Pré, Proto-História (246mil a.e.c.)
Idade Antiga (4000 a.e.c. - 476 d.e.c.)
Idade Média (476 - 1453 d.e.c.)
Idade Moderna (1453 - 1789 d.e.c.)
Idade Contemporânea (1789 - 1946 d.e.c.)
Era da Informação (1946 - Presente)
Mesopotâmia a Invenção da Cidade -  | 2003 |
As Religiões Que o Mundo Esqueceu -  | 2008 |
Família e Patrimônio na Antiga Mesopotâmia -  | 2007 |
História da Antiguidade Oriental -  | 1969 |
Um Estudo Crítico da História Vol. I -  | 2001 |
Dos Sumérios a Babel - A Mesopotâmia - Historia, Civilizaçao, Cultura | 2003 |
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Civilização Asteca | Religião
A eternidade da alma Asteca

Existem várias interpretações, segundo a escatologia asteca. Para Alfredo López Austin, a geografia do mundo asteca está dividida em três planos - subterrâneo, terreno e celestial -, todos ligados pela árvore cósmica de Tamoanchán, chamada Xochtlicacín (De Onde Brotam as Flores). O plano subterrâneo, onde estão fincadas as raízes da árvore, se chama Chicnauhmictlín (O Nono Lugar do Inframundo). O plano terrestre, ocupado pelo tronco da árvore, se chama, por sua vez, Tlalticpac (A Superfície da Terra), e se compõe de quatro planos. E, finalmente, onde estão esparramados os galhos mais altos, situa-se o Chicnauhtopin (Os Nove Lugares Celestiais). No começo dos tempos, por dentro do tronco, fluíam as energias do céu e do inframundo, enroscadas, mas não misturadas. Com o pecado dos deuses, entretanto, rompeu-se o tronco e as duas seivas, superior e inferior ou "quente e fria”, segundo a terminologia mítica -, misturaram-se, dando origem ao caos mortífero da vida terrena.

Civilização Asteca | Religião
Os céus e os submundos astecas

Diz a lenda que ele se originou de parte do monstro Cipactli, um crocodilo gigante que foi esquartejado pelos deuses. Parte dele se converteu na Terra e parte no céu, que foi erguido por quatro deuses ou gigantes e sustentado por pilares, a fim de não tornar a se juntar à Terra. Cipactli foi homenageado no calendário mágico (tonalpohualli) como o primeiro dos vinte signos do "zodíaco" asteca. 
Mas que forma passou a possuir a Terra após essa gênese violenta? Jean Marcilly diz que, para os astecas, a Terra é um disco chato, cruzado pelos pontos cardeais, sendo o ponto de confluência de duas pirâmides, cujos vértices principais se tocam. A pirâmide de cima são os céus; a de baixo, os inframundos. A de cima recebe as horas do dia; a de baixo, as horas da noite.
Ao redor do Tlalticpac (Terra) está um rio chamado Chicunauhapín ("A Corrente dos Nove")

Civilização Asteca | Religião
Os paraísos astecas

Existem duas cosmografias míticas no universo asteca. A primeira é a horizontal delimitada pelos cinco pontos cardeais (o centro também é considerado um deles). Cada qual está associado a um deus e também a uma infinidade e outros atributos, impossíveis de serem enumerados aqui, tal a sua quantidade e complexidade. Em se tratando de mitologia asteca, não existem verdade firmadas, mas interpretações diversas e apenas aproximativas. A representação dos pontos cardeiais em forma de cruz, recorrente na iconografia asteca, era um dos conceitos fundamentais do misticismo ameríndio pré-colombiano. Cada um dos quadrantes possuía a sua simbologia própria:

Civilização Asteca | Religião
O Xamã asteca

No antigo México, o xamã era considerado um membro altamente respeitado da comunidade e desempenhava uma função vital como intermediário entre o mundo espiritual e o mundo natural. Os xamãs não escolhiam esta carreira - ou já nasciam xamãs, ou eram chamados através de sonhos e visões. Uma parte importante das crenças astecas era a interligação entre todas as coisas – vivas e mortas - e o papel do xamã consistia em trabalhar com a energia do mundo para lá da percepção quotidiana. A pulque, uma bebida alcoólica feita a partir da piteira, era muito usada nas cerimônias pois tinha um efeito alucinógeno como peyote e datura (outras variedades de catos mexicanos). As máscaras, os cânticos, os tambores, as matracas e outros instrumentos também eram usados para ajudar o xamã a atingir um estado de consciência alterado. Atualmente, as práticas dos xamãs na tradição cultural antiga invocam os mitos e as divindades do passado. Podem prescrever ervas medicinais, encontrar almas perdidas, ler o futuro ou proceder a purificações numa casa ou num indivíduo que tenha sido enfeitiçado.

