Infelizmente FIlon só nos é conhecido através de fragmentos citados por diversos autores entre os quais figura Eusébio, a pai da História Eclesiástica.

Escavações arqueológicas - Os textos de Ras Shamra constituem, naturalmente, as principais fontes arqueológicas. Com efeito, as escavações realizadas na antiga Ugarit ampliaram muito nossos conhecimentos sobre as idéias religiosas dos fenícios. (Os textos de Ras Shamra nos fazem conhecer a religião fenícia arcaica, pois, se a redação das tabuinhas remonta a segunda metade do século XV, seu conteúdo encerra mitos e lendas extremamente antigos, por mais modificados que tenham sido através dos séculos. E esta religião parece nitidamente do tipo asiânico pela parte preponderante que dá aos ritos agrários e às divindades da essência de par de fertilidade e de fecundidade.

Um estudo, mesmo sumário, da religião fenícia deve distinguir duas épocas diferentes: a primeira, que nos é descrita pelas tabuinhas de Ras Shamra, remonta ao II milênio a.e.c.; a segunda é a chamada baixa-época e mostra-nos a religião fenícia já sob a influência grega.

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A religião fenícia segundo os textos do Ras Shamra

Vamos citar, a título de exemplo, alguns deuses do panteão fenício tal qual o encontramos nos textos da antiga Ugarit. No cimo do panteão está o deus El-Dagon que possui as atribuições de presidir o curso dos rios e anunciar as chuvas. Em segundo lugar, temos o deus Baal; esse nome, que significa mestre, senhor, designa, nos textos de Ras Shamra, um deus determinado que equivale ao Adad dos mesopotâmicos (Hadad dos sírios). É o deus das alturas, da tempestade, do raio e também da chuva benfazeja ou devastadora. Segundo um dos mitos do Ras Shamra, Baal não possuía ainda templo enquanto que os demais deuses já tinham seu edifício de culto; tal fato parece indicar que Baal era um deus local, pré-fenício, tendo sido posteriormente incluído no panteão. Aliyan, filho de Baal, regia as fontes subterrâneas e os cursos d'água. Anat, virgem guerreira, irmã de Aliyan, lembra Ishtar dos assírios. Mot, antagonista de Allyan, lembra o Nergal dos babilônios; sol do meio-dia, destruidor de toda vegetação e deus dos infernos.

Através dos textos do Ras Shamra, encontramos na origem do panteão fenício, Os deuses característicos dos asiânicos que precederam, na Fenícia como no resto da Ásia Ocidental, a chegada dos semitas. A religião da Fenícia arcaica é, pois, mais um dado importante, ao lado da religião suméria e da religião hitita, para uma reconstituição da religião primitiva da Ásia Ocidental.

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A religião fenícia na Baixa Época

Limitar-nos-emos a citação dos principais componentes do numeroso panteão dessa Época. Esses deuses eram cultuados em diversos lugares, mas cada cidade possuía seu próprio patrono. Os fenícios chamavam seus deuses alonim (plural de el = deus) ou então baalim (plural do baal = senhor). Note-se que esta palavra, além do designar o grande deus Baal dos textos de Ras Shamra, era também empregada para designar separadamente os nomes dos deuses de diversos lugares. Assim, por exemplo, Melqart é o baal de Tiro... Vejamos, agora, algumas divindades e a região de que eram protetoras e onde recebiam culto especial.

Melqart como já exposto, era o baal de Tiro. Seu nome significa "deus da cidade"; os autores gregos e as inscrições bilíngues assimilaram-no à Héracles. A princesa Jezabel introduziu seu culto no reino de Israel, o que lhe valeu as maldições do profeta Elias. Propagado pelos tirios, o culto do Melqart teve fervorosos adeptos no Chipre, Egito e em Cartago.

Dagon era a baal do litoral fenício. Conhecemo-lo no A. T. através da história de Sansão; era cultuado principalmente em Asdod.

Eshmun, deus de Sidon, era identificado pelos autores gregos com Asclépios.

Em Gebal e em Beirut prestava-se culto a uma baalat (feminino de baal). A deusa de Gebal, Ashtart, era, a personificação da fecundidade, deusa da maternidade e da fertilidade, a deusa-mãe.

Além de seu deus protetor, cada cidade fenícia possuía outras divindades nacionais e estrangeiras, principalmente mesopotâmicas, egípcias e gregas. Ao lado do culto aos deuses propriamente ditos, os fenícios veneravam as montanhas, as águas, as pedras e as árvores sagradas. Estas eram consideradas habitações dos deuses.

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O culto

Os santuários fenícios eram construídos de preferência em lugares elevados. O templo consistia essencialmente em um recinto sagrado situado em pleno ar livre e possuindo, ao centro, uma capela ou uma pedra sagrada. Diante da capela ou da pedra havia um altar para os sacrifícios. Uma fonte e um bosque completavam o ambiente.

Nesses templos existia um numeroso clero dividido em diversas categorias de acordo com a função desempenhada. Encontramos, assim, os adivinhos que proferiam oráculos, os barbeiros sagrados encarregados de cortar o cabelo dos que o dedicassem aos deuses, etc. O pessoal dos templos era completado pelos hieródulos dos dois sexos que se dedicavam à prostituição sagrada. Conhecemos mal o funcionamento e a razão de ser dessa instituição contra a qual a Bíblia e os escritores da Igreja protestaram várias vezes com violência.

Os fenícios ofereciam a seus deuses sacrifícios de animais como bois, cervos, bodes, cordeiros, pássaros, etc. Havia, igualmente, libações de óleo, leite e vinho. Quando o sacrifício era de grande importância, costumava ser comemorado por meio de uma estela votiva. O que nos causa espanto e horror é o sacrifício de crianças. Tal costume nefando, atestado por Filon, Deodoro e pelas próprias escavações arqueológicas, persistiu segundo Tertuliano, em plena era cristã.

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A vida de além-túmulo

Os fenícios acreditavam na vida de além-túmulo. A alma humana, separada do corpo, levava uma vida sem prazeres entre outras "sombras". A sobrevivência da alma, entretanto, estava intimamente relacionada com a sorte do cadáver, dai as precauções tomadas para a conservação do mesmo. Sepultavam-no com objetos de uso corrente do morto tais coma lâmpadas, vasos e jóias. Para evitar os contumazes violadores de sepulturas, procuravam-se lugares escondidos e abrigados: poços profundos e cavernas. Os epitáfios, ao mesmo tempo que asseguravam a ausência do quaisquer tesouros nos sarcófagos, continham sérias ameaças e maldições contra os que ousassem profanar a paz dos mortos. Vejamos este interessante exemplo de inscrição funerária do rei Tabnit, encontrada em Sidon:

"Eu, Tabnit, sacerdote de Ashtart, rei dos Sidônios, filho do Eshmunazar, sacerdote de Ashtart, rei dos Sidônios, descanso nesta caixa. Quem quer que sejas, que encontrares esta caixa, não abras meu túmulo, não me perturbes, pois não existe aqui prata, não existe aqui ouro, tem espécie alguma do vasos. Despojado, em repouso sozinho nesta caixa. Oh! Não abras meu túmulo e não me perturbes, pois é uma coisa abominável a Ashtart, e se te ousares abrir meu túmulo e se tu ousares perturbar-me, que não tenhas nem progenitura entre os vivos sob o sol, nem leito de repouso como as rephaim (sombras)".

Os fenícios adquiriram o hábito, certamente por influência dos egípcios, de mumificar pelo menos os cadáveres das pessoas mais importantes. Não é possível dizer com certeza a época em que tal costume foi introduzido na Fenícia, pois as condições climatéricas não favoreceram, como no Egito, a conservação indefinida das múmias.

Como a religião mesopotâmica, a religião fenícia estava desprovida de conceito de recompensa ou castigo no além, relacionados com o procedimento na vida terrena. As práticas religiosas visavam a conciliar a boa vontade e a proteção dos deuses para uma vida longa e feliz neste mundo. Essa mentalidade está bem expressa na seguinte inscrição em que um rei de Biblos invoca a senhora de Biblos para que faça com que ele viva, que prolongue seus dias e seus anos, porque é um rei justo, que ela lhe faça graça aos olhos dos deuses e aos olhos de seu povo.

Referências Bibliográficas

CONTENAU, G. La civilisation Phénicienne. Nouvelle édition revue. Payot, Paris 1944.

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História da Antiguidade Oriental
História da Antiguidade Oriental -  | 1969 |
Mário Giordani Curtis
362 Páginas
1969 /
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