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Civilização Romana | Família
O casamento romano e os costumes no século de ouro
É impossível saber, como é natural, o que foi a realidade diária do casamento durante os primeiros tempos de Roma. Relatos dignos de fé apenas começam a lançar alguma luz sobre este domínio, como sobre outros, a partir do século III a.e.c. e. ainda assim, trata-se geralmente de testemunhos que se referem apenas a famílias da aristocracia. Nas diver­sas classes sociais, e quando não se seguiam as tradições patriarcais, a situação real devia apresentar diferenças consideráveis. Todavia, a partir da unificação da cidade, quando patrícios e plebeus passaram a gozar sensivelmente dos mesmos privilégios, as tradições dos primeiros pare­cem ter exercido uma espécie de atração sobre os costumes das famílias dos segundos. Por outro lado, segundo pensamos, as principais diferen­ças, a partir do século III, ocorrem mais em função da fortuna e da res­ponsabilidade política do que de qualquer outro fator. A cidade é go­vernada, nessa altura, por um regime estritamente oligárquico: há as fa­mílias cujos homens se sentam no Senado, assumindo, a intervalos regu­lares, as grandes magistraturas do Estado, e há a massa dos outros cida­dãos, que só vão às assembleias para legitimar as decisões preparadas pelos senadores e eleger os candidatos que lhes são propostos e que escolhem de acordo com o prestígio dos homens que se apresentam como seus garantes. No resto do tempo, são “clientes” destes grandes senho­res. Naturalmente, o casamento não tem a mesma importância para uns e para outros. Temos muito pouca informação sobre a maneira como estas uniões se realizavam na massa do povo, temos um pouco mais quando se trata das outras classes.
Civilização Romana | Família
O casamento romano no período arcáico
Historiadores e poetas afirmam que o casamento foi, durante muitos séculos, uma das instituições mais sólidas e respeitadas da cidade roma­na. Rivalizam no elogio da pureza dos costumes antigos, do tempo em que uma mulher que tivesse ficado viúva não mais consentiria em voltar a casar, em que, por maioria de razão, nunca se levantava a questão do divórcio. Pelo contrário, lamentam o relaxamento progressivo de uma relação que, durante o Império, se tornara de uma extrema fragilidade, enquanto nos bons velhos tempos o seu respeito era considerado a garantia mais firme da grandeza romana e a marca mais incontroversa de uma saúde moral a toda prova. Hoje ainda, muitos historiadores fazem-se eco destas queixas, considerando que uma das razões profundas da decadência de Roma reside no abandono deste velho ideal por onde se orientaram anteriormente os severos camponeses do Lácio. Antes de nos interrogarmos por que razão o casamento romano per­deu a sua solidez ao longo do tempo, convém, decerto, examinar a pró­pria instituição. A instituição do casamento é uma daquelas a que os juristas romanos não só dispensaram maior cuidado, mas também a que se dedicaram a definir e fixar com a mais extraordinária minúcia as consequências legais. O conjunto dos textos que a ela se referem ocupa um lugar considerável nas compilações jurídicas, o que prova a impor­tância atribuída a um ato de que esperavam, em primeiro lugar, a sobre­vivência, mas também, e talvez mais ainda, a estabilidade do Estado.
Civilização Romana | Religião
Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus
Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava às primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e, outras, controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade. A religião da época clássica, aquela que conhecemos melhor graças aos textos e a numerosos testemunhos de toda a espécie, não manteve muitas vezes senão vestígios, dificilmente detectáveis, destas crenças e destes ritos. Esta ou aquela prática de carácter mágico, nos tempos de Cícero ou de Augusto, já não eram mais do que sequelas folclóricas e não teríamos conservado delas nenhuma lembrança se os “antiquários” de então, ávidos de recolher as coisas estranhas do tempo antigo, não lhes tivessem consagrado algumas linhas nas suas obras, que infelizmente, apenas nos chegaram em estado fragmentário. Frequentemente, também, os polemistas cristãos, em busca de argumentos para "provar" a "imoralidade ou o absurdo" da religião ancestral, transmitiram-nos cuidadosamente detalhes cujo carácter arcaico, às vezes mesmo primitivo, tendia a lançar o descrédito sobre a fé dos seus adversários.
Civilização Romana | Cotidiano
As mulheres e a fundação de Roma
Se é verdade que as lendas de um povo ou de uma raça nos revelam os traços mais profundos e as aspirações da sua alma, as de Roma, pelo lugar que concedem às histórias de amor, sugerem que os duros conquis­tadores do mundo dissimulavam em si uma ternura mais exigente do que eles mesmos se permitiram confessar. A história da sua cidade começa com um romance de amor: a paixão súbita do deus Marte pela “vestal” Reia Sílvia. Mas, se formos mais atrás ainda, até ao tempo em que, sob as muralhas de Tróia, se decidiu a sorte do mundo futuro, foi ainda um romance de amor que determinou o desenrolar dos destinos e no fim do qual começa a fortuna de Roma. Este romance dos primeiros tempos é contado por um Hino Homérico. Na montanha Ida, na Frigia, Anquises guardava os seus rebanhos. Anquises era sobrinho de Laomedonte, que reinava em Tróia. Era belo. Neste tempo, os príncipes, e às vezes os deuses, não desdenhavam fazer-se pastores. Ora, a deusa Afrodite tinha visto Anquises e sentiu-se per­dida de amor por ele. Afrodite não podia resistir a uma paixão. Sem tardar, vai ao encontro do belo pastor e conta-lhe toda uma história que vai inventando. Ela é, diz-lhe, uma filha do rei da Frigia. O deus Hermes raptou-a e levou-a para a montanha. Está muito triste, porque ninguém vem em seu socorro! Anquises compadece-se; a conversa torna-se mais terna. Nessa mesma noite, o belo pastor e a deusa, sob o seu disfarce de mortal, unem-se um ao outro. Afrodite, satisfeita, não finge mais. Reve­ la a sua divindade e anuncia a Anquises que em breve lhe dará um filho, mas recomenda-lhe formalmente que não diga a ninguém que a mãe é a deusa do amor, porque, caso contrário, Zeus, irritado por se descobrirem os segredos dos deuses, fulminaria o indiscreto com o seu raio.
Civilização Romana | Religião
Espiritualidade, religião e filosofia na Roma imperial
Como livrar o indivíduo das inquietações da existência? As diferentes sabedorias, a que chamamos filosofia antiga, não se propunham em princípio outro objetivo, e a religião, por sua vez, não procurava outra coisa, pois geralmente não visava à salvação do além. Esse além era muitas vezes negado ou concebido tão vagamente que não passava da tranquilidade da tumba, do repouso da morte. Filosofia, devoção e além suscitavam poucas angústias. Não é tudo: as respectivas fronteiras desses três domínios eram tão diferentes das que possuem entre nós que essas três palavras não tinham o mesmo sentido de hoje. Quem somos? Que devo fazer? Para onde vamos e o que posso esperar? Essas questões modernas nada têm de natural; nem o pensamento nem a devoção antigos as colocavam; elas nasceram da resposta cristã. O problema antigo e suas subdivisões eram diferentes. Entre nós a filosofia é uma matéria universitária e uma parte da cultura; é um saber que os estudantes aprendem e pelo qual se interessam com curiosidade as pessoas cultas. Os exercícios espirituais e as regras de vida pelas quais um indivíduo pode ordenar sua existência constituem uma parte eminente da religião; o além é outra parte: a ideia de não haver nada após a morte é eminentemente irreligiosa a nossos olhos. Ora, entre os antigos, normas de vida e exercícios espirituais formavam a essência da "filosofia", não da religião, e a religião estava mais ou menos separada das ideias sobre a morte e o além. Havia seitas, mas eram filosóficas, pois a filosofia era a matéria de seitas que propunham convicções e normas de vida a quem isso pudesse interessar; um indivíduo se tornava estoico ou epicurista e se conformava mais ou menos a suas convicções, assim como entre nós se é cristão ou marxista, bom o dever moral de viver a própria fé e militar. Um bom paralelo seria a China antiga, onde seitas doutrinais, confucionisino e taoísmo, propunham suas teorias e normas de vida aos interessados; ou o Japão atual, onde o mesmo homem pode se Interessar por uma seita desse gênero e continuar a observar, mino todo mundo, as práticas do xintoísmo e onde se casa segundo o rito xintoísta, porém morre e é sepultado conforme o rito budista, como se adotasse implicitamente as consoladoras crenças do budismo referentes a um além no qual jamais pensara durante sua existência.
Civilização Romana | Cotidiano
Jogos, banquetes, seitas... os prazeres da vida urbana na Roma Imperial
