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Mitologia Chinesa - Mitologia Primitiva - Quatro mil anos de história através das lendas | 2006 |
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Civilização Asteca | Religião
A eternidade da alma Asteca

Existem várias interpretações, segundo a escatologia asteca. Para Alfredo López Austin, a geografia do mundo asteca está dividida em três planos - subterrâneo, terreno e celestial -, todos ligados pela árvore cósmica de Tamoanchán, chamada Xochtlicacín (De Onde Brotam as Flores). O plano subterrâneo, onde estão fincadas as raízes da árvore, se chama Chicnauhmictlín (O Nono Lugar do Inframundo). O plano terrestre, ocupado pelo tronco da árvore, se chama, por sua vez, Tlalticpac (A Superfície da Terra), e se compõe de quatro planos. E, finalmente, onde estão esparramados os galhos mais altos, situa-se o Chicnauhtopin (Os Nove Lugares Celestiais). No começo dos tempos, por dentro do tronco, fluíam as energias do céu e do inframundo, enroscadas, mas não misturadas. Com o pecado dos deuses, entretanto, rompeu-se o tronco e as duas seivas, superior e inferior ou "quente e fria”, segundo a terminologia mítica -, misturaram-se, dando origem ao caos mortífero da vida terrena.

Civilização Asteca | Religião
Os céus e os submundos astecas

Diz a lenda que ele se originou de parte do monstro Cipactli, um crocodilo gigante que foi esquartejado pelos deuses. Parte dele se converteu na Terra e parte no céu, que foi erguido por quatro deuses ou gigantes e sustentado por pilares, a fim de não tornar a se juntar à Terra. Cipactli foi homenageado no calendário mágico (tonalpohualli) como o primeiro dos vinte signos do "zodíaco" asteca. 
Mas que forma passou a possuir a Terra após essa gênese violenta? Jean Marcilly diz que, para os astecas, a Terra é um disco chato, cruzado pelos pontos cardeais, sendo o ponto de confluência de duas pirâmides, cujos vértices principais se tocam. A pirâmide de cima são os céus; a de baixo, os inframundos. A de cima recebe as horas do dia; a de baixo, as horas da noite.
Ao redor do Tlalticpac (Terra) está um rio chamado Chicunauhapín ("A Corrente dos Nove")

Civilização Asteca | Religião
Os paraísos astecas

Existem duas cosmografias míticas no universo asteca. A primeira é a horizontal delimitada pelos cinco pontos cardeais (o centro também é considerado um deles). Cada qual está associado a um deus e também a uma infinidade e outros atributos, impossíveis de serem enumerados aqui, tal a sua quantidade e complexidade. Em se tratando de mitologia asteca, não existem verdade firmadas, mas interpretações diversas e apenas aproximativas. A representação dos pontos cardeiais em forma de cruz, recorrente na iconografia asteca, era um dos conceitos fundamentais do misticismo ameríndio pré-colombiano. Cada um dos quadrantes possuía a sua simbologia própria:

Civilização Asteca | Religião
O Xamã asteca

No antigo México, o xamã era considerado um membro altamente respeitado da comunidade e desempenhava uma função vital como intermediário entre o mundo espiritual e o mundo natural. Os xamãs não escolhiam esta carreira - ou já nasciam xamãs, ou eram chamados através de sonhos e visões. Uma parte importante das crenças astecas era a interligação entre todas as coisas – vivas e mortas - e o papel do xamã consistia em trabalhar com a energia do mundo para lá da percepção quotidiana. A pulque, uma bebida alcoólica feita a partir da piteira, era muito usada nas cerimônias pois tinha um efeito alucinógeno como peyote e datura (outras variedades de catos mexicanos). As máscaras, os cânticos, os tambores, as matracas e outros instrumentos também eram usados para ajudar o xamã a atingir um estado de consciência alterado. Atualmente, as práticas dos xamãs na tradição cultural antiga invocam os mitos e as divindades do passado. Podem prescrever ervas medicinais, encontrar almas perdidas, ler o futuro ou proceder a purificações numa casa ou num indivíduo que tenha sido enfeitiçado.

Civilização Asteca | Ciências
A pedra calendário Asteca

Os Astecas davam grande importância ao estudo da matemática e da astronomia e desenvolveram complexos sistemas de contagem do tempo. O conceito de tempo que tinham era mais cíclico que linear e era dependente e controlado por forças divinas. Os Astecas dispunham de dois calendários concomitantes: um de 260 dias movendo-se no sentido dos ponteiros do relógio (coincidindo com o tempo de gestação humana), e um de 365 dias movendo-se em sentido contrário. Construído no século xv, a famosa Pedra do Calendário (também conhecida como Pedra do Sol) foi descoberta em 1790 na capital asteca de Tenochtitlan, hoje Cidade do México. A pedra mede 3,5 m de diâmetro, pesa 25,5 toneladas e é ricamente esculpida em basalto. No centro da Pedra do Calendário reconhece-se a face do deus do Sol Tonatiuh. Criador do Quinto Sol. Os quatro quadrados que o rodeiam representam as quatro eras anteriores (ou «sóis») que foram destruídas por animais, vento, fogo e água. Na orla e da pedra estão duas serpentes sagradas, que simbolizam a natureza cíclica e em espiral da dança da vida.

Civilização Asteca | Religião
O universo tripartido Asteca

No centro do universo asteca - o local de encontro do Céu, Terra e Sudmundo - era a cidade capital de Tenochtitlan. Segundo a lenda, o povo local era conhecido por Tenochca, mas o deus da guerra Huitzilopochtli deu-lhes um novo nome, Mexica, e ordenou-lhes que construíssem a capital numa ilha no meio do Lago Texcoco. No coração da cidade erguia-se o magnífico Grande Templo, dedicado a Huitzilopochtli e o deus asteca da chuva, chamado Tlaloc.

Civilização Asteca | Religião
A Religião Asteca após a conquista espanhola

Nos anos seguintes a 1521, a conversão dos povos nativos da Mesoamerica continuou, mas era mais aparente que real. Registros de 1536 a 1540 revelaram que tais costumes pre-colombianos como a concubinagem, idolatria e sacrifício humano ainda eram praticados. Em 1565, os bispos espanhóis da Cidade do Mexico reclamavam da facilidade com que os nativos se revertiam para os rituais pre-conquista, escondendo ídolos atrás de altares em igrejas recem-construidas, fazendo uso de alucinógenos e invocando o simbolismo das cores antigas. Os padres franciscanos tomaram Tezcatlipoca não apenas como a divindade asteca principal, mas também como Lucifer cuja influência maligna era vista entre os povos indígenas.

Civilização Asteca | Força Militar
A guerra Asteca

A antiga milícia mexicana era diferente em vários aspectos fundamentais dos seus equivalentes europeus. Os astecas, como os seus contemporaneos na Mesoamerica, não fomentavam a guerra para conquistar e integrar território, ou converter os derrotados para sua própria religião. Sua motivação era derrotar os inimigos para poder cobrar impostos deles e capturar prisioneiros para rituais de sacrifício aos deuses. Administrar as áreas conquistadas era caro e pouco prático, por isso os astecas governavam indiretamente por meio de chefes locais e alianças políticas por casamento. A recompensa dessa abordagem era a fabulosa riqueza que jorrava em Tenochtitlan. A matança em campo de batalha e a destruição da terra eram "autoderrotantes" para esse fim. Porem, havia exceções. A morte na guerra era frequente e as cidades, as vezes, eram destruídas e sua população dizimada para servir de aviso as outras.

Civilização Asteca | Família
A Família Asteca

O nascimento de uma criança era uma ocasião de alegria e perigo, ambos físicos e espirituais. Os bebes eram trazidos a luz por parteiras profissionais que rezavam para Chalchiuhtlicue, a deusa da fertilidade e da maternidade. Se o bebe fosse menino, o cordão umbilical era dado aos guerreiros para ser enterrado em campos de batalha; se fosse menina, era colocado embaixo de uma lareira, simbolizando suas futuras tarefas domesticas. O nome de um bebe recém-nascido era escolhido após uma consulta dos pais aos sacerdotes que determinavam as influencias sobrenaturais associadas com o tempo e com a data de nascimento. Se a data de nascimento fosse julgada de sorte, o bebe era nomeado no dia seguinte; se agourenta, uma data mais propícia era escolhida. Logo após o nascimento eram presenteados com miniaturas de sua futura vida adulta. Alguns meninos eram presenteados com o escudo de um guerreiro, outros com ferramentas de ourives, enquanto as meninas ganhavam uma vassoura ou uma roca cheia de malha de algodão. Meninos e meninas eram bem-vindos igualmente nas famílias astecas e descritos carinhosamente como "colares preciosos" ou "belas penas".