Civilização Asteca | Ciências
A pedra calendário Asteca

Os Astecas davam grande importância ao estudo da matemática e da astronomia e desenvolveram complexos sistemas de contagem do tempo. O conceito de tempo que tinham era mais cíclico que linear e era dependente e controlado por forças divinas. Os Astecas dispunham de dois calendários concomitantes: um de 260 dias movendo-se no sentido dos ponteiros do relógio (coincidindo com o tempo de gestação humana), e um de 365 dias movendo-se em sentido contrário. Construído no século xv, a famosa Pedra do Calendário (também conhecida como Pedra do Sol) foi descoberta em 1790 na capital asteca de Tenochtitlan, hoje Cidade do México. A pedra mede 3,5 m de diâmetro, pesa 25,5 toneladas e é ricamente esculpida em basalto. No centro da Pedra do Calendário reconhece-se a face do deus do Sol Tonatiuh. Criador do Quinto Sol. Os quatro quadrados que o rodeiam representam as quatro eras anteriores (ou «sóis») que foram destruídas por animais, vento, fogo e água. Na orla e da pedra estão duas serpentes sagradas, que simbolizam a natureza cíclica e em espiral da dança da vida.

Civilização Asteca | Religião
O universo tripartido Asteca

No centro do universo asteca - o local de encontro do Céu, Terra e Sudmundo - era a cidade capital de Tenochtitlan. Segundo a lenda, o povo local era conhecido por Tenochca, mas o deus da guerra Huitzilopochtli deu-lhes um novo nome, Mexica, e ordenou-lhes que construíssem a capital numa ilha no meio do Lago Texcoco. No coração da cidade erguia-se o magnífico Grande Templo, dedicado a Huitzilopochtli e o deus asteca da chuva, chamado Tlaloc.

Civilização Asteca | Religião
A Religião Asteca após a conquista espanhola

Nos anos seguintes a 1521, a conversão dos povos nativos da Mesoamerica continuou, mas era mais aparente que real. Registros de 1536 a 1540 revelaram que tais costumes pre-colombianos como a concubinagem, idolatria e sacrifício humano ainda eram praticados. Em 1565, os bispos espanhóis da Cidade do Mexico reclamavam da facilidade com que os nativos se revertiam para os rituais pre-conquista, escondendo ídolos atrás de altares em igrejas recem-construidas, fazendo uso de alucinógenos e invocando o simbolismo das cores antigas. Os padres franciscanos tomaram Tezcatlipoca não apenas como a divindade asteca principal, mas também como Lucifer cuja influência maligna era vista entre os povos indígenas.

Civilização Asteca | Força Militar
A guerra Asteca

A antiga milícia mexicana era diferente em vários aspectos fundamentais dos seus equivalentes europeus. Os astecas, como os seus contemporaneos na Mesoamerica, não fomentavam a guerra para conquistar e integrar território, ou converter os derrotados para sua própria religião. Sua motivação era derrotar os inimigos para poder cobrar impostos deles e capturar prisioneiros para rituais de sacrifício aos deuses. Administrar as áreas conquistadas era caro e pouco prático, por isso os astecas governavam indiretamente por meio de chefes locais e alianças políticas por casamento. A recompensa dessa abordagem era a fabulosa riqueza que jorrava em Tenochtitlan. A matança em campo de batalha e a destruição da terra eram "autoderrotantes" para esse fim. Porem, havia exceções. A morte na guerra era frequente e as cidades, as vezes, eram destruídas e sua população dizimada para servir de aviso as outras.

Civilização Asteca | Família
A Família Asteca

O nascimento de uma criança era uma ocasião de alegria e perigo, ambos físicos e espirituais. Os bebes eram trazidos a luz por parteiras profissionais que rezavam para Chalchiuhtlicue, a deusa da fertilidade e da maternidade. Se o bebe fosse menino, o cordão umbilical era dado aos guerreiros para ser enterrado em campos de batalha; se fosse menina, era colocado embaixo de uma lareira, simbolizando suas futuras tarefas domesticas. O nome de um bebe recém-nascido era escolhido após uma consulta dos pais aos sacerdotes que determinavam as influencias sobrenaturais associadas com o tempo e com a data de nascimento. Se a data de nascimento fosse julgada de sorte, o bebe era nomeado no dia seguinte; se agourenta, uma data mais propícia era escolhida. Logo após o nascimento eram presenteados com miniaturas de sua futura vida adulta. Alguns meninos eram presenteados com o escudo de um guerreiro, outros com ferramentas de ourives, enquanto as meninas ganhavam uma vassoura ou uma roca cheia de malha de algodão. Meninos e meninas eram bem-vindos igualmente nas famílias astecas e descritos carinhosamente como "colares preciosos" ou "belas penas".

Civilização Asteca | Cotidiano
A Sociedade Asteca

A sociedade asteca estava baseada e caracterizada nos direitos, privilegios, costumes e emblemas de cada classe. No topo estava o imperador sagrado, conhecido como Huey Tlatoani, ou Primeiro Orador. Como era a pessoa mais importante da sociedade asteca, ele governava como representação divina de Tezcatlipoca. Em vestimentas tipicamente astecas, a posição do imperador não era herdada, mas sim obtida por meio da eleição com um conselho de nobres, os homens mais aptos da família real. Uma vez escolhido, cada novo imperador passava por uma longa serie de rituais que incluíam a Guerra da Coroação, para provar suas habilidades militares. O Codex Florentino descreve esses eventos, especialmente o imperador realizando rituais de discursos para Tezcatlipoca nos quais ele pedia força e liderança. Uma vez coroado, o novo imperador era carregado em um trono de jaguares e águias onde tinha seu corpo perfurado com uma presa de jaguar em uma oferta de sangue que o ligava eternamente aos deuses.