O estilo dos dois ou três primeiros séculos do Império era feito, portanto, de urbanidade e também de urbanismo. Os notáveis, já sabemos, constituíam uma nobreza citadina, que só morava em suas terras nos calores do verão. Da natureza esses urbanos apreciavam sobretudo os prazeres (amoenitas); percorriam suas profundezas selvagens, em pesadas expedições de caça, somente para demonstrar "virtude", coragem. A natureza segundo seu coração humaniza-se em parques, em jardins; uma paisagem será valorizada se um pequeno santuário na colina ou na ponta do cabo acolher o voto latente do local. Os homens só são plenamente eles mesmos na cidade, e uma cidade não se compõe de ruas familiares e multidões calorosas ou anônimas, e sim de comodidades materiais (commoda), como os banhos públicos, e edifícios que a enalteçam no espírito de seus moradores e dos viajantes e a tornem bem mais que um vulgar conjunto de habitações. "Pode-se chamar de cidade", pergunta Pausânias, "um lugar que não tem edifícios públicos, nem ginásio, nem teatro, nem praça, nem adução de água a nenhuma fonte e onde as pessoas vivem em cabanas iguais às choças (kalybai) penduradas na borda de um barranco?" Um romano não podia ser realmente ele mesmo no campo, só se sentia em casa na cidade. Principalmente se a cidade era cercada de muralhas: caso para a psicologia; os muros são o mais belo enfeite de uma cidade, porque, nesse cinturão, as pessoas se sentem como num home coletivo; as muralhas resultavam então da mentalidade privada. Mesmo não vivendo com medo de ladrões, preferimos aferrolhar a porta à noite; a cidade que tem muros pode igualmente se trancar ao escurecer; em consequência, toda entrada ou saída noturna era suspeita; os mal-intencionados não ousavam apresentar-se à guarda que detinha as chaves de cada porta e viam-se obrigados a descer com a ajuda dos cúmplices, num grande cesto, do alto de uma parte mal vigiada das muralhas
Civilização Romana | Filosofia
Sabedoria popular, moral e ética na Roma imperial
A opinião senatorial lembrava em cada ocasião o que cada indivíduo deveria fazer. Por seu turno, a sabedoria popular ensinava: "O sábio faz isso, o louco faz aquilo". O homem do povo dava lições teóricas aos filhos antecipando-se às falhas dos outros e fazendo um díptico1 do bem e do mal e também da imprudência e da prudência na conduta. A arrogância aristocrática não precisava de lições de sabedoria: ela própria era a lei tão logo abria a boca; os provérbios eram bons para o povo. O rico liberto que foi pai do poeta Horácio mandou o filho à escola a fim de receber a educação liberal que lhe havia faltado, mas ensinou-lhe pessoalmente a doutrina da sabedoria: para incitá-lo a fugir do vício e dos amores adúlteros, citava-lhe o caso de Fulano que fora pilhado em flagrante delito e perdera a reputação; para ensinar-lhe a prudência na gestão do patrimônio, mostrava-lhe como Beltrano acabara a vida na miséria. Pois um homem do povo teme tanto a imprudência quanto a imoralidade: "Como ignorar", dizia-lhe, "que tal ação é ou imoral ou desvantajosa quando o indivíduo que a comete só consegue que falem mal dele?". E citava como exemplo positivo a conduta de um grande personagem oficialmente reconhecido como homem de bem, pois fora nomeado jurado: "Eis aí uma autoridade", dizia. Poeta e pensador, o filho sentia algum parentesco entre essa doutrina oral e as lições escritas da filosofia. O povo também o percebia. Quando lemos nos epitáfios: "Ele nunca seguiu as lições de um filósofo" ou "Aprendeu sozinho todas as veneráveis verdades", não se trata de desprezo pela cultura, e sim de reivindicação de uma cultura igual: o defunto não teve necessidade da filosofia para viver como filósofo, para saber onde estavam o bom e o útil.
Civilização Romana | Cotidiano
A exposição da vida privada na Roma imperial
Existe um direito de todos sobre a conduta de cada um. Notável, plebeu e até senador, um romano não pode ter intimidade pessoal; todos podem se dirigir a todos e julgar a todos; todo mundo se conhece, ou tal presume. O menor particular pode, portanto, dirigir-se ao "público", que, afinal, não passa de determinado número de particulares como ele. Pode, por exemplo, fazer graça para divertir a plateia: todos são cúmplices. Hoje em dia conhecemos o humor dos célebres grafites de Nova York, através dos quais qualquer indivíduo revela aos transeuntes e aos passageiros do metrô suas ideias, seus amores ou simplesmente seu nome e sua existência, escrevendo nas paredes tudo que lhe passa pela cabeça. Fazia-se a mesma coisa em Pompeia: as paredes dessa cidadezinha entre outras estão cobertas de grafites traçados pelos transeuntes que queriam divertir outros transeuntes dando-lhes algo para ler. Curiosamente, idêntica publicidade triunfava também no que é o equivalente antigo de nossos cemitérios: a beira de estrada, que não pertencia a ninguém, e era ali, na saída das cidades, que se erguiam os túmulos. Tão logo cruzava a porta da cidade, o viajante passava entre duas fileiras de sepulturas que procuravam chamar-lhe a atenção. A tumba não se dirige à família, ou aos próximos, mas a todos. Pois a cova, embaixo da terra, era uma coisa, objeto de homenagens fúnebres que a família anualmente prestava ao defunto; a tumba com epitáfio era outra coisa: destinava-se aos passantes. Não vamos raciocinar sobre a enganosa analogia dos epitáfios modernos, essas celebrações sem destinatário que falam diante do céu. Os epitáfios romanos diziam: "Lê, transeunte, qual foi meu papel neste mundo. [...] E agora que me leste, boa viagem. — Salve, tu também." (pois a resposta do transeunte está gravada na pedra). Testemunhos comprovam que quando um antigo queria ler um pouco, bastava-lhe caminhar até uma das saídas da cidade; era menos difícil ler um epitáfio que a escrita cursiva de um livro. Deixo de lado um fato mais tardio, as necrópoles e também as catacumbas pagãs.
Civilização Romana | Direito
O direito privado na Roma imperial
Eis, pois, uma imagem compósita da pessoa privada: um cidadão livre nascido em liberdade, opulento e cuja riqueza não é recente, negociante bem-educado e até culto, homem do ócio, mas com uma dignidade política. Como os diferentes detalhes de sua bela vestimenta, cada um de seus traços é um legado dos acasos do passado histórico greco-romano. Não era preciso que as coações impusessem esse ideal: tratava-se de uma evidência. A arte funerária reflete essa imagem imperiosa, pois fala menos frequentemente de um além do que da condição do falecido e o diz numa linguagem compreensível a todos. De um túmulo a outro, segundo o capricho do talhador de pedra e as preferências do comprador, destaca-se esse ou aquele componente: a opulência do defunto, que faz suas contas, recebe a homenagem dos arrendatários, manda cortar o trigo com ceifadeira mecânica — recente maravilha da engenhosidade humana — ou fica em sua loja; o luxo da defunta, sentada numa poltrona de espaldar alto, onde se enfeita diante de um espelho que uma serva lhe estende e escolhe joias num cofre que outra escrava segura. Muitas vezes a imagem se reduz a uma espécie de emblema: uma sombrinha esculpida no lado de uma lápide informará aos passantes que a falecida dispunha de uma escrava para segurá-la e de ócio para dar seus passeios. Por vezes, antes da toalete, a defunta ergue devotamente a mão, em sinal de homenagem, diante de uma estatueta de Vênus, símbolo do casamento, que uma serva retirou do nicho de imagens sacras (lararium) e lhe apresenta.
Civilização Romana | Cotidiano
Patrimônio, trabalho e seus significados na Roma imperial
A economia romana comportava um importante setor servil; havia também a prisão por dívidas, em que um credor sequestrava o devedor com a mulher e os filhos para fazê-los trabalhar; e um setor do Estado em que os condenados, os escravos do fisco (ou seja, de inumeráveis domínios imperiais) penavam sob as chibatadas dos guardas; muitos cristãos conheceram tal destino. Mas o setor principal continuava juridicamente livre. Pequenos camponeses independentes penavam para pagar os impostos; como escreveu Peter Brown, "o Império Romano deixava o terreno livre para as oligarquias locais de notáveis e confiava-lhes o cuidado de garantir as tarefas administrativas; exigia-lhes pouca coisa pela via fiscal e evitava mostrar-se muito curioso quanto à maneira como os impostos eram extorquidos do campesinato; é a espécie de governo displicente que constituiu o princípio de muita dominação colonial num período recente". Outros camponeses eram meeiros desses notáveis. Trabalhadores agrícolas, assalariados, artesãos cujos serviços eram comprados para determinada tarefa tinham com os empregadores um pacto de compromisso que raramente assumia a forma de contrato escrito (à exceção de casos em que havia um contrato de aprendizagem). Assim como o Código Napoleônico acata a palavra do senhor nas contestações relativas aos salários dos criados, assim também um empregador romano faz justiça se os assalariados o roubam, como se fossem escravos. As cidades são essencialmente os lugares onde os notáveis, como a "nobreza citadina" da Renascença italiana, distribuem os lucros da terra: oposição completa com a Idade Média francesa e sua nobreza de castelões. Ao redor desses notáveis urbanos vivem artesãos e comerciantes que são os fornecedores de tais ricos; era isso uma "cidade" romana (que com uma cidade moderna só tem em comum o nome). Como se reconhecia uma cidade? Pela presença de uma classe ociosa, a dos notáveis. A ociosidade é a peça principal de sua "vida privada"; a Antiguidade foi a época da ociosidade tida como mérito.
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A religião na China Antiga
Mitologia Chinesa - Civilização Chinesa - Religião - Taóismo - Budismo - Nu Wa - Imperador de Jade
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Na mitologia chinesa, aquilo que começa por surpreender é a grande semelhança entre o mundo dos deuses e o dos homens. A hierarquia e a organização burocrática da sociedade criada pelos imperadores e pelo seu exercito de funcionários, bem como o seu funcionamento baseado em um sistema de recompensas e castigos, existem tanto no império celeste como no império terrestre. O Imperador de Jade usa as mesmas vestes que o imperador terrestre, e a arquitetura do seu palácio reflete a da Cidade Proibida. Contudo, segundo crenças muito antigas, estes deuses muito humanos são acompanhados por seres míticos, como o dragão e a fênix, ou por animais reais divinizados, como a tartaruga ou o tigre. A única coisa que não é estável neste mundo organizado é a própria noção de divindade. Os mortais podem tornar-se deuses e estes podem trocar de posições, podem ser despromovidos ou, pelo contrario, subir na hierarquia.