Civilização Asteca | Cotidiano
A Sociedade Asteca

A sociedade asteca estava baseada e caracterizada nos direitos, privilegios, costumes e emblemas de cada classe. No topo estava o imperador sagrado, conhecido como Huey Tlatoani, ou Primeiro Orador. Como era a pessoa mais importante da sociedade asteca, ele governava como representação divina de Tezcatlipoca. Em vestimentas tipicamente astecas, a posição do imperador não era herdada, mas sim obtida por meio da eleição com um conselho de nobres, os homens mais aptos da família real. Uma vez escolhido, cada novo imperador passava por uma longa serie de rituais que incluíam a Guerra da Coroação, para provar suas habilidades militares. O Codex Florentino descreve esses eventos, especialmente o imperador realizando rituais de discursos para Tezcatlipoca nos quais ele pedia força e liderança. Uma vez coroado, o novo imperador era carregado em um trono de jaguares e águias onde tinha seu corpo perfurado com uma presa de jaguar em uma oferta de sangue que o ligava eternamente aos deuses.

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A religião na China Antiga
Mitologia Chinesa - Civilização Chinesa - Religião - Taóismo - Budismo - Nu Wa - Imperador de Jade
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Nanon Gardin

Na mitologia chinesa, aquilo que começa por surpreender é a grande semelhança entre o mundo dos deuses e o dos homens. A hierarquia e a organização burocrática da sociedade criada pelos imperadores e pelo seu exercito de funcionários, bem como o seu funcionamento baseado em um sistema de recompensas e castigos, existem tanto no império celeste como no império terrestre. O Imperador de Jade usa as mesmas vestes que o imperador terrestre, e a arquitetura do seu palácio reflete a da Cidade Proibida. Contudo, segundo crenças muito antigas, estes deuses muito humanos são acompanhados por seres míticos, como o dragão e a fênix, ou por animais reais divinizados, como a tartaruga ou o tigre. A única coisa que não é estável neste mundo organizado é a própria noção de divindade. Os mortais podem tornar-se deuses e estes podem trocar de posições, podem ser despromovidos ou, pelo contrario, subir na hierarquia.

Outro dado especifico das crenças chinesas é o relacionamento quase universal de todos os níveis da existência, do microcosmos e do macrocosmos: cada elemento do individuo esta ligado a um elemento da natureza, e as invenções atribuídas aos deuses são geralmente inspiradas em coisas vistas na natureza. Por exemplo, Yu, o Grande, ao observar uma teia de aranha, inventou a rede de pesca e, ao observar o efeito dos incêndios florestais, descobriu a cozedura dos alimentos. A própria invenção dos oito trigramas divinos, descritos no Yijing (I Ching, Livro das Mutações, inicios do I milênio a.e.c., transcrito na dinastia Han), que desempenham um papel divinatório considerável no pensamento chinês, foi inspirada a Yu (ou a Fuxi, o Primeiro Augusto, segundo algumas versões) pela contemplação das configurações observáveis no céu e na terra, a fim de ordenar ó4 hexagramas (ou seja, 8 x 8 hexagramas), ó4 situações de mutações ou de evoluções primordiais, que permitem que a estabilidade e a paz reinem no império e no coração do homem. Outra característica é o fato de a cosmologia chinesa se basear no numero cinco, numero propicio que rege o microcosmos humano (cinco sentidos, cinco extremidades, cinco partes do corpo, etc.) e os elementos (madeira, fogo, terra, metal e agua), a que se associam cinco estações e cinco direções, que são os quatro pontos cardeais e o centro. Cinco montanhas sagradas cobrem o território da China, entre as quais os montes Kunlun, residência dos deuses.

 

As três grandes religiões

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante. Assim, o dragão, animal simbólico da China, tem como antepassada uma serpente, que já era venerada pelos habitantes da China vários milênios a.e.c. O budismo implanta-se na China a partir do século 1 d.e.c., na época em que o seu país de origem, a Índia, o abandona para regressar ao hinduísmo. Na China, o culto dirige-se principalmente a duas manifestaçõs de Buda: Mile Fo (Buda Risonho), o gordo buda do futuro, que corresponde ao Maitreya indiano, cujo advento assinalara o inicio de uma era de pureza e de apaziguamento das paixões, e Amituo Fo (Buda da Luz Infinita, Amithaba em sânscrito), o Buda que promete aos homens que invocam o seu nome renascer na Terra Pura, sentado numa flor de lótus, acompanhado pela deusa da compaixão Guanyin (aquela que vê e ouve, que corresponde ao bodisatva indiano Avalokiteshvara). O budismo e o confucionismo afastam-se dos cultos tradicionais autóctones, mas manifestam grande tolerância a seu respeito.

O confucionismo, doutrina de Estado imposta por Han Wudi, fundador da dinastia Han (206 a.e.c. - 220 d.e.c.), dominara a vida social e os costumes ao longo de toda a história da China, ate a fundação da Republica da China, em 1911. A base da doutrina de Confúcio, que viveu no século VI a.e.c., consiste num sistema de uma lógica imparável, assente em um humanismo coletivista: o desenvolvimento do saber permite aceder a sinceridade no pensamento, que leva a reforma do coração e, por isso, a cultura da personalidade. As famílias que vivem segundo estes princípios asseguram o bom governo dos Estados e, portanto, a felicidade e a paz do império.

O taoísmo, baseado no Dao (ou Tao, segundo a transcrição antiga), a via da boa conduta, assenta principalmente nos escritas de Lao zi (Lao Tse), reunidos no Daodejing (Tao-te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude). Esta filosofia, contemporânea da de Confúcio, desenvolve uma ética libertaria e baseia-se na noção dos equilíbrios entre o yin (principio feminino) e o yang (principio masculino), que influenciara profundamente a medicina chinesa e o desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o taoísmo esta na origem da maioria das divindades que constituem a base do panteão chinês.

 

Os Textos

A mitologia chinesa transmite-se sobretudo oralmente, de 2000 a 500 a.e.c., e não deixou de se modificar e enriquecer com as transcrições e versões romanescas ulteriores. As primeiras versões escritas dos mitos aparecem no período feudal, por volta do século III a.e.c., em obras filosóficas como o Zhuangzi ou o Huainanzi, ou ainda em relatos de viagens, como o Chan bai Ching (Clássico das Montanhas e dos Mares), antologia de informações geográficas e de lendas da Antiguidade chinesa realizada durante a dinastia Han. Muitos destes mitos foram popularizados por dois grandes romances da época Ming: Xiyuji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng'en (c. 1500-c. 1582), e o Fengshen Yanyi (Gesta da Investidura dos Deuses).

As lendas sobre os Ba Man (Pa Hsien, os Oito Imortais) foram também transcritas no século XVII por Wu Yuantai, no seu romance Ba xian chi chu dong yu zi (Peregrinação ao Leste). A literatura mítica chinesa baseia-se na história lendária da China. Deste modo, alguns heróis e chefes da Antiguidade, como Fuxi, Shennong, Huangdi (o imperador Amarelo) e Yu são, simultaneamente, "antepassados", heróis lendários e divindades.

Os grandes textos destacam o valor do sacrifício, a revolta contra a opressão, o amor, as boas ações e a preven4ção do crime. Os sentimentos humanos e a moral ocupam neles um lugar de primeiro plano. Estes textos distinguem-se por grande concisão e eficácia, como mostra a historia de Yu Gong, o velho que queria mover as montanhas, conto moral frequentemente citado por Mao Zedong para ilustrar o valor do esforço coletivo, extraído do Lie Zi (Verdadeiro Clássico do Vazio Perfeito), um dos três grandes clássicos do taoísmo.

 

Yu Gong move a montanha

Ha muito tempo, vivia em Jizhu um velho com 90 anos chamado Yu Gong (que significa "velho louco"). Yu Gong tinha filhos e netos. Apesar da sua idade, continuava a trabalhar diariamente no campo, de manha à noite. Duas altas montanhas, o Taihang e o Wangwu, tornavam muito difícil o acesso a sua casa. Certo dia, reuniu toda a família e propôs aos filhos abater as montanhas e construir uma estrada desde o sul do Henan até a borda do rio. Todos os filhos concordaram. Mas, Xiam Yi, a sua velha companheira, inquietou-se: "Meu velho esposo, parece-me bem que se retirem essas duas montanhas, estou totalmente de acordo. Mas já não es jovem e não és capaz de erguer montanhas como o gigante Kui Fu. Além disso, onde colocaremos a terra e as pedras?" Em coro, os filhos replicaram: "O pai esta velho mas nos somos jovens! Só teremos de transportara terra ate ao mar, não e difícil!" Inspirados pela vontade e obstinação de Yu Gong, puseram-se todos ao trabalho. Os vizinhos vieram ajuda-los. O trabalho era muito duro, pois havia uma grande distancia entre as montanhas e o mar. Apesar de tudo, Yu Gong e os seus filhos nunca pararam de escavar.