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Localização geográfica da Mesopotâmia
Idade Antiga - Antiguidade Oriental - Civilização Suméria - Civilização Acadiana - Civilização Assíria - Civilização Babilônica - Localização geográfica da Mesopotâmia
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Na seqüência dos historiadores gregos, considerou-se durante muito tempo a Mesopotâmia, a bacia do Tigre e do Eufrates, como uma unidade geográfica e histórica. Tal concepção, hoje caduca, não resiste à análise dos fatos. A Mesopotâmia divide-se em quatro regiões de características muito diferentes, constituídas por oasis mais ou menos extensos, arados por estepes secas e pedregosas ou por pântanos.

A Norte, estende-se a Alta Mesopotâmia, suficientemente úmida para que a agricultura possa depender das chuvas de Inverno. Compreende a Assíria, rosário de oasis que se desfia ao longo do Tigre e dos seus afluentes a Djeziré, estepe desolada que serve de pastagem após os períodos chuvas.

Vem, em seguida, o vale do Eufrates e a planície aluvial, sujeitos as cheias caprichosas dos rios, as do Eufrates em Abril e as do Tigre em Maio. A Paisagem é, pois, modulada pelas aluviões. É uma terra fértil; a raridade das chuvas toma, no entanto, necessário um sistema de irrigação complexo e altamente aperfeiçoado. Esta irrigação intensiva acabara entretanto por arruinar os solos fazendo que apareçam à superfície os elementos de sais que se encontram a alguma profundidade.

Mais a Sul, a, região dos grandes pântanos é um autêntico mar de caniços rico em caça e em peixe. É o refúgio dos fugitivos e dos proscritos. Julgou-se durante muito tempo que, na Antiguidade, as costas do golfo deviam encontrar-se mais a Norte do que se encontram nos nossos dias e que, conseqüentemente, as grandes cidades sumérias se situavam à beira do mar. Mas os trabalhos dos geólogos ingleses G.M. Lees e N.R Falcon tendem a fazer admitir uma formação muito mais antiga da região baixa. As cidades ter-se-íam então erguido nas margens de uma laguna de água doce.

Por fim, a Sudeste, no prolongamento da planície, estende-se a Susiana, franja do Elam, banhada pelos cursos do Karum e do Kerkha cujos altos vales abrigam as rotas comerciais que conduzem ao planalto iraniano.

As várias partes da Mesopotâmia apenas tem em comum a ausência quase geral de minérios, de pedra e de madeira de construção. É à argila do solo que a Mesopotâmia vai buscar o tijolo, o seu único material de construção juntamente com a cana.

Importante encruzilhada de estradas, a planície não deixa de lembrar uma grande avenida comercial. Para além do golfo Pérsico, o tráfico marítimo estende-se até ao Indo. Na própria planície, as rotas fluviais são acompanhadas pelas rotas das caravanas que chegam ate à Síria do Norte, às regiões de Katna, de Alepo ou de Karkemish. De Iá partem as principais vias de comunicação para a Ásia Menor, Palestina e Egito, e, ao longo das costas do Líbano, para Chipre, Creta e ilhas do mar Egeu. Compreende-se então como o desejo de possuir um porto seguro no golfo Pérsico pode suscitar conflitos. É obvio que a vontade de controlar o conjunto das rotas; comerciais da planície está na origem da formação dos grandes impérios.

Referências Bibliográficas

A.L. OPPENHEIM, Ancient Mesopotâmia, Chicago, 1964;

J. B. PRITCHARD, The Ancient Near East in Pictures: Princeton, 1954.

 

36 Textos publicados
Civilização Suméria
Civilização Hebráica | Religião
Deus e o mal, da mesopotâmia à bíblia

O "mal" que aqui constitui "problema" não é o que chamamos de "mal moral": o "vício", a imoralidade, a maldade, a perversidade, ainda que sejam, aos olhos dos cristãos, os mais deploráveis; é o infortúnio, o sofrimento, físico ou moral, a impossibilidade de obter ou de conservar o que se ama ou de se livrar do que se detesta. O animal atingido não tem outro recurso a não ser a paciência. Mas o homem, quando está infeliz, não pode impedir a si mesmo de se fazer perguntas, sobretudo a mais importante delas: Por quê?

No plano utilitário, uma curiosidade como essa é legitimada pela busca de um remédio: se tenho um severo ataque de dor ciática, tomo um comprimido e a dor se atenua, ou desaparece. Mas, de acordo com a gravidade do mal, é no plano religioso que esse "por quê?" se impõe com mais força, insistência ou angústia. A partir do momento em que é possível remeter tudo o que se passa aqui embaixo a uma causa sobrenatural, ao mesmo tempo inteligente e onipotente; a partir do momento em que se pensa ter diante de si, mesmo invisível, um interlocutor responsável ao qual se pode perguntar "por quê?", ainda que ele não responda, que não responda nunca, e deixe ao interrogador a preocupação de encontrar a resposta - eis o verdadeiro "problema do mal", aquele em que penso aqui: o mais pesado, assustador, intolerável, a ponto de poder atingir com um golpe mortal a fé na existência do Interlocutor sobrenatural em questão. Quem não se recorda do grande monólogo de Ivan Karamazov, diante do insuportável sofrimento dos filhos?: "Não me recuso a admitir Deus, apenas lhe devolvo respeitosamente meu bilhete!"