Outro dado especifico das crenças chinesas é o relacionamento quase universal de todos os níveis da existência, do microcosmos e do macrocosmos: cada elemento do individuo esta ligado a um elemento da natureza, e as invenções atribuídas aos deuses são geralmente inspiradas em coisas vistas na natureza. Por exemplo, Yu, o Grande, ao observar uma teia de aranha, inventou a rede de pesca e, ao observar o efeito dos incêndios florestais, descobriu a cozedura dos alimentos. A própria invenção dos oito trigramas divinos, descritos no Yijing (I Ching, Livro das Mutações, inicios do I milênio a.e.c., transcrito na dinastia Han), que desempenham um papel divinatório considerável no pensamento chinês, foi inspirada a Yu (ou a Fuxi, o Primeiro Augusto, segundo algumas versões) pela contemplação das configurações observáveis no céu e na terra, a fim de ordenar ó4 hexagramas (ou seja, 8 x 8 hexagramas), ó4 situações de mutações ou de evoluções primordiais, que permitem que a estabilidade e a paz reinem no império e no coração do homem. Outra característica é o fato de a cosmologia chinesa se basear no numero cinco, numero propicio que rege o microcosmos humano (cinco sentidos, cinco extremidades, cinco partes do corpo, etc.) e os elementos (madeira, fogo, terra, metal e agua), a que se associam cinco estações e cinco direções, que são os quatro pontos cardeais e o centro. Cinco montanhas sagradas cobrem o território da China, entre as quais os montes Kunlun, residência dos deuses.

 

As três grandes religiões

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante. Assim, o dragão, animal simbólico da China, tem como antepassada uma serpente, que já era venerada pelos habitantes da China vários milênios a.e.c. O budismo implanta-se na China a partir do século 1 d.e.c., na época em que o seu país de origem, a Índia, o abandona para regressar ao hinduísmo. Na China, o culto dirige-se principalmente a duas manifestaçõs de Buda: Mile Fo (Buda Risonho), o gordo buda do futuro, que corresponde ao Maitreya indiano, cujo advento assinalara o inicio de uma era de pureza e de apaziguamento das paixões, e Amituo Fo (Buda da Luz Infinita, Amithaba em sânscrito), o Buda que promete aos homens que invocam o seu nome renascer na Terra Pura, sentado numa flor de lótus, acompanhado pela deusa da compaixão Guanyin (aquela que vê e ouve, que corresponde ao bodisatva indiano Avalokiteshvara). O budismo e o confucionismo afastam-se dos cultos tradicionais autóctones, mas manifestam grande tolerância a seu respeito.

O confucionismo, doutrina de Estado imposta por Han Wudi, fundador da dinastia Han (206 a.e.c. - 220 d.e.c.), dominara a vida social e os costumes ao longo de toda a história da China, ate a fundação da Republica da China, em 1911. A base da doutrina de Confúcio, que viveu no século VI a.e.c., consiste num sistema de uma lógica imparável, assente em um humanismo coletivista: o desenvolvimento do saber permite aceder a sinceridade no pensamento, que leva a reforma do coração e, por isso, a cultura da personalidade. As famílias que vivem segundo estes princípios asseguram o bom governo dos Estados e, portanto, a felicidade e a paz do império.