Um belo dia, um velho chamado Zhi Su, que significa "velho sábio", parou a borda do rio para fazer troça dele: "Que loucura, com a tua idade, não és capaz sequer de levantar um cabelo a esta montanha, quanto mais toda esta terra e estas pedras!" O velho louco soltou um suspiro e respondeu: sua vaidade cega-te. Uma viúva ou uma criança raciocinam melhor do que tu! Pensa: quando eu morrer, existirão os meus filhos e os meus netos, bem como as gerações futuras. A montanha, por seu lado, não crescerá. Por que razão será então impossível aplana-la?"

 

Origem do mundo

Reunindo dois mitos da criação do mundo, o mito de Pangu introduz, simultaneamente, o ovo original e o corpo de um gigante comprimido no seu interior. Esta imagem de uma matéria comprimida que explode e da origem ao mundo faz lembrar o big bang.

O ovo teve origem no caos. No seu interior, Pangu desenvolve-se durante 18000 anos. Depois de se ter tornado gigante, abre os braços e a casca parte-se. As partes mais leves do ovo elevam-se e formam o céu, enquanto que as partes mais pesadas se tornam na terra, os dois aspectos do yin e yang. Originalmente imagens da luz e das trevas, o yin e yang acabaram por representar forças opostas: o yang é a virilidade, a atividade, o calor, a dureza; o yin e a feminilidade, a passividade, o frio, a humidade e a suavidade. Por vezes antagônicos (vida e morte, bem e mal), o yin e yang são também complementares e indissociáveis um do outro.

Para impedir que o céu e a terra se juntem, Pangu cresce mais dez pés por dia e mantém-los afastados durante mais 18000 anos; o céu esta então afastado da terra em 30000 pés. Satisfeito com o seu trabalho, Pangu deita-se na terra e morre. Do seu corpo nascem então todos os elementos: do seu sopro, o vento e as nuvens, da sua voz o trovão, dos seus olhos o Sol e a Lua, dos seus braços e pernas as quatro direções e do seu tronco as montanhas. Os seus ossos e dentes tornam-se as pedras e os minérios preciosos, a sua pele a erva e as plantas, o seu suor a chuva e o orvalho, e os seus cabelos as estrelas. Dos vários parasitas presentes no seu corpo formam-se os homens.

 

A criação do homem

Segundo alguns mitos, o homem nasceu então das pulgas de Pangu. Outro mito atribui a sua origem a obra de Nu Wa, irmã esposa do primeiro imperador lendário, Fuxi.

Vinda ao mundo após a separação da terra e do céu, Nu Wa depressa começa a sofrer de solidão. Certo dia, vendo o seu reflexo num lago, teve a ideia de fabricar figurinhas de terra a sua imagem. No entanto, como este trabalho lhe ocupava muito tempo, teve a ideia de mergulhar um cordel na lama e de faze-lo girar sobre si. Das gotas de lama que caíram no chão formaram-se seres humanos. Nu Wa criou assim rapidamente uma multidão de homens que povoaram a terra. Os homens que ela moldou na argila amarela eram belos e nobres, e os que nasceram das gotas de lama eram mais ou menos bem feitos. E assim que se explica a diversidade humana.

 

O dilúvio ou a Grande Inundação

Vários mitos chineses fazem referencia a um diluvio ou a uma inundação enorme. Uma dessas lendas, contada por Sima Qian (c. 145-86 a.e.c.), narra as ações de Yu, o Grande, herói lendário e rei demiurgo da China antiga, que conseguiu vazar as aguas que haviam invadido o mundo.

A epopeia de Yu narra numerosas aventuras que colocam em cena seres míticos, mas o seu principal mérito consiste no fato de ter concluído os trabalhos iniciados pelo seu pai, que, por ordem do imperador, trabalhara durante nove anos na evacuação das águas sem ter terminado a tarefa e fora depois banido e esquartejado, sacrifício que marcou o inicio de uma nova era. Durante 13 anos de trabalho duro, Yu esforçou-se por acabar com o diluvio e canalizar todas as aguas que haviam invadido a terra. Yu beneficiou da ajuda de uma tartaruga gigante, que, sozinha, transportava montanhas de terra no seu dorso. Um dragão alado, Ying, marcava com a cauda o traçado dos futuros canais e dragava vários rios num dia. Por fim, gigantes benfazejos fendiam as montanhas e deitavam as terras para o mar. Graças a "terra que se dilata", Yu fechou as 233 559 nascentes das grandes aguas e edificou quatro montanhas insubmersíveis. O herói usou as mãos e os pés neste trabalho titânico, fendendo a montanha, escavando canais e edificando barragens. A sua pele secou e ficou tão magro e fraco que deixou de poder andar. Mas cumpriu a tarefa tão bem que, no fim, toda a agua da inundação foi evacuada para o mar. Na sua luta contra as aguas, Yu concluiu uma aliança com o deus do rio Amarelo, que lhe deu o Quadro do Rio, uma espécie de diagrama emblemático onde o mundo é representado por um quadrado magico.

Em seguida, Yu reordenou o mundo, percorrendo-o em todos os sentidos ate as suas extremidades. Saltitava, arrastando uma perna, esgotado devido aos seus grandes trabalhos. O "passo de Yu", dança magica com que Yu organiza o mundo, foi praticado pelos sacerdotes tauistas durante séculos. Depois de ter medido o espaço, Yu gravou um mapa em nove caldeirões de bronze, que todos os soberanos posteriores se esforçaram em vão por encontrar.

A estória altamente moral de Yu, marcava pela perseverança e pela determinação, faz dele o modelo ideal do funcionário zeloso. Diz-se, nomeadamente, que, durante os seus grandes trabalhos, passou três vezes em frente a sua casa, mas sem entrar, pois considerava a sua missão infinitamente mais importante do que a vida familiar. O imperador Shun ficou toão impressionado com a virtude e com o trabalho de Yu que o escolheu para seu sucessor. Yu tornou-se assim o primeiro imperador da mítica dinastia dos Xia (2205-2197 a.e.c.) e foi divinizado como deus governador das Aguas. Atualmente, o seu mausoléu, perto de Xhaoxing, na província de Zhejiang, continua a ser muito visitado.

 

O Panteão Chinês

O panteão chinês impressiona desde logo pela importância da hierarquia e pelo fato de os deuses não serem propriamente diferentes dos homens. Organizado à imagem da sociedade chinesa, apresenta-se como uma administração muito estruturada, em que cada divindade tem o seu próprio palácio ou domínio em um dos diferentes níveis do céu, beneficiando de uma equipe de funcionários, de um exercito e de atribuições precisas. Os deuses e os seus colaboradores efetuam tarefas administrativas, fazem listas e registos, prestam contas à divindades superiores, que, por sua vez, prestam contas uma vez por ano ao Imperador de Jade, o soberano absoluto. O próprio dragão, animal sagrado dos Chineses, é um funcionário encarregado de velar sobre as Aguas da terra, oceanos, rios e ribeiros em geral. As divindades principais, na ordem hierárquica, são: o Céu, a Terra, os antepassados imperiais, os deuses dos Cereais, Confúcio, a Lua e o Sol.

 

O Imperador de Jade

No nível superior do Céu e da hierarquia divina, o Imperador de Jade ou Pai-Ceu, personificado por um dragão dourado, reside em um palácio semelhante ao do imperador terrestre. Nesse palácio, dispõe de um grande corpo de funcionários e de um exercito, que lhe permite combater os espíritos malévolos. A sua esposa real, a rainha-mãe Wang, tem a função, entre outras, de organizar os banquetes dos deuses, onde são consumidos os pêssegos da imortalidade. O Imperador de Jade usa o chapéu dos imperadores, uma tabuinha de madeira na qual estão pendurados 13 berloques de perolas. Duas vezes por ano, nos solstícios de inverno e de verão, o imperador terrestre vai oferecer-lhe sacrifícios no templo do Céu, um dos monumentos mais impressionantes de Pequim. Uma procissão solene acompanha o imperador ate a grande escadaria de mármore, que ele sobe para se prosternar na vasta sala circular e oferecer ao seu augusto representante celeste peças de seda e objetos de jade, carnes e libações.

 

Os Reis-Dragões

Os Reis-Dragões, diretamente colocados sob a autoridade do Imperador de Jade, estão encarregados de distribuir a chuva sobre a Terra. Os quatro grandes Reis-Dragões, que habitam em palácios de cristal no Céu, são responsáveis pelos Quatro Mares que rodeiam a Terra, sobre os quais velam com o seu exercito de caranguejos e peixes. No entanto, existem numerosos Reis-Dragões locais que reinam sobre todos os poços, rios, fontes e canais da China. Em caso de seca, as pessoas dirigem orações e fazem oferendas a estas divindades e, quando a chuva regressa, organizam-se grandes festas em sua honra.

 

Wenchang, o deus da literatura e dos exames

A propósito da China da dinastia Ming, um Ocidental fez esta observação: "Todo o reino é governado por filósofos." Diretamente ligado a organização burocrática e ao culto da literatura e da escrita, o deus da Literatura ou dos Letrados, Wenchang, tem o poder de favorecer o sucesso nos exames imperiais. Os concursos de admissão na função publica, organizados em todo o país pelo imperador, representaram sempre uma grande oportunidade de ascensão social. Wenchang é geralmente representado de pé, em cima de uma tartaruga, tendo na mão direita um pincel e, na mão esquerda, um alqueire, que lhe serve para avaliar os méritos do candidato aos exames. Com efeito, está encarregado de nomear o primeiro classificado no concurso organizado pelo Imperador de Jade. No plano terrestre, podemos ver aquela tartaruga na laje de mármore que separa os dois lances de escadas que levam ao Palácio Imperial, onde o imperador concedia audiências aos candidatos. O primeiro a subir os degraus ficava naturalmente à altura da cabeça da tartaruga, e por isso que Wenchang e representado de pé em cima da cabeça de uma tartaruga.

 

O Sol e a Lua

Na China, o Sol foi objeto de um culto oficial ate inicios do século XX. No entanto, contrariamente ao deus Sol dos Incas ou ao deus Rá dos Egípcios, está longe de ocupar o primeiro nível da hierarquia divina. Em contrapartida, os Chineses prestam culto a Lua, que é festejada no meio do outono, no decimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar. O herói Yi, o arqueiro divino, e a sua esposa Cheng He estão intimamente ligados a história da Lua e do Sol.

No principio havia dez sóis, que, com o seu pai Di Jun e a sua mãe Xi He, habitavam uma amoreira gigante, chamada Fusang, nas aguas do paraíso do Leste. Estas aguas estavam sempre em ebulição, pois os sóis banhavam-se nelas todos os dias. Um de cada vez, todos os dias os dez sóis revezavam-se no céu para iluminarem o mundo, enquanto que os seus irmãos descansavam nos ramos da amoreira. No entanto, certo dia, os dez irmãos revoltaram-se contra a rotina estabelecida pelo pai e resolveram ir todos juntos divertir-se no céu. Para os habitantes da Terra, foi uma verdadeira catástrofe. O mundo tornou-se incandescente, impossível de habitar, e a vegetação começou a morrer. O imperador Yao, que reinava então sobre a terra, suplicou a Di Jun que acabasse com aquele flagelo. Di Jun refletiu durante algum tempo e decidiu enviar o seu melhor arqueiro, Yi, à Terra. Confiou-lhe um arco magico, com a missão de assustar os sóis. Mas, horrorizado com a visão da situação terrível em que os humanos se encontravam, Yi disparou uma flecha contra um dos sóis. Uma chuva de faulhas douradas caiu por toda a parte, e um corvo de três patas caiu no chão. Um após outro, Yi abateu assim nove sóis e a temperatura voltou ao normal.

Indignado com a morte dos filhos, Di Jun decidiu castigar Yi. Exilou-o definitivamente na Terra com a sua mulher Cheng He e tornou-os mortais. Como Cheng He se lamentava de ter perdido a imortalidade, Yi decidiu pedir o elixir da vida a rainha do Ocidente, que vivia nos montes Kunlun com os outros deuses. Depois de ter superado varias provas difíceis, chegou a residência da rainha, que aceitou dar-lhe uma dose suficiente para lhe assegurar a imortalidade e à sua mulher. Mas avisou Yi de que se uma única pessoa tomasse toda a dose, subiria até as altas esferas do mundo. Quando Yi regressou, Cheng He só tinha uma ideia na cabeça: beber todo o conteúdo do frasco para ir visitar as regiões superiores. Certo dia em que Yi se ausentou, a mulher executou finalmente o seu projeto e foi logo transportada para a Lua. Descobriu ai uma lebre, sentada debaixo da árvore da imortalidade, ocupada a fabricar eternamente o elixir da vida, e um velho, que passava o tempo a tentar cortar a árvore.

Cheng He passou então a residir na Lua com os seus dois companheiros. É representada como uma jovem muito beta. É frequentemente evocada nos romances e nas poesias, que falam de uma mulher "bela como Cheng He vinda da Lua".

 

Os Oito Imortais

Os Ba Xian (Pa Hsien), os Oito Imortais, não são propriamente deuses, mas homens que, pela sua devoção, virtude e pratica da via taoista obtiveram a imortalidade e vivem com os deuses nos montes Kunlun, no centro da Terra. A cada mil anos, a rainha-mãe Wang, esposa do Imperador de Jade, convida-os para um grande festim, no qual são servidos os pêssegos da imortalidade.

Estas personagens bonacheironas, consideradas protetores eficazes, tornaram-se divindades extremamente populares a partir da dinastia Song (960-1279).

Os Oito Imortais são os mestres da arte marcial da ebriedade, zui baxian, cujo código se inspira no Quajing Quan fa Beiyao, um livro do século XVII onde figura o cântico dos Oito Imortais. Esta arte marcial continua hoje a ser uma das formas do kung-fu, uma técnica de agilidade e de descontração na qual se imitam as varias atitudes que caracterizam cada um dos Oito Imortais.

"Sob o efeito do álcool, Zhong Lijuan executa a dança da ebriedade com o seu leque.

O imortal bêbedo Gulao desloca-se escarranchado na sua mula, montado ao contrario.

Com a cabeça pesada e o passo ligeiro, parece bêbedo, como se caminhasse na lama;

O terceiro imortal, Xiangzi, toca a sua flauta de ferro.

Não está seguro da sua esquerda nem da sua direita, e não distingue o alto do baixo;

Aquele que gosta de tocar as castanholas, o espirito melancólico;

Cao Gujiu, vestido como de madrugada, executa a dança da ebriedade [...]»

 

Cao Gujiu, criado na corte, refugiou-se na montanha para seguir a via do Tao. É representado com roupas de corte, com tabuinhas na mão.

Han Xiangzi, representado com uma flauta, padroeiro dos músicos e dos agricultores, faz as flores desabrocharem.

He Xiangu, a única mulher do grupo dos Imortais, asceta taoista protetora das moças, tem uma flor de Iótus na mão.

Lan Caihe, espécie de fogo sagrado, protetor dos pobres, é representado vestido com uma túnica azul, calçado apenas com um sapato, e um alaúde. Li Tieguai (Li com bengala de ferro), protetor dos doentes, abriga-se no corpo de um mendigo. É representado ébrio, com uma bengala e uma cabaça cheia de álcool.

Lu Dongbin, filósofo moralista e aluno de Zhong Lijuan, é representado a segurar uma espada, que aprendeu a manejar com Zhong Lijuan. A sua bondade é tão famosa que um proverbio chinês diz: "o cação morde Lu Dongbin", que significa que só alguém sem qualquer juízo pode morder o melhor dos homens.

Zhang Gulao desloca-se em uma mula branca, que é capaz de dobrar e guardar em uma folha de papel. É o padroeiro dos pintores e dos calígrafos.

Zhong Lijuan, o gorducho, distribui aos pobres o cobre que transformou em prata. Tem um leque que lhe serve para reanimar as almas dos mortos e na mão, segura um pêssego da imortalidade.

 

Os deuses da felicidade

Não se pode falar de mitologia chinesa sem evocar os deuses mais populares do país, presentes na maioria dos lares chineses na forma de estatuetas ou de imagens coloridas guardadas em um móvel a altura dos olhos. "No céu existem três estrelas boas, na terra, existem fu, lu e shu", diz um provérbio chinês. Lu representa a elevação social e a abundância. Por vezes, tem nos braços uma criança que simboliza a esperança. Fu, deus da felicidade e da prosperidade, um pouco maior do que os outros, e sempre colocado ao centro. Tem nos braços um rolo de ouro que representa a riqueza. Shu, o deus da saúde e da longevidade, é representado na forma de um velho com a testa alta e crânio calvo, tendo em uma mão uma bengala e, na outra, um pêssego da imortalidade.