Mesmo que se venha a detectar a causa imediata do mal de que se sofre e que se consiga encontrar um remédio para ele, resta sempre a questão, aquela que torna o problema verdadeiramente lancinante e intolerável: por que eu? Por que este mal se abateu sobre mim, aqui e hoje? Por que a causa universal de tudo, aquela que dirige o mundo e sem a qual nada pode ser feito aqui embaixo, por que ela fez com que esse infortúnio me atingisse, justo a mim?

Um problema como esse já assombrou outros, antes de nós. E em particular, para permanecer na linha de um pensamento religioso, aos homens autores da bíblia. Sem falar das freqüentes alusões dispersas que nela encontramos, sobretudo em um de seus livros, o de Jó, que se consagrou expressamente a ele.

Mas se a bíblia trouxe ao mundo uma revolução, uma considerável transformação religiosa, ela não é, nesse domínio, um princípio absoluto: em história, a grande lei é a de que "Há sempre alguma coisa antes!". Quando, em 1872, descobriu-se pela primeira vez um documento mesopotâmico que trazia um relato do Dilúvio inteiramente comparável ao dela, palavra por palavra, detalhe por detalhe, e, contudo, anterior a ela, começou-se a imaginar que devia haver algo a aprender sobre o "pré-bíblia", sobre as fontes da bíblia, naquele país, cujos arquivos exumamos sob a forma de meio milhão de documentos, legíveis e inteligíveis - entre os quais um grande número recobre os problemas e os próprios textos da bíblia, tais como, entre outras, as questões da origem do mundo e da mais antiga história do homem desde seu aparecimento. Ocorre, justamente, que nessa massa de documentos figuram também alguns dedicados ao problema que nos é colocado pela existência do mal.

 

Sumérios, acadianos e aramaicos

 

Deveria haver algum interesse em conhecê-los, não por eles próprios, talvez, mas pelo fato de mostrarem que se a mesma questão cardeal trabalhou o espírito dos antigos mesopotâmios de um lado, e, de outro, o dos autores da bíblia, estes a resolveram de maneira completamente diferente. Talvez essa diferença permita compreender que se os israelitas de fato receberam muito dos mesopotâmios antigos, sua visão religiosa era radicalmente distante demais para que se pudesse dizer, como não se deixou de fazê-lo, às vezes ingenuamente, que "a bíblia nasceu na Mesopotâmia".

Em primeiro lugar, é indispensável situar essa Mesopotâmia famosa e ainda tão pouco conhecida fora do círculo imperceptível de seus especialistas, e sobretudo seu sistema religioso, em cujo interior se colocava o problema que nos ocupa.

Mesmo que os antigos habitantes deste país (mais ou menos recoberto pelo Iraque contemporâneo, e cuja história podemos acompanhar desde o fim do quarto milênio a.e.c.) tenham recebido muito de uma população provavelmente imigrante - da qual conhecemos a língua e muitos escritos, mas nada além disso - os sumérios, esses desapareceram de maneira relativamente rápida, desde o fim do terceiro milênio a.e.c., no máximo, não deixando ali mais do que aqueles que haviam inicialmente aculturado e que chamamos acádianos ou acádios, em outros termos: semitas.

A civilização e a religião, na Mesopotâmia antiga, eram, portanto, a despeito da contribuição suméria, profundamente semíticas: pertenciam àquela grande e venerável família lingüística e cultural que devia, sucessivamente, a partir do fim do terceiro milênio a.e.c., dar origem aos "acádios", aos que chamamos de "cananeus", depois aos aramaicos e, mais tarde, aos árabes. Os velhos mesopotâmios, por suas raízes semíticas, compartilhavam, pois, um certo número de tradições e traços de mentalidade com os semitas ulteriores e, entre eles, os hebreus, autores da bíblia, e provenientes do ramo "cananeu". Esse parentesco é capital: ele explica muitas das convicções e reações comuns que assinalaremos entre mesopotâmios e israelitas.

No plano religioso, os mesopotâmios eram decididamente politeístas e antropomorfistas. Isto é, haviam imaginado, bem acima do mundo - para governá-lo e desempenhar nele o papel de causa primeira universal -, toda uma sociedade de seres sobrenaturais: deuses, que representavam a própria imagem, magnificada e embelezada, muito mais poderosos e inteligentes do que eles, e subtraídos à morte. Eles haviam tomado aqui embaixo, como modelo para esses deuses imaginados, não as "pessoas comuns", insuficientemente reluzentes, mas as mais notáveis, a alta classe dos governantes - o rei, sua família e sua corte de altos e não tão altos funcionários.