O taoísmo, baseado no Dao (ou Tao, segundo a transcrição antiga), a via da boa conduta, assenta principalmente nos escritas de Lao zi (Lao Tse), reunidos no Daodejing (Tao-te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude). Esta filosofia, contemporânea da de Confúcio, desenvolve uma ética libertaria e baseia-se na noção dos equilíbrios entre o yin (principio feminino) e o yang (principio masculino), que influenciara profundamente a medicina chinesa e o desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o taoísmo esta na origem da maioria das divindades que constituem a base do panteão chinês.

 

Os Textos

A mitologia chinesa transmite-se sobretudo oralmente, de 2000 a 500 a.e.c., e não deixou de se modificar e enriquecer com as transcrições e versões romanescas ulteriores. As primeiras versões escritas dos mitos aparecem no período feudal, por volta do século III a.e.c., em obras filosóficas como o Zhuangzi ou o Huainanzi, ou ainda em relatos de viagens, como o Chan bai Ching (Clássico das Montanhas e dos Mares), antologia de informações geográficas e de lendas da Antiguidade chinesa realizada durante a dinastia Han. Muitos destes mitos foram popularizados por dois grandes romances da época Ming: Xiyuji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng'en (c. 1500-c. 1582), e o Fengshen Yanyi (Gesta da Investidura dos Deuses).

As lendas sobre os Ba Man (Pa Hsien, os Oito Imortais) foram também transcritas no século XVII por Wu Yuantai, no seu romance Ba xian chi chu dong yu zi (Peregrinação ao Leste). A literatura mítica chinesa baseia-se na história lendária da China. Deste modo, alguns heróis e chefes da Antiguidade, como Fuxi, Shennong, Huangdi (o imperador Amarelo) e Yu são, simultaneamente, "antepassados", heróis lendários e divindades.

Os grandes textos destacam o valor do sacrifício, a revolta contra a opressão, o amor, as boas ações e a preven4ção do crime. Os sentimentos humanos e a moral ocupam neles um lugar de primeiro plano. Estes textos distinguem-se por grande concisão e eficácia, como mostra a historia de Yu Gong, o velho que queria mover as montanhas, conto moral frequentemente citado por Mao Zedong para ilustrar o valor do esforço coletivo, extraído do Lie Zi (Verdadeiro Clássico do Vazio Perfeito), um dos três grandes clássicos do taoísmo.

 

Yu Gong move a montanha

Ha muito tempo, vivia em Jizhu um velho com 90 anos chamado Yu Gong (que significa "velho louco"). Yu Gong tinha filhos e netos. Apesar da sua idade, continuava a trabalhar diariamente no campo, de manha à noite. Duas altas montanhas, o Taihang e o Wangwu, tornavam muito difícil o acesso a sua casa. Certo dia, reuniu toda a família e propôs aos filhos abater as montanhas e construir uma estrada desde o sul do Henan até a borda do rio. Todos os filhos concordaram. Mas, Xiam Yi, a sua velha companheira, inquietou-se: "Meu velho esposo, parece-me bem que se retirem essas duas montanhas, estou totalmente de acordo. Mas já não es jovem e não és capaz de erguer montanhas como o gigante Kui Fu. Além disso, onde colocaremos a terra e as pedras?" Em coro, os filhos replicaram: "O pai esta velho mas nos somos jovens! Só teremos de transportara terra ate ao mar, não e difícil!" Inspirados pela vontade e obstinação de Yu Gong, puseram-se todos ao trabalho. Os vizinhos vieram ajuda-los. O trabalho era muito duro, pois havia uma grande distancia entre as montanhas e o mar. Apesar de tudo, Yu Gong e os seus filhos nunca pararam de escavar.

Um belo dia, um velho chamado Zhi Su, que significa "velho sábio", parou a borda do rio para fazer troça dele: "Que loucura, com a tua idade, não és capaz sequer de levantar um cabelo a esta montanha, quanto mais toda esta terra e estas pedras!" O velho louco soltou um suspiro e respondeu: sua vaidade cega-te. Uma viúva ou uma criança raciocinam melhor do que tu! Pensa: quando eu morrer, existirão os meus filhos e os meus netos, bem como as gerações futuras. A montanha, por seu lado, não crescerá. Por que razão será então impossível aplana-la?"

 

Origem do mundo

Reunindo dois mitos da criação do mundo, o mito de Pangu introduz, simultaneamente, o ovo original e o corpo de um gigante comprimido no seu interior. Esta imagem de uma matéria comprimida que explode e da origem ao mundo faz lembrar o big bang.

O ovo teve origem no caos. No seu interior, Pangu desenvolve-se durante 18000 anos. Depois de se ter tornado gigante, abre os braços e a casca parte-se. As partes mais leves do ovo elevam-se e formam o céu, enquanto que as partes mais pesadas se tornam na terra, os dois aspectos do yin e yang. Originalmente imagens da luz e das trevas, o yin e yang acabaram por representar forças opostas: o yang é a virilidade, a atividade, o calor, a dureza; o yin e a feminilidade, a passividade, o frio, a humidade e a suavidade. Por vezes antagônicos (vida e morte, bem e mal), o yin e yang são também complementares e indissociáveis um do outro.

Para impedir que o céu e a terra se juntem, Pangu cresce mais dez pés por dia e mantém-los afastados durante mais 18000 anos; o céu esta então afastado da terra em 30000 pés. Satisfeito com o seu trabalho, Pangu deita-se na terra e morre. Do seu corpo nascem então todos os elementos: do seu sopro, o vento e as nuvens, da sua voz o trovão, dos seus olhos o Sol e a Lua, dos seus braços e pernas as quatro direções e do seu tronco as montanhas. Os seus ossos e dentes tornam-se as pedras e os minérios preciosos, a sua pele a erva e as plantas, o seu suor a chuva e o orvalho, e os seus cabelos as estrelas. Dos vários parasitas presentes no seu corpo formam-se os homens.

 

A criação do homem

Segundo alguns mitos, o homem nasceu então das pulgas de Pangu. Outro mito atribui a sua origem a obra de Nu Wa, irmã esposa do primeiro imperador lendário, Fuxi.

Vinda ao mundo após a separação da terra e do céu, Nu Wa depressa começa a sofrer de solidão. Certo dia, vendo o seu reflexo num lago, teve a ideia de fabricar figurinhas de terra a sua imagem. No entanto, como este trabalho lhe ocupava muito tempo, teve a ideia de mergulhar um cordel na lama e de faze-lo girar sobre si. Das gotas de lama que caíram no chão formaram-se seres humanos. Nu Wa criou assim rapidamente uma multidão de homens que povoaram a terra. Os homens que ela moldou na argila amarela eram belos e nobres, e os que nasceram das gotas de lama eram mais ou menos bem feitos. E assim que se explica a diversidade humana.

 

O dilúvio ou a Grande Inundação

Vários mitos chineses fazem referencia a um diluvio ou a uma inundação enorme. Uma dessas lendas, contada por Sima Qian (c. 145-86 a.e.c.), narra as ações de Yu, o Grande, herói lendário e rei demiurgo da China antiga, que conseguiu vazar as aguas que haviam invadido o mundo.

A epopeia de Yu narra numerosas aventuras que colocam em cena seres míticos, mas o seu principal mérito consiste no fato de ter concluído os trabalhos iniciados pelo seu pai, que, por ordem do imperador, trabalhara durante nove anos na evacuação das águas sem ter terminado a tarefa e fora depois banido e esquartejado, sacrifício que marcou o inicio de uma nova era. Durante 13 anos de trabalho duro, Yu esforçou-se por acabar com o diluvio e canalizar todas as aguas que haviam invadido a terra. Yu beneficiou da ajuda de uma tartaruga gigante, que, sozinha, transportava montanhas de terra no seu dorso. Um dragão alado, Ying, marcava com a cauda o traçado dos futuros canais e dragava vários rios num dia. Por fim, gigantes benfazejos fendiam as montanhas e deitavam as terras para o mar. Graças a "terra que se dilata", Yu fechou as 233 559 nascentes das grandes aguas e edificou quatro montanhas insubmersíveis. O herói usou as mãos e os pés neste trabalho titânico, fendendo a montanha, escavando canais e edificando barragens. A sua pele secou e ficou tão magro e fraco que deixou de poder andar. Mas cumpriu a tarefa tão bem que, no fim, toda a agua da inundação foi evacuada para o mar. Na sua luta contra as aguas, Yu concluiu uma aliança com o deus do rio Amarelo, que lhe deu o Quadro do Rio, uma espécie de diagrama emblemático onde o mundo é representado por um quadrado magico.

Em seguida, Yu reordenou o mundo, percorrendo-o em todos os sentidos ate as suas extremidades. Saltitava, arrastando uma perna, esgotado devido aos seus grandes trabalhos. O "passo de Yu", dança magica com que Yu organiza o mundo, foi praticado pelos sacerdotes tauistas durante séculos. Depois de ter medido o espaço, Yu gravou um mapa em nove caldeirões de bronze, que todos os soberanos posteriores se esforçaram em vão por encontrar.

A estória altamente moral de Yu, marcava pela perseverança e pela determinação, faz dele o modelo ideal do funcionário zeloso. Diz-se, nomeadamente, que, durante os seus grandes trabalhos, passou três vezes em frente a sua casa, mas sem entrar, pois considerava a sua missão infinitamente mais importante do que a vida familiar. O imperador Shun ficou toão impressionado com a virtude e com o trabalho de Yu que o escolheu para seu sucessor. Yu tornou-se assim o primeiro imperador da mítica dinastia dos Xia (2205-2197 a.e.c.) e foi divinizado como deus governador das Aguas. Atualmente, o seu mausoléu, perto de Xhaoxing, na província de Zhejiang, continua a ser muito visitado.

 

O Panteão Chinês

O panteão chinês impressiona desde logo pela importância da hierarquia e pelo fato de os deuses não serem propriamente diferentes dos homens. Organizado à imagem da sociedade chinesa, apresenta-se como uma administração muito estruturada, em que cada divindade tem o seu próprio palácio ou domínio em um dos diferentes níveis do céu, beneficiando de uma equipe de funcionários, de um exercito e de atribuições precisas. Os deuses e os seus colaboradores efetuam tarefas administrativas, fazem listas e registos, prestam contas à divindades superiores, que, por sua vez, prestam contas uma vez por ano ao Imperador de Jade, o soberano absoluto. O próprio dragão, animal sagrado dos Chineses, é um funcionário encarregado de velar sobre as Aguas da terra, oceanos, rios e ribeiros em geral. As divindades principais, na ordem hierárquica, são: o Céu, a Terra, os antepassados imperiais, os deuses dos Cereais, Confúcio, a Lua e o Sol.

 

O Imperador de Jade

No nível superior do Céu e da hierarquia divina, o Imperador de Jade ou Pai-Ceu, personificado por um dragão dourado, reside em um palácio semelhante ao do imperador terrestre. Nesse palácio, dispõe de um grande corpo de funcionários e de um exercito, que lhe permite combater os espíritos malévolos. A sua esposa real, a rainha-mãe Wang, tem a função, entre outras, de organizar os banquetes dos deuses, onde são consumidos os pêssegos da imortalidade. O Imperador de Jade usa o chapéu dos imperadores, uma tabuinha de madeira na qual estão pendurados 13 berloques de perolas. Duas vezes por ano, nos solstícios de inverno e de verão, o imperador terrestre vai oferecer-lhe sacrifícios no templo do Céu, um dos monumentos mais impressionantes de Pequim. Uma procissão solene acompanha o imperador ate a grande escadaria de mármore, que ele sobe para se prosternar na vasta sala circular e oferecer ao seu augusto representante celeste peças de seda e objetos de jade, carnes e libações.

 

Os Reis-Dragões

Os Reis-Dragões, diretamente colocados sob a autoridade do Imperador de Jade, estão encarregados de distribuir a chuva sobre a Terra. Os quatro grandes Reis-Dragões, que habitam em palácios de cristal no Céu, são responsáveis pelos Quatro Mares que rodeiam a Terra, sobre os quais velam com o seu exercito de caranguejos e peixes. No entanto, existem numerosos Reis-Dragões locais que reinam sobre todos os poços, rios, fontes e canais da China. Em caso de seca, as pessoas dirigem orações e fazem oferendas a estas divindades e, quando a chuva regressa, organizam-se grandes festas em sua honra.

 

Wenchang, o deus da literatura e dos exames

A propósito da China da dinastia Ming, um Ocidental fez esta observação: "Todo o reino é governado por filósofos." Diretamente ligado a organização burocrática e ao culto da literatura e da escrita, o deus da Literatura ou dos Letrados, Wenchang, tem o poder de favorecer o sucesso nos exames imperiais. Os concursos de admissão na função publica, organizados em todo o país pelo imperador, representaram sempre uma grande oportunidade de ascensão social. Wenchang é geralmente representado de pé, em cima de uma tartaruga, tendo na mão direita um pincel e, na mão esquerda, um alqueire, que lhe serve para avaliar os méritos do candidato aos exames. Com efeito, está encarregado de nomear o primeiro classificado no concurso organizado pelo Imperador de Jade. No plano terrestre, podemos ver aquela tartaruga na laje de mármore que separa os dois lances de escadas que levam ao Palácio Imperial, onde o imperador concedia audiências aos candidatos. O primeiro a subir os degraus ficava naturalmente à altura da cabeça da tartaruga, e por isso que Wenchang e representado de pé em cima da cabeça de uma tartaruga.

 

O Sol e a Lua

Na China, o Sol foi objeto de um culto oficial ate inicios do século XX. No entanto, contrariamente ao deus Sol dos Incas ou ao deus Rá dos Egípcios, está longe de ocupar o primeiro nível da hierarquia divina. Em contrapartida, os Chineses prestam culto a Lua, que é festejada no meio do outono, no decimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar. O herói Yi, o arqueiro divino, e a sua esposa Cheng He estão intimamente ligados a história da Lua e do Sol.

No principio havia dez sóis, que, com o seu pai Di Jun e a sua mãe Xi He, habitavam uma amoreira gigante, chamada Fusang, nas aguas do paraíso do Leste. Estas aguas estavam sempre em ebulição, pois os sóis banhavam-se nelas todos os dias. Um de cada vez, todos os dias os dez sóis revezavam-se no céu para iluminarem o mundo, enquanto que os seus irmãos descansavam nos ramos da amoreira. No entanto, certo dia, os dez irmãos revoltaram-se contra a rotina estabelecida pelo pai e resolveram ir todos juntos divertir-se no céu. Para os habitantes da Terra, foi uma verdadeira catástrofe. O mundo tornou-se incandescente, impossível de habitar, e a vegetação começou a morrer. O imperador Yao, que reinava então sobre a terra, suplicou a Di Jun que acabasse com aquele flagelo. Di Jun refletiu durante algum tempo e decidiu enviar o seu melhor arqueiro, Yi, à Terra. Confiou-lhe um arco magico, com a missão de assustar os sóis. Mas, horrorizado com a visão da situação terrível em que os humanos se encontravam, Yi disparou uma flecha contra um dos sóis. Uma chuva de faulhas douradas caiu por toda a parte, e um corvo de três patas caiu no chão. Um após outro, Yi abateu assim nove sóis e a temperatura voltou ao normal.

Indignado com a morte dos filhos, Di Jun decidiu castigar Yi. Exilou-o definitivamente na Terra com a sua mulher Cheng He e tornou-os mortais. Como Cheng He se lamentava de ter perdido a imortalidade, Yi decidiu pedir o elixir da vida a rainha do Ocidente, que vivia nos montes Kunlun com os outros deuses. Depois de ter superado varias provas difíceis, chegou a residência da rainha, que aceitou dar-lhe uma dose suficiente para lhe assegurar a imortalidade e à sua mulher. Mas avisou Yi de que se uma única pessoa tomasse toda a dose, subiria até as altas esferas do mundo. Quando Yi regressou, Cheng He só tinha uma ideia na cabeça: beber todo o conteúdo do frasco para ir visitar as regiões superiores. Certo dia em que Yi se ausentou, a mulher executou finalmente o seu projeto e foi logo transportada para a Lua. Descobriu ai uma lebre, sentada debaixo da árvore da imortalidade, ocupada a fabricar eternamente o elixir da vida, e um velho, que passava o tempo a tentar cortar a árvore.

Cheng He passou então a residir na Lua com os seus dois companheiros. É representada como uma jovem muito beta. É frequentemente evocada nos romances e nas poesias, que falam de uma mulher "bela como Cheng He vinda da Lua".

 

Os Oito Imortais

Os Ba Xian (Pa Hsien), os Oito Imortais, não são propriamente deuses, mas homens que, pela sua devoção, virtude e pratica da via taoista obtiveram a imortalidade e vivem com os deuses nos montes Kunlun, no centro da Terra. A cada mil anos, a rainha-mãe Wang, esposa do Imperador de Jade, convida-os para um grande festim, no qual são servidos os pêssegos da imortalidade.

Estas personagens bonacheironas, consideradas protetores eficazes, tornaram-se divindades extremamente populares a partir da dinastia Song (960-1279).

Os Oito Imortais são os mestres da arte marcial da ebriedade, zui baxian, cujo código se inspira no Quajing Quan fa Beiyao, um livro do século XVII onde figura o cântico dos Oito Imortais. Esta arte marcial continua hoje a ser uma das formas do kung-fu, uma técnica de agilidade e de descontração na qual se imitam as varias atitudes que caracterizam cada um dos Oito Imortais.

"Sob o efeito do álcool, Zhong Lijuan executa a dança da ebriedade com o seu leque.

O imortal bêbedo Gulao desloca-se escarranchado na sua mula, montado ao contrario.

Com a cabeça pesada e o passo ligeiro, parece bêbedo, como se caminhasse na lama;

O terceiro imortal, Xiangzi, toca a sua flauta de ferro.

Não está seguro da sua esquerda nem da sua direita, e não distingue o alto do baixo;

Aquele que gosta de tocar as castanholas, o espirito melancólico;

Cao Gujiu, vestido como de madrugada, executa a dança da ebriedade [...]»

 

Cao Gujiu, criado na corte, refugiou-se na montanha para seguir a via do Tao. É representado com roupas de corte, com tabuinhas na mão.

Han Xiangzi, representado com uma flauta, padroeiro dos músicos e dos agricultores, faz as flores desabrocharem.

He Xiangu, a única mulher do grupo dos Imortais, asceta taoista protetora das moças, tem uma flor de Iótus na mão.

Lan Caihe, espécie de fogo sagrado, protetor dos pobres, é representado vestido com uma túnica azul, calçado apenas com um sapato, e um alaúde. Li Tieguai (Li com bengala de ferro), protetor dos doentes, abriga-se no corpo de um mendigo. É representado ébrio, com uma bengala e uma cabaça cheia de álcool.

Lu Dongbin, filósofo moralista e aluno de Zhong Lijuan, é representado a segurar uma espada, que aprendeu a manejar com Zhong Lijuan. A sua bondade é tão famosa que um proverbio chinês diz: "o cação morde Lu Dongbin", que significa que só alguém sem qualquer juízo pode morder o melhor dos homens.

Zhang Gulao desloca-se em uma mula branca, que é capaz de dobrar e guardar em uma folha de papel. É o padroeiro dos pintores e dos calígrafos.

Zhong Lijuan, o gorducho, distribui aos pobres o cobre que transformou em prata. Tem um leque que lhe serve para reanimar as almas dos mortos e na mão, segura um pêssego da imortalidade.

 

Os deuses da felicidade

Não se pode falar de mitologia chinesa sem evocar os deuses mais populares do país, presentes na maioria dos lares chineses na forma de estatuetas ou de imagens coloridas guardadas em um móvel a altura dos olhos. "No céu existem três estrelas boas, na terra, existem fu, lu e shu", diz um provérbio chinês. Lu representa a elevação social e a abundância. Por vezes, tem nos braços uma criança que simboliza a esperança. Fu, deus da felicidade e da prosperidade, um pouco maior do que os outros, e sempre colocado ao centro. Tem nos braços um rolo de ouro que representa a riqueza. Shu, o deus da saúde e da longevidade, é representado na forma de um velho com a testa alta e crânio calvo, tendo em uma mão uma bengala e, na outra, um pêssego da imortalidade.

 

OS ELIXIRES DA IMORTALIDADE  Soma, ambrosia, hidromel e pessegos...

Só será estranho que os deuses, para conservarem a sua qualidade de imortais, tenham de beber regularmente uma bebida especifica? É que, além disso, esse elixir precioso lhes possa ser roubado? Esta exigência vital da natureza divina não será o equivalente do Conhecimento, ao qual os homens, no Genesis, só podem aceder segundo a dosagem prescrita por Deus, e não foi por terem transgredido essa dose, ao descobrirem a fonte do bem e do mal, que perderem o direito a imortalidade?

O Odrerir dos deuses escandinavos, elixir de imortalidade, mas também da inspiração poética, é conservado no fundo de uma gruta guardada por um gigante. O próprio Odin teve de recorrer a astucia para se apoderar desse elixir: assumiu a forma de uma águia e levou-o para o palácio dos Aesir (Asgard).

Píndaro conta que Tântalo, por ter roubado do Olimpo a ambrosia que queria dar aos mortais, sofre eternamente de fome e sede no Tártaro.

Na Índia, o deus Indra eleva-se ao céu no dorso da águia Garuda para roubar o soma, que consumira depois em quantidades enormes, o que lhe dará forças para destruir as fortalezas dos demônios, mas também para desencadear o diluvio do qual apenas Manu será salvo. Apos o diluvio, Indra da o soma a Manu, para que os homens perpetuem a cerimonia do soma, que lhes alimenta o fervor e o poder criador.

Quanto aos pêssegos da imortalidade da mitologia chinesa, servem para fabricar a pílula que Cheng He engole para viver eternamente.

Palavras e significados
Referências Bibliográficas

GARDIN, Nanon. Histórias das Mitologias do Mundo: Lisboa, Texto&Grafia, 2007.

1 Textos publicados
Civilização Chinesa
Civilização Chinesa | Religião
A religião na China Antiga

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante.

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