 

OS ELIXIRES DA IMORTALIDADE  Soma, ambrosia, hidromel e pessegos...

Só será estranho que os deuses, para conservarem a sua qualidade de imortais, tenham de beber regularmente uma bebida especifica? É que, além disso, esse elixir precioso lhes possa ser roubado? Esta exigência vital da natureza divina não será o equivalente do Conhecimento, ao qual os homens, no Genesis, só podem aceder segundo a dosagem prescrita por Deus, e não foi por terem transgredido essa dose, ao descobrirem a fonte do bem e do mal, que perderem o direito a imortalidade?

O Odrerir dos deuses escandinavos, elixir de imortalidade, mas também da inspiração poética, é conservado no fundo de uma gruta guardada por um gigante. O próprio Odin teve de recorrer a astucia para se apoderar desse elixir: assumiu a forma de uma águia e levou-o para o palácio dos Aesir (Asgard).

Píndaro conta que Tântalo, por ter roubado do Olimpo a ambrosia que queria dar aos mortais, sofre eternamente de fome e sede no Tártaro.

Na Índia, o deus Indra eleva-se ao céu no dorso da águia Garuda para roubar o soma, que consumira depois em quantidades enormes, o que lhe dará forças para destruir as fortalezas dos demônios, mas também para desencadear o diluvio do qual apenas Manu será salvo. Apos o diluvio, Indra da o soma a Manu, para que os homens perpetuem a cerimonia do soma, que lhes alimenta o fervor e o poder criador.

Quanto aos pêssegos da imortalidade da mitologia chinesa, servem para fabricar a pílula que Cheng He engole para viver eternamente.

Referências Bibliográficas

GARDIN, Nanon. Histórias das Mitologias do Mundo: Lisboa, Texto&Grafia, 2007.

1 Textos publicados
Civilização Chinesa
Civilização Chinesa | Religião
A religião na China Antiga

Na mitologia chinesa, aquilo que começa por surpreender é a grande semelhança entre o mundo dos deuses e o dos homens. A hierarquia e a organização burocrática da sociedade criada pelos imperadores e pelo seu exercito de funcionários, bem como o seu funcionamento baseado em um sistema de recompensas e castigos, existem tanto no império celeste como no império terrestre. O Imperador de Jade usa as mesmas vestes que o imperador terrestre, e a arquitetura do seu palácio reflete a da Cidade Proibida. Contudo, segundo crenças muito antigas, estes deuses muito humanos são acompanhados por seres míticos, como o dragão e a fênix, ou por animais reais divinizados, como a tartaruga ou o tigre. A única coisa que não é estável neste mundo organizado é a própria noção de divindade. Os mortais podem tornar-se deuses e estes podem trocar de posições, podem ser despromovidos ou, pelo contrario, subir na hierarquia.

Outro dado especifico das crenças chinesas é o relacionamento quase universal de todos os níveis da existência, do microcosmos e do macrocosmos: cada elemento do individuo esta ligado a um elemento da natureza, e as invenções atribuídas aos deuses são geralmente inspiradas em coisas vistas na natureza. Por exemplo, Yu, o Grande, ao observar uma teia de aranha, inventou a rede de pesca e, ao observar o efeito dos incêndios florestais, descobriu a cozedura dos alimentos. A própria invenção dos oito trigramas divinos, descritos no Yijing (I Ching, Livro das Mutações, inicios do I milênio a.e.c., transcrito na dinastia Han), que desempenham um papel divinatório considerável no pensamento chinês, foi inspirada a Yu (ou a Fuxi, o Primeiro Augusto, segundo algumas versões) pela contemplação das configurações observáveis no céu e na terra, a fim de ordenar ó4 hexagramas (ou seja, 8 x 8 hexagramas), ó4 situações de mutações ou de evoluções primordiais, que permitem que a estabilidade e a paz reinem no império e no coração do homem. Outra característica é o fato de a cosmologia chinesa se basear no numero cinco, numero propicio que rege o microcosmos humano (cinco sentidos, cinco extremidades, cinco partes do corpo, etc.) e os elementos (madeira, fogo, terra, metal e agua), a que se associam cinco estações e cinco direções, que são os quatro pontos cardeais e o centro. Cinco montanhas sagradas cobrem o território da China, entre as quais os montes Kunlun, residência dos deuses.

 

As três grandes religiões

A China é o país da tolerância religiosa. Geralmente associadas a filosofias, três religiões fundam o pensamento chinês: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ao lado destas grandes correntes de pensamento, subsistiram crenças muito antigas, que se vivem quotidianamente na China, na forma de animais fantásticos ou de divindades protetoras do homem, do lar ou da região, ou ainda na forma de praticas divinatórias, em que a astrologia desempenha um papel predominante. Assim, o dragão, animal simbólico da China, tem como antepassada uma serpente, que já era venerada pelos habitantes da China vários milênios a.e.c. O budismo implanta-se na China a partir do século 1 d.e.c., na época em que o seu país de origem, a Índia, o abandona para regressar ao hinduísmo. Na China, o culto dirige-se principalmente a duas manifestaçõs de Buda: Mile Fo (Buda Risonho), o gordo buda do futuro, que corresponde ao Maitreya indiano, cujo advento assinalara o inicio de uma era de pureza e de apaziguamento das paixões, e Amituo Fo (Buda da Luz Infinita, Amithaba em sânscrito), o Buda que promete aos homens que invocam o seu nome renascer na Terra Pura, sentado numa flor de lótus, acompanhado pela deusa da compaixão Guanyin (aquela que vê e ouve, que corresponde ao bodisatva indiano Avalokiteshvara). O budismo e o confucionismo afastam-se dos cultos tradicionais autóctones, mas manifestam grande tolerância a seu respeito.

O confucionismo, doutrina de Estado imposta por Han Wudi, fundador da dinastia Han (206 a.e.c. - 220 d.e.c.), dominara a vida social e os costumes ao longo de toda a história da China, ate a fundação da Republica da China, em 1911. A base da doutrina de Confúcio, que viveu no século VI a.e.c., consiste num sistema de uma lógica imparável, assente em um humanismo coletivista: o desenvolvimento do saber permite aceder a sinceridade no pensamento, que leva a reforma do coração e, por isso, a cultura da personalidade. As famílias que vivem segundo estes princípios asseguram o bom governo dos Estados e, portanto, a felicidade e a paz do império.

O taoísmo, baseado no Dao (ou Tao, segundo a transcrição antiga), a via da boa conduta, assenta principalmente nos escritas de Lao zi (Lao Tse), reunidos no Daodejing (Tao-te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude). Esta filosofia, contemporânea da de Confúcio, desenvolve uma ética libertaria e baseia-se na noção dos equilíbrios entre o yin (principio feminino) e o yang (principio masculino), que influenciara profundamente a medicina chinesa e o desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o taoísmo esta na origem da maioria das divindades que constituem a base do panteão chinês.

 

Os Textos

A mitologia chinesa transmite-se sobretudo oralmente, de 2000 a 500 a.e.c., e não deixou de se modificar e enriquecer com as transcrições e versões romanescas ulteriores. As primeiras versões escritas dos mitos aparecem no período feudal, por volta do século III a.e.c., em obras filosóficas como o Zhuangzi ou o Huainanzi, ou ainda em relatos de viagens, como o Chan bai Ching (Clássico das Montanhas e dos Mares), antologia de informações geográficas e de lendas da Antiguidade chinesa realizada durante a dinastia Han. Muitos destes mitos foram popularizados por dois grandes romances da época Ming: Xiyuji (Viagem ao Ocidente), de Wu Cheng'en (c. 1500-c. 1582), e o Fengshen Yanyi (Gesta da Investidura dos Deuses).

As lendas sobre os Ba Man (Pa Hsien, os Oito Imortais) foram também transcritas no século XVII por Wu Yuantai, no seu romance Ba xian chi chu dong yu zi (Peregrinação ao Leste). A literatura mítica chinesa baseia-se na história lendária da China. Deste modo, alguns heróis e chefes da Antiguidade, como Fuxi, Shennong, Huangdi (o imperador Amarelo) e Yu são, simultaneamente, "antepassados", heróis lendários e divindades.

Os grandes textos destacam o valor do sacrifício, a revolta contra a opressão, o amor, as boas ações e a preven4ção do crime. Os sentimentos humanos e a moral ocupam neles um lugar de primeiro plano. Estes textos distinguem-se por grande concisão e eficácia, como mostra a historia de Yu Gong, o velho que queria mover as montanhas, conto moral frequentemente citado por Mao Zedong para ilustrar o valor do esforço coletivo, extraído do Lie Zi (Verdadeiro Clássico do Vazio Perfeito), um dos três grandes clássicos do taoísmo.

 

Yu Gong move a montanha

Ha muito tempo, vivia em Jizhu um velho com 90 anos chamado Yu Gong (que significa "velho louco"). Yu Gong tinha filhos e netos. Apesar da sua idade, continuava a trabalhar diariamente no campo, de manha à noite. Duas altas montanhas, o Taihang e o Wangwu, tornavam muito difícil o acesso a sua casa. Certo dia, reuniu toda a família e propôs aos filhos abater as montanhas e construir uma estrada desde o sul do Henan até a borda do rio. Todos os filhos concordaram. Mas, Xiam Yi, a sua velha companheira, inquietou-se: "Meu velho esposo, parece-me bem que se retirem essas duas montanhas, estou totalmente de acordo. Mas já não es jovem e não és capaz de erguer montanhas como o gigante Kui Fu. Além disso, onde colocaremos a terra e as pedras?" Em coro, os filhos replicaram: "O pai esta velho mas nos somos jovens! Só teremos de transportara terra ate ao mar, não e difícil!" Inspirados pela vontade e obstinação de Yu Gong, puseram-se todos ao trabalho. Os vizinhos vieram ajuda-los. O trabalho era muito duro, pois havia uma grande distancia entre as montanhas e o mar. Apesar de tudo, Yu Gong e os seus filhos nunca pararam de escavar.

Um belo dia, um velho chamado Zhi Su, que significa "velho sábio", parou a borda do rio para fazer troça dele: "Que loucura, com a tua idade, não és capaz sequer de levantar um cabelo a esta montanha, quanto mais toda esta terra e estas pedras!" O velho louco soltou um suspiro e respondeu: sua vaidade cega-te. Uma viúva ou uma criança raciocinam melhor do que tu! Pensa: quando eu morrer, existirão os meus filhos e os meus netos, bem como as gerações futuras. A montanha, por seu lado, não crescerá. Por que razão será então impossível aplana-la?"

 

Origem do mundo

Reunindo dois mitos da criação do mundo, o mito de Pangu introduz, simultaneamente, o ovo original e o corpo de um gigante comprimido no seu interior. Esta imagem de uma matéria comprimida que explode e da origem ao mundo faz lembrar o big bang.

O ovo teve origem no caos. No seu interior, Pangu desenvolve-se durante 18000 anos. Depois de se ter tornado gigante, abre os braços e a casca parte-se. As partes mais leves do ovo elevam-se e formam o céu, enquanto que as partes mais pesadas se tornam na terra, os dois aspectos do yin e yang. Originalmente imagens da luz e das trevas, o yin e yang acabaram por representar forças opostas: o yang é a virilidade, a atividade, o calor, a dureza; o yin e a feminilidade, a passividade, o frio, a humidade e a suavidade. Por vezes antagônicos (vida e morte, bem e mal), o yin e yang são também complementares e indissociáveis um do outro.

Para impedir que o céu e a terra se juntem, Pangu cresce mais dez pés por dia e mantém-los afastados durante mais 18000 anos; o céu esta então afastado da terra em 30000 pés. Satisfeito com o seu trabalho, Pangu deita-se na terra e morre. Do seu corpo nascem então todos os elementos: do seu sopro, o vento e as nuvens, da sua voz o trovão, dos seus olhos o Sol e a Lua, dos seus braços e pernas as quatro direções e do seu tronco as montanhas. Os seus ossos e dentes tornam-se as pedras e os minérios preciosos, a sua pele a erva e as plantas, o seu suor a chuva e o orvalho, e os seus cabelos as estrelas. Dos vários parasitas presentes no seu corpo formam-se os homens.

 

A criação do homem

Segundo alguns mitos, o homem nasceu então das pulgas de Pangu. Outro mito atribui a sua origem a obra de Nu Wa, irmã esposa do primeiro imperador lendário, Fuxi.

Vinda ao mundo após a separação da terra e do céu, Nu Wa depressa começa a sofrer de solidão. Certo dia, vendo o seu reflexo num lago, teve a ideia de fabricar figurinhas de terra a sua imagem. No entanto, como este trabalho lhe ocupava muito tempo, teve a ideia de mergulhar um cordel na lama e de faze-lo girar sobre si. Das gotas de lama que caíram no chão formaram-se seres humanos. Nu Wa criou assim rapidamente uma multidão de homens que povoaram a terra. Os homens que ela moldou na argila amarela eram belos e nobres, e os que nasceram das gotas de lama eram mais ou menos bem feitos. E assim que se explica a diversidade humana.

 

O dilúvio ou a Grande Inundação

Vários mitos chineses fazem referencia a um diluvio ou a uma inundação enorme. Uma dessas lendas, contada por Sima Qian (c. 145-86 a.e.c.), narra as ações de Yu, o Grande, herói lendário e rei demiurgo da China antiga, que conseguiu vazar as aguas que haviam invadido o mundo.

A epopeia de Yu narra numerosas aventuras que colocam em cena seres míticos, mas o seu principal mérito consiste no fato de ter concluído os trabalhos iniciados pelo seu pai, que, por ordem do imperador, trabalhara durante nove anos na evacuação das águas sem ter terminado a tarefa e fora depois banido e esquartejado, sacrifício que marcou o inicio de uma nova era. Durante 13 anos de trabalho duro, Yu esforçou-se por acabar com o diluvio e canalizar todas as aguas que haviam invadido a terra. Yu beneficiou da ajuda de uma tartaruga gigante, que, sozinha, transportava montanhas de terra no seu dorso. Um dragão alado, Ying, marcava com a cauda o traçado dos futuros canais e dragava vários rios num dia. Por fim, gigantes benfazejos fendiam as montanhas e deitavam as terras para o mar. Graças a "terra que se dilata", Yu fechou as 233 559 nascentes das grandes aguas e edificou quatro montanhas insubmersíveis. O herói usou as mãos e os pés neste trabalho titânico, fendendo a montanha, escavando canais e edificando barragens. A sua pele secou e ficou tão magro e fraco que deixou de poder andar. Mas cumpriu a tarefa tão bem que, no fim, toda a agua da inundação foi evacuada para o mar. Na sua luta contra as aguas, Yu concluiu uma aliança com o deus do rio Amarelo, que lhe deu o Quadro do Rio, uma espécie de diagrama emblemático onde o mundo é representado por um quadrado magico.

Em seguida, Yu reordenou o mundo, percorrendo-o em todos os sentidos ate as suas extremidades. Saltitava, arrastando uma perna, esgotado devido aos seus grandes trabalhos. O "passo de Yu", dança magica com que Yu organiza o mundo, foi praticado pelos sacerdotes tauistas durante séculos. Depois de ter medido o espaço, Yu gravou um mapa em nove caldeirões de bronze, que todos os soberanos posteriores se esforçaram em vão por encontrar.

A estória altamente moral de Yu, marcava pela perseverança e pela determinação, faz dele o modelo ideal do funcionário zeloso. Diz-se, nomeadamente, que, durante os seus grandes trabalhos, passou três vezes em frente a sua casa, mas sem entrar, pois considerava a sua missão infinitamente mais importante do que a vida familiar. O imperador Shun ficou toão impressionado com a virtude e com o trabalho de Yu que o escolheu para seu sucessor. Yu tornou-se assim o primeiro imperador da mítica dinastia dos Xia (2205-2197 a.e.c.) e foi divinizado como deus governador das Aguas. Atualmente, o seu mausoléu, perto de Xhaoxing, na província de Zhejiang, continua a ser muito visitado.

 

O Panteão Chinês

O panteão chinês impressiona desde logo pela importância da hierarquia e pelo fato de os deuses não serem propriamente diferentes dos homens. Organizado à imagem da sociedade chinesa, apresenta-se como uma administração muito estruturada, em que cada divindade tem o seu próprio palácio ou domínio em um dos diferentes níveis do céu, beneficiando de uma equipe de funcionários, de um exercito e de atribuições precisas. Os deuses e os seus colaboradores efetuam tarefas administrativas, fazem listas e registos, prestam contas à divindades superiores, que, por sua vez, prestam contas uma vez por ano ao Imperador de Jade, o soberano absoluto. O próprio dragão, animal sagrado dos Chineses, é um funcionário encarregado de velar sobre as Aguas da terra, oceanos, rios e ribeiros em geral. As divindades principais, na ordem hierárquica, são: o Céu, a Terra, os antepassados imperiais, os deuses dos Cereais, Confúcio, a Lua e o Sol.

 

O Imperador de Jade

No nível superior do Céu e da hierarquia divina, o Imperador de Jade ou Pai-Ceu, personificado por um dragão dourado, reside em um palácio semelhante ao do imperador terrestre. Nesse palácio, dispõe de um grande corpo de funcionários e de um exercito, que lhe permite combater os espíritos malévolos. A sua esposa real, a rainha-mãe Wang, tem a função, entre outras, de organizar os banquetes dos deuses, onde são consumidos os pêssegos da imortalidade. O Imperador de Jade usa o chapéu dos imperadores, uma tabuinha de madeira na qual estão pendurados 13 berloques de perolas. Duas vezes por ano, nos solstícios de inverno e de verão, o imperador terrestre vai oferecer-lhe sacrifícios no templo do Céu, um dos monumentos mais impressionantes de Pequim. Uma procissão solene acompanha o imperador ate a grande escadaria de mármore, que ele sobe para se prosternar na vasta sala circular e oferecer ao seu augusto representante celeste peças de seda e objetos de jade, carnes e libações.

 

Os Reis-Dragões

Os Reis-Dragões, diretamente colocados sob a autoridade do Imperador de Jade, estão encarregados de distribuir a chuva sobre a Terra. Os quatro grandes Reis-Dragões, que habitam em palácios de cristal no Céu, são responsáveis pelos Quatro Mares que rodeiam a Terra, sobre os quais velam com o seu exercito de caranguejos e peixes. No entanto, existem numerosos Reis-Dragões locais que reinam sobre todos os poços, rios, fontes e canais da China. Em caso de seca, as pessoas dirigem orações e fazem oferendas a estas divindades e, quando a chuva regressa, organizam-se grandes festas em sua honra.

 

Wenchang, o deus da literatura e dos exames

A propósito da China da dinastia Ming, um Ocidental fez esta observação: "Todo o reino é governado por filósofos." Diretamente ligado a organização burocrática e ao culto da literatura e da escrita, o deus da Literatura ou dos Letrados, Wenchang, tem o poder de favorecer o sucesso nos exames imperiais. Os concursos de admissão na função publica, organizados em todo o país pelo imperador, representaram sempre uma grande oportunidade de ascensão social. Wenchang é geralmente representado de pé, em cima de uma tartaruga, tendo na mão direita um pincel e, na mão esquerda, um alqueire, que lhe serve para avaliar os méritos do candidato aos exames. Com efeito, está encarregado de nomear o primeiro classificado no concurso organizado pelo Imperador de Jade. No plano terrestre, podemos ver aquela tartaruga na laje de mármore que separa os dois lances de escadas que levam ao Palácio Imperial, onde o imperador concedia audiências aos candidatos. O primeiro a subir os degraus ficava naturalmente à altura da cabeça da tartaruga, e por isso que Wenchang e representado de pé em cima da cabeça de uma tartaruga.

 

O Sol e a Lua

Na China, o Sol foi objeto de um culto oficial ate inicios do século XX. No entanto, contrariamente ao deus Sol dos Incas ou ao deus Rá dos Egípcios, está longe de ocupar o primeiro nível da hierarquia divina. Em contrapartida, os Chineses prestam culto a Lua, que é festejada no meio do outono, no decimo quinto dia do oitavo mês do calendário lunar. O herói Yi, o arqueiro divino, e a sua esposa Cheng He estão intimamente ligados a história da Lua e do Sol.

No principio havia dez sóis, que, com o seu pai Di Jun e a sua mãe Xi He, habitavam uma amoreira gigante, chamada Fusang, nas aguas do paraíso do Leste. Estas aguas estavam sempre em ebulição, pois os sóis banhavam-se nelas todos os dias. Um de cada vez, todos os dias os dez sóis revezavam-se no céu para iluminarem o mundo, enquanto que os seus irmãos descansavam nos ramos da amoreira. No entanto, certo dia, os dez irmãos revoltaram-se contra a rotina estabelecida pelo pai e resolveram ir todos juntos divertir-se no céu. Para os habitantes da Terra, foi uma verdadeira catástrofe. O mundo tornou-se incandescente, impossível de habitar, e a vegetação começou a morrer. O imperador Yao, que reinava então sobre a terra, suplicou a Di Jun que acabasse com aquele flagelo. Di Jun refletiu durante algum tempo e decidiu enviar o seu melhor arqueiro, Yi, à Terra. Confiou-lhe um arco magico, com a missão de assustar os sóis. Mas, horrorizado com a visão da situação terrível em que os humanos se encontravam, Yi disparou uma flecha contra um dos sóis. Uma chuva de faulhas douradas caiu por toda a parte, e um corvo de três patas caiu no chão. Um após outro, Yi abateu assim nove sóis e a temperatura voltou ao normal.

Indignado com a morte dos filhos, Di Jun decidiu castigar Yi. Exilou-o definitivamente na Terra com a sua mulher Cheng He e tornou-os mortais. Como Cheng He se lamentava de ter perdido a imortalidade, Yi decidiu pedir o elixir da vida a rainha do Ocidente, que vivia nos montes Kunlun com os outros deuses. Depois de ter superado varias provas difíceis, chegou a residência da rainha, que aceitou dar-lhe uma dose suficiente para lhe assegurar a imortalidade e à sua mulher. Mas avisou Yi de que se uma única pessoa tomasse toda a dose, subiria até as altas esferas do mundo. Quando Yi regressou, Cheng He só tinha uma ideia na cabeça: beber todo o conteúdo do frasco para ir visitar as regiões superiores. Certo dia em que Yi se ausentou, a mulher executou finalmente o seu projeto e foi logo transportada para a Lua. Descobriu ai uma lebre, sentada debaixo da árvore da imortalidade, ocupada a fabricar eternamente o elixir da vida, e um velho, que passava o tempo a tentar cortar a árvore.

Cheng He passou então a residir na Lua com os seus dois companheiros. É representada como uma jovem muito beta. É frequentemente evocada nos romances e nas poesias, que falam de uma mulher "bela como Cheng He vinda da Lua".

 

Os Oito Imortais

Os Ba Xian (Pa Hsien), os Oito Imortais, não são propriamente deuses, mas homens que, pela sua devoção, virtude e pratica da via taoista obtiveram a imortalidade e vivem com os deuses nos montes Kunlun, no centro da Terra. A cada mil anos, a rainha-mãe Wang, esposa do Imperador de Jade, convida-os para um grande festim, no qual são servidos os pêssegos da imortalidade.

Estas personagens bonacheironas, consideradas protetores eficazes, tornaram-se divindades extremamente populares a partir da dinastia Song (960-1279).

Os Oito Imortais são os mestres da arte marcial da ebriedade, zui baxian, cujo código se inspira no Quajing Quan fa Beiyao, um livro do século XVII onde figura o cântico dos Oito Imortais. Esta arte marcial continua hoje a ser uma das formas do kung-fu, uma técnica de agilidade e de descontração na qual se imitam as varias atitudes que caracterizam cada um dos Oito Imortais.

"Sob o efeito do álcool, Zhong Lijuan executa a dança da ebriedade com o seu leque.

O imortal bêbedo Gulao desloca-se escarranchado na sua mula, montado ao contrario.

Com a cabeça pesada e o passo ligeiro, parece bêbedo, como se caminhasse na lama;

O terceiro imortal, Xiangzi, toca a sua flauta de ferro.

Não está seguro da sua esquerda nem da sua direita, e não distingue o alto do baixo;

Aquele que gosta de tocar as castanholas, o espirito melancólico;

Cao Gujiu, vestido como de madrugada, executa a dança da ebriedade [...]»

 

Cao Gujiu, criado na corte, refugiou-se na montanha para seguir a via do Tao. É representado com roupas de corte, com tabuinhas na mão.

Han Xiangzi, representado com uma flauta, padroeiro dos músicos e dos agricultores, faz as flores desabrocharem.

He Xiangu, a única mulher do grupo dos Imortais, asceta taoista protetora das moças, tem uma flor de Iótus na mão.

Lan Caihe, espécie de fogo sagrado, protetor dos pobres, é representado vestido com uma túnica azul, calçado apenas com um sapato, e um alaúde. Li Tieguai (Li com bengala de ferro), protetor dos doentes, abriga-se no corpo de um mendigo. É representado ébrio, com uma bengala e uma cabaça cheia de álcool.

Lu Dongbin, filósofo moralista e aluno de Zhong Lijuan, é representado a segurar uma espada, que aprendeu a manejar com Zhong Lijuan. A sua bondade é tão famosa que um proverbio chinês diz: "o cação morde Lu Dongbin", que significa que só alguém sem qualquer juízo pode morder o melhor dos homens.

Zhang Gulao desloca-se em uma mula branca, que é capaz de dobrar e guardar em uma folha de papel. É o padroeiro dos pintores e dos calígrafos.

Zhong Lijuan, o gorducho, distribui aos pobres o cobre que transformou em prata. Tem um leque que lhe serve para reanimar as almas dos mortos e na mão, segura um pêssego da imortalidade.

 

Os deuses da felicidade

Não se pode falar de mitologia chinesa sem evocar os deuses mais populares do país, presentes na maioria dos lares chineses na forma de estatuetas ou de imagens coloridas guardadas em um móvel a altura dos olhos. "No céu existem três estrelas boas, na terra, existem fu, lu e shu", diz um provérbio chinês. Lu representa a elevação social e a abundância. Por vezes, tem nos braços uma criança que simboliza a esperança. Fu, deus da felicidade e da prosperidade, um pouco maior do que os outros, e sempre colocado ao centro. Tem nos braços um rolo de ouro que representa a riqueza. Shu, o deus da saúde e da longevidade, é representado na forma de um velho com a testa alta e crânio calvo, tendo em uma mão uma bengala e, na outra, um pêssego da imortalidade.

 

OS ELIXIRES DA IMORTALIDADE  Soma, ambrosia, hidromel e pessegos...

Só será estranho que os deuses, para conservarem a sua qualidade de imortais, tenham de beber regularmente uma bebida especifica? É que, além disso, esse elixir precioso lhes possa ser roubado? Esta exigência vital da natureza divina não será o equivalente do Conhecimento, ao qual os homens, no Genesis, só podem aceder segundo a dosagem prescrita por Deus, e não foi por terem transgredido essa dose, ao descobrirem a fonte do bem e do mal, que perderem o direito a imortalidade?

O Odrerir dos deuses escandinavos, elixir de imortalidade, mas também da inspiração poética, é conservado no fundo de uma gruta guardada por um gigante. O próprio Odin teve de recorrer a astucia para se apoderar desse elixir: assumiu a forma de uma águia e levou-o para o palácio dos Aesir (Asgard).

Píndaro conta que Tântalo, por ter roubado do Olimpo a ambrosia que queria dar aos mortais, sofre eternamente de fome e sede no Tártaro.

Na Índia, o deus Indra eleva-se ao céu no dorso da águia Garuda para roubar o soma, que consumira depois em quantidades enormes, o que lhe dará forças para destruir as fortalezas dos demônios, mas também para desencadear o diluvio do qual apenas Manu será salvo. Apos o diluvio, Indra da o soma a Manu, para que os homens perpetuem a cerimonia do soma, que lhes alimenta o fervor e o poder criador.

Quanto aos pêssegos da imortalidade da mitologia chinesa, servem para fabricar a pílula que Cheng He engole para viver eternamente.

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Comportamento e Seleção sexual dos gêneros no Homo sapiens
Na perspectiva evolucionista, as estratégias sexuais de homens e mulheres são consideradas decorrentes da histó­ria evolutiva da espécie humana e da de seus ancestrais próximos. A presente abordagem leva em consideração os mecanismos de seleção sexual, numa perspectiva compa­rativa, descritos por Darwin (1871/1981), Wallace (1878) e, posteriormente, por Hamilton (1967) e drivers (1972). Discutem-se mecanismos que procuram explicar “por que” (causas últimas) e “como” (causas próximas) os contextos ecológico e social e, posteriormente, a cultura passaram a compor a expressão das preferências e escolhas de parcei­ros na espécie humana.
História
Primeira Guerra Mundial - A derrota britânica em Galípolli e a expulsão dos aliados do estreito de Dardanelos
No outono de 1914, depois que a “Corrida para o mar” levou ao início da guerra de trincheiras, Winston Churchill passou a defender o uso decisivo do poderio britânico em torno da periferia da Europa como uma alternativa a destinar mais recursos à frente ocidental. Na condição de primeiro lorde do almirantado, no inverno de 1914 para 1915, ele elaborou um plano em que uma coluna de navios de guerra Aliados faria pressão no Dardanelos e atacaria Constantinopla. A ousada manobra talvez compelisse o Império Otomano a solicitar a paz, abrindo o estreito turco como rota de abastecimento entre os Aliados ocidentais e a Rússia. No mínimo, calculava Churchill, forçaria os turcos a concentrar suas forças na defesa de sua capital, aliviando a pressão não apenas sobre os russos no Cáucaso, mas também sobre os britânicos no Egito. O melhor de tudo, ele insistia, era o fato de que a operação poderia ser executada apenas com a força naval.
Psicologia
Os prazeres provenientes da dor, dos exercícios e da aceitação social no Sistema Nervoso
O exercício físico sustentado, seja correr, nadar, pedalar ou alguma outra atividade aeróbica, tem benefícios bem conhecidos para a saúde, inclusive melhorias no funcionamento dos sistemas cardiovascular, pulmonar e endócrino. O exercício voluntário também é associado a melhorias de longo prazo no funcionamento mental e é a melhor coisa que pode ser feita para reduzir o declínio cognitivo que acompanha o envelhecimento normal. O exercício tem um acentuado efeito antidepressivo. Ele amortece a resposta do cérebro ao estresse físico e emocional. Um programa regular de exercícios produz grande número de alterações no cérebro, inclusive novo crescimento e ramificação de pequenos vasos sanguíneos e aumento da complexidade geométrica de alguns dendritos neuronais. Exercícios físicos são associados a uma série de alterações bioquímicas inter-relacionadas, inclusive aumento do nível de uma proteína-chave chamada BDNF (fator neurotrófico deriva­do do encéfalo). Atualmente não se sabe muito bem quais dessas alterações morfológicas ou bioquímicas fundamentam os efeitos benéficos do exercício voluntário no funcionamento cerebral, mas trata-se de uma área que vem sendo ativamente pesquisada.
História
Os corsários alemães da Primeira Guerra Mundial
Os cruzadores de batalha britânicos Invincible e Inflexible, já não mais necessários no Atlântico Sul, partiram de volta para casa quatro dias depois de destruírem a esquadra de Spee. Os navios que eles deixaram para trás se concentraram em perseguir o Dresden, que tinha retornado para o Pacífico depois de sobreviver à Batalha das Malvinas com a intenção de chegar às Índias Orientais. O Dresden conseguiu afundar apenas um navio mercante Aliado antes que problemas com o motor e a falta de carvão levassem seu capitão a solicitar internação em Más a Tierra (ilha Robinson Crusoé), nas ilhas Juan Fernandez, a 640 km da costa chilena. Em 14 de março de 1915, o Kent e o Glasgow o encontraram e abriram fogo, ignorando a internação, o que levou o capitão do Dresden a afundar seu próprio navio.
Psicologia
Comportamento sexual, prazer e o sistema nervoso
Nosso comportamento humano em relação a drogas ou comida, sugere que basicamente somos iguais aos outros mamíferos. Apesar de termos um neocórtex maior do que o de um camundongo ou um macaco e, dessa forma, maior capacidade de neutralizar nossos impulsos subconscientes com controle cognitivo, na essência nossas reações a comida e substâncias psicoativas são as mesmas que as dos nossos parentes mamíferos distantes. O mesmo não se aplica ao nosso sistema reprodutivo. Como a sua gata bem sabe, os seres humanos são, em termos relativos, muito diferentes nessa área. Na maioria dos outros mamíferos, a fêmea anuncia sua fertilidade com sinais claros: gestos e chamados sexuais distintivos, odores, intumescência, e assim por diante. Machos e fêmeas normalmente não se aproximam um do outro para fazer sexo fora desses períodos férteis. Por outro lado, fêmeas humanas ocultam a ovulação, de forma que não há indicativos claros do ciclo ovulatório de uma mulher. Com efeito, apesar de as mulheres poderem se treinar para detectar a própria ovulação, não há evidência de conhecimento instintivo da ovulação em seres humanos. Uma consequência disso é que a maior parte do sexo humano, até a relação sexual peniana-vaginal mais humana, é recreativa: ela não se restringe aos períodos férteis. Ela chega a ocorrer em situações nas quais a concepção é completamente impossível, como durante a gravidez ou depois da menopausa.