E como os semitas, em geral, sempre partilharam uma viva e poderosa convicção sobre a ingerência universal dos deuses na marcha do mundo e dos homens, estava-se persuadido, na Mesopotâmia, de que esses mesmos deuses desempenhavam em relação a nós - de maneira mais grandiosa, naturalmente! - o papel do rei para com seu povo, cujo comportamento ele regulava por meio de decisões coercivas. Portanto, tudo o que, positiva ou negativamente, comandava a conduta dos homens, em todos os domínios da vida - o direito, o ritual, a moral, e até as rotinas folclóricas, irracionais, mas que nos sentimos na obrigação de seguir -, supostamente emanava da vontade diretiva e "legislativa" dos deuses. E da mesma forma que o príncipe castiga toda desobediência às suas ordens, os deuses puniam as infrações aos seus comandos: pois tratava-se de revoltas intoleráveis contra sua autoridade, de menosprezo de sua vontade; em uma palavra, de pecados. Essa noção de pecado, ligada de perto, aparentemente, às representações tradicionais dos semitas, já tinha amplo espaço na consciência dos mesopotâmios, como mais tarde na bíblia.

 

Uma Sanção de nossas faltas

 

Foi por meio do apelo a essa noção que primeiramente se tentou, nesse país, responder ao "porquê" do infortúnio: sempre em virtude da mesma analogia. Se infrinjo uma ordem do rei, ele pode dar a seus representantes a missão de me infligir um castigo. Da mesma maneira, se cometi um pecado, os deuses têm boas razões para me punir. Essa era a primeira explicação que os antigos mesopotâmios davam para o infortúnio. Todos os males que nos acontecem eram, aos olhos deles, sanções de nossas faltas, justamente decretadas pelos deuses e executadas por seus "agentes", que haviam sido imaginados sob a forma de "demônios", também eles seres sobrenaturais, de silhueta incerta, inferiores aos deuses e superiores aos homens, e cujo papel era de ordem, digamos, "policial".

É de se notar que semelhante raciocínio explicativo, tal como frequentemente o vemos, mais ou menos detalhado, em nossos textos cuneiformes, era feito a posteriori. Em outros termos, para um homem desafortunado, bastava, para justificar seu infortúnio, para lhe conferir uma razão última, recorrer a esta dialética mitológica: "Se sofro, é porque sou castigado pelos deuses; se eles assim me puniram, foi porque pequei contra eles." Mas se os deuses mesopotâmicos eram necessariamente justos, e se era preciso, a qualquer preço, salvaguardar sua justiça fornecendo, do lado do homem desafortunado, um motivo legítimo do mal do qual este padecia, eles não deixavam por isso de ser soberanamente livres e, como os reis, podiam muito bem, por razões próprias, dispensar a si mesmos de reagir diante das faltas dos homens. É por isso que não se podia raciocinar a priori: "Se cometi um pecado, devo forçosamente esperar expiá-lo." Partia-se do infortúnio para concluir a respeito da falta que supostamente o teria provocado.

Mas o que ocorria quando o desafortunado não tinha a menor lembrança de ter transpassado ordens divinas? Isso acontecia, necessariamente! Nesse caso, também havia meios de "salvaguardar a justiça dos deuses": considerando-se o número quase infinito de todas as obrigações e proibições impostas pelos senhores do mundo, sempre era possível invocar uma delas, quase imperceptível ("Não há homem isento de pecado", dizia-se), e mesmo esquecida, inconsciente, ou ainda (em um país em que o regime jurídico admitia a responsabilidade familiar) cometida por um próximo!

Essa maneira de raciocinar tinha algo de frágil e simplista, uma vez que, afinal de contas, a falta explicativa era, em muitos casos, postulada: "Devo ter cometido um pecado!" Afinal, se alguém estava mergulhado em um sofrimento ou infortúnio excessivos, tendo consciência apenas de pecadilhos irrisórios, não tinha razões para reputar injusta a severidade exagerada dos deuses? E como "salvar" a justiça deles do espetáculo de notáveis celerados nadando em felicidade - pois isso também se via com muita frequência! - diante de pessoas honestas e cruelmente tratadas?

Eis um belo exemplo das reações de tais vítimas. É o último grande rei de Nínive, o famoso Assurbanipal, que, por volta de 630 a.e.c., depois de ter evocado todos os seus préstimos, lança este lamento:

Fiz bem aos deuses e aos homens, aos mortos e aos vivos. (...) Então, por que doenças e tristezas, dificuldades e danos não me abandonam? Discórdias no país, perturbações e fracassos de toda sorte estão constantemente em meu encalço. Mal-estares do corpo e do coração me encarquilham inteiro. Passo o tempo a lamentar e a suspirar. Mesmo no dia da grande Festa, fico desesperado. (...) Oh, meu deus, semelhante sorte, reserve-a aos ímpios, e deixe-me re-encontrar a fortuna! Até quando você vai me maltratar dessa maneira, como alguém que não respeita nem deuses nem deusas?

 

Que pecado afinal cometi?

 

Assim, no país, com o tempo, vozes foram se elevando no sentido de exigir, para o problema do mal, uma solução religiosa mais nuançada, mais aceitável, que levasse em conta "justos sofredores" e "maus felizes".

Desses protestos restam-nos alguns ecos literários. No decurso do tempo, foram compostas, no país, algumas obras (poéticas, embora, na Mesopotâmia, o lirismo fosse em geral bastante fleumático) que propunha, por menos que possamos lê-las e compreendê-las, essa nova "resposta", melhorada, que parece ter-se disseminado, e depois se imposto, ao menos no segundo milênio a.e.c.

Algumas palavras, somente, sobre as duas mais antigas. Uma delas foi composta em língua suméria, sem dúvida perto do fim do terceiro milênio a.e.c., em cerca de 40 versos. A outra, em língua acadiana, deve ser das proximidades do segundo quarto do milênio seguinte: ela conta com menos da metade dos versos, e chegou a nós com enormes lacunas. Ambas apresentam "um homem" que, face a face com "seu deus", lamenta seus infortúnios e suas penas. É claro que reconhece-se culpado por seus pecados, o que salva a doutrina vigente; mas suas faltas não lhe parecem ter importância e gravidade proporcionais ao rigor de seu castigo, o que ressalta a insuficiência da doutrina. Ele implora, então, ao deus a quem se dirige, para livrá-lo. E esse deus, no final, o livra de fato e lhe restitui a felicidade. Essa dupla aventura, que resumo aqui, ganhará todo o seu sentido quando nos debruçarmos sobre o terceiro poema, o mais significativo.

Intitularam-no O Justo sofredor, por referência implícita e, em minha opinião, errônea, ao livro bíblico de Jó: a situação é completamente diferente! Trata-se de um longo monólogo, de cerca de 500 versos., repartidos em quatro tabuletas. Para expor sua tese, não por meio de abstrações mas bastante concretamente, o autor, desconhecido, decidiu materializá-la em uma história, a qual fez com que o paciente detalhasse e da qual quis reforçar a credibilidade ao apresentar este último, com todo o seu séquito, como um personagem conhecido (mas não por nós!) na Babilônia no último terço do segundo milênio a.e.c., época de origem do poema. De acordo com o grande movimento religioso "reformista" daquele tempo, que havia levado que se colocasse à frente dos deuses e do mundo Marduk, o líder sobrenatural da cidade, é declaradamente a ele que o autor do poema faz com que o queixoso se dirija.

Não se deve procurar aqui a grande literatura. Não apenas o texto tende a ser raso e prolixo em geral (inconveniente que não é excepcional nas "belas-letras" mesopotâmicas), como o autor parece ter sido tomado por uma aflitiva preocupação de sistematização, e até mesmo de geometrização: certamente porque queria pôr sob os olhos dos leitores uma demonstração, mais do que um verdadeiro relato. Seu plano é simples, e mesmo simétrico: nas duas primeiras tabuletas, o paciente conta seus infortúnios; nas outras, sua libertação.

Os infortúnios se dividem em duas categorias: na primeira tabuleta, tudo o que é degradação social - perda dos favores do rei, da situação, da fortuna, da consideração, e desprezo dos concidadãos; na segunda, o acúmulo de males propriamente físicos e a extraordinária coleção de doenças - todas gravíssimas -, quase cômica pela quantidade, que levam o autor ao tema da morte. Das duas últimas tabuletas, muito mais lacunares, resta, contudo, o bastante para nos fazer compreender que a libertação - inesperada, depois de tantas provações e inúteis orações, é decidida de maneira brusca e espontânea, no pior momento, pelo deus soberano, Marduk - realizou-se (ainda a sistematização ingênua!) no sentido inverso da chegada dos males: primeiramente desaparecem os que atingem o corpo, um após o outro; depois os mal- estares de ordem social! Por fim, de volta às graças de seu deus, o paciente se vê novamente no grande templo de Marduk, na Babilônia, realizando uma espécie de peregrinação devota de gratidão, ao longo da qual, à medida que avança, recebe graças acumuladas.

 

Esperar os favores divinos

 

Eis aqui ao menos alguns trechos da primeira parte: a degradação social.

Eu que tinha os lábios loquazes me tornei surdo-mudo,/ Minhas sonoras gritarias foram reduzidas ao silêncio,/ Minha cabeça, que era erguida, inclinou-se até o chão.../ Após ter-me pavoneado altivamente, aprendi a esgueirar-me pelos cantos.../ Minha cidade me tratou como inimigo,/ E, tornado-me hostil, meu país se encheu de cólera contra mim!

Em seguida, a degradação física:

Meus olhos se encarquilhavam, mas sem ver;/ Meus ouvidos se abriam, sem ouvir:/ O esgotamento se apoderou de meu corpo,/ E uma comoção se abateu sobre mim./ A paralisia tomou meus braços,/ A exaustão sobreveio aos meus joelhos,/ Meu esqueleto se desenhava, coberto apenas com minha pele.../ Minha tumba estava aberta, minha pompa fúnebre, organizada.

No início da segunda tabuleta, e entre as duas crises, o paciente recorda primeiramente seus inúteis pedidos de ajuda ao seu deus:

"Eu gritava para meu deus, e ele recusou-me o rosto;/ Eu implorava à minha deusa, e ela sequer erguia os olhos..."

Depois disso, ele deixa escapar o que constitui aos seus olhos o verdadeiro "problema do mal": diante da certeza da justiça dos deuses e de seu deus, o que mais o tortura é que ele se vê assim castigado a despeito de sua piedade e de seu comportamento exemplares:

 

Como alguém que jamais houvesse assegurado libações ao seu deus,/ Jamais houvesse inclinado piamente seu rosto, nem praticado a prostração,/ De cuja boca se houvessem afastado orações e preces,/ Que houvesse esquecido a festa de seu deus,/ Negligenciado as celebrações mensais,/ E que, por incúria, houvesse abandonado o culto,/ É assim que sou tratado: como um homem mau punido.

Ele detalha, então, todos os seus atos pios, que, normalmente, deveriam ter atraído para ele as boas graças dos deuses. No entanto, tais atos não o protegeram dos maus tratamentos destes, isto é, daquilo que, em virtude da velha "lei" comumente admitida, que explicava o infortúnio pelo pecado, se assemelhava exatamente a uma punição de faltas. A perturbação e a confusão de seu espírito diante de semelhante anomalia são tão grandes que ele acaba por se perguntar se a lógica dos deuses não estaria invertida: o avesso da nossa - pois então tudo ficaria claro:

É claro, eu acreditava que meu bom comportamento fosse agradável aos deuses!/ Mas será, talvez, que o que estimamos louvável/ Não é ofensivo para eles?/

E que o que julgamos blasfematório/ Talvez seja para eles um prazer?

E em favor dessa interpretação, ele evoca a doutrina, ou antes a convicção, compartilhada por todos os semitas, da superioridade radical dos deuses, que vai a ponto de torná-los incompreensíveis para nós:

"Quem jamais saberá o que querem os deuses, no céu?/ Quem compreenderá o que ruminam os deuses, no inferno?/ Como os habitantes da terra penetrariam o plano divino?"

Aí residiria um promeiro aspecto da nova resposta para o problema do mal: a saber, que não há resposta, pois ela é reservada aos deuses e, por natureza, inacessível aos homens. Veremos que, levada ao absoluto, essa transcendência do sobrenatural, no livro de Jó, constitui justamente a chave do mistério. Aqui, diríamos que o autor a teve em mãos, mas sem o poder de usá-la, nem sequer de reconhecê-la, pois em uma região antropomorfista e politeísta como a da Mesopotâmia, nada podia ser absoluto. Assim, o autor do poema se limita, para responder ao problema que apresentou, ao fato de que, uma vez que os deuses se encontravam por natureza - à maneira dos reis em relação ao seu povo - bem acima de nós, inacessíveis e imunes, por isso, às nossas inquisições e recriminações, a única coisa que podemos dizer diante da conduta deles em relação aos homens que parecem castigar, mesmo sem que haja razão para isso, é que ela é desconcertante e que não temos que julgá-la. Na verdade, não se trata de uma explicação, mas quase de uma tautologia.

Há, contudo, outra coisa no poema: outro aspecto de sua resposta, complementar a esse que acabo de ressaltar. Encontramo-lo precisamente no princípio, nos primeiros versos, como se a história contada na seqüência devesse ser apenas sua aplicação ou demonstração:

Glorifico o sapientíssimo Senhor, o deus razoável,/

Que se irrita, à noite, mas que, chegado o dia, se acalma:/ Glorifico o senhor Marduk!/ Como a tormenta de um ciclone, ele envolve tudo com sua cólera;/ Depois, seu hálito se faz benfazejo, como o zéfiro da manhã!/ Irresistível, inicialmente, é seu furor, é catastrófica, sua ira;/ Depois seu coração volta atrás, sua alma se corrige!

O que quer dizer isso, senão que os deuses, Marduk à frente, são, afinal de contas, como os homens, e mais ainda como os reis, que, livres de toda coerção, passam constantemente do preto ao branco? Deve-se, pois, saber que são capazes, sem nenhum outro motivo a não ser o humor ou a vontade, de se deixar bruscamente levar às piores violências e crueldades; depois, da mesma maneira incontrolável, estão prontos para as bondades mais admiráveis. E a longa história contada no poema não é uma impressionante ilustração dessas reviravoltas? Inicialmente vítima sem razão aparente das sevícias de Marduk, sem que nada - preces, súplicas, rituais - pudesse salvá-lo, o paciente, de repente, e sem outra razão, se vê libertado pelo mesmo Marduk, cujo "coração", nesse meio-tempo, "havia voltado atrás", cuja "alma se havia corrigido". Assim compreendemos melhor o sentido da obra inteira.

 

As sombrias cavernas do além

 

Por trás dessa aventura e do opúsculo a ela consagrado, oculta-se o que o autor pretendia trazer: ao mesmo tempo uma lição e o complemento da "resposta ao problema do mal" que queria ensinar. Uma resposta racional é impossível, pensa ele; não é sequer preciso buscá-la, trata-se do segredo dos deuses, inacessível. Por outro lado, quando o infortúnio nos atinge, mais do que quebrar a cabeça para explicá-lo, por meio do pecado ou de outra maneira, só nos resta esperar pacientemente, com resignação, o infalível retorno da fortuna. Trata-se, de uma só vez, de uma exortação ao fatalismo e de uma lembrança da evidência de que "após a tempestade vem a bonança". Era igualmente esse o ensinamento, a partir de então mais bem compreendido sob essa luz, dos dois opúsculos mais antigos, consagrados ao mesmo problema: o infeliz, inicialmente maltratado sem motivo, era, no fim das contas, libertado sem razão.

A prova de que semelhante explicação do infortúnio acabou aprovada e admitida, na Mesopotâmia, ao menos na alta classe (nada temos e nada sabemos das reações da multidão, analfabeta e silenciosa diante de nós), está no fato de que ela também se encontra, sutilmente, no fundo da quarta e última obra relativa ao mesmo problema do mal.

Os assiriólogos a chamaram, de maneira um tanto imprópria em minha opinião, de Teodiceia - a "justificação dos deuses a respeito da existência do mal". Ela deve ter sido composta na virada do segundo para o primeiro milênio a.e.c. Conhecemos o nome do autor e sua qualidade de membro do clero, pois introduziu tais informações em seu texto por meio de acróstico; mas nada além disso. Diferente, contudo, do autor de O Justo sofredor, trata-se de um excelente escritor, de linguagem original e poderosa, e com vigorosa argumentação, ainda que o resultado nos pareça decepcionante.

Em 27 estrofes de 11 versos cada, ele escreveu um diáogo no qual duas partes discutem com grande cortesia, mas sem fazer rodeios. De um lado, aquele que podemos chamar de "queixoso", e que, bastante discreto em relação aos detalhes de seus infortúnios, deixa claro que, depois de uma prática constante da piedade e da virtude, e sem ter nada a censurar a si mesmo, tem várias razões para queixar-se de sua sorte, desde a mais tenra juventude. É ele quem toma primeiramente a palavra e quem encerra o debate, no fim. De outro lado, seu interlocutor, anônimo, tem a aparência daqueles velhos com reputação de "sábios", grandes repetidores de sentenças e truísmos. O queixoso não apenas sustenta fortemente suas críticas, como as baseia, com toda evidência, unicamente nos fatos, constatados por sua própria experiência e pelos olhares agudos que tem sobre o mundo - e ele não é gentil!

Em meio a toda a literatura mesopotâmica, jamais encontrei algo mais negro, ácido e forte quanto à censura do que se passa aqui embaixo, nenhuma reprovação tão ferina do mal universal, tolerado pelos deuses:

Aqueles que não fazem caso algum dos deuses, seguem o caminho da fortuna. Mas quem implora a eles com fervor só tem pobreza e miséria.../ Lancei meu olhar sobre o mundo: tudo anda às avessas:/ Os deuses não barram o caminho ao diabo!/ Um pai reboca penosamente seu barco, no canal,/ Enquanto seu primogênito se compraz no leito./ Um filho de rei se reveste de farrapos,/ Mas um filho de maltrapilhos é suntuosamente vestido.../ E eu, que sempre servi os deuses, o que ganhei com isso?/ Eis-me aqui aviltado diante de um insignificante qualquer,/ E, rico e opulento, um fedelho me despreza.../ Exalta-se a palavra do prepotente, habituado ao assassinato,/ E esmaga-se o modesto que jamais cometeu uma má ação!/ Enchem-se de ouro os baús do tirano. Mas esvazia-se a despensa do pobre...

A esses dados factuais, relatados com veemência, o sábio, seu interlocutor, replica apenas com vagos "princípios", com aqueles aforismos que correm as ruas, com aquelas máximas gastas que não têm muita relação com as vituperações do queixoso. Ele o lembra de que "apenas a piedade lhe devolverá a fortuna", que seu futuro será melhor mesmo que não se mantenha apegado aos deuses, e que, além disso, a prosperidade dos maus é transitória e será prontamente substituída pelo infortúnio. E repete-lhe o axioma favorito dos semitas, e em particular dos mesopotâmios: "o plano dos deuses é tão distante quanto o âmago do céu; dominá-lo é impossível: não o compreendemos". Ele vai ainda mais longe quanto a esse aspecto, afirmando que foram os deuses-criadores, em pessoa e deliberadamente, que "dotaram os homens, ao criá-los, de uma inteligência confusa,/ Outorgando-lhes o erro no lugar da verdade!/ É por isso que tanto se proclama a fortuna do rico".

Se seguirmos a discussão na ordem, salta aos olhos que os argumentos do sábio não fazem o mínimo efeito sobre os do sofredor, que insiste, cada vez mais, em seus vitupérios, como se permanecesse sempre seguro de si, diante de explicações tão frágeis. Espera-se, portanto, que, para concluir, ele rechace definitivamente o autor de tais tolices, e o mande embora humilhado. Bem, não é de modo algum o caso, e essa é a surpresa final da Teodiceia: sem explicação ou refutação, sem o menor meio-termo, abandonando de uma só vez sua veemência e indignação, o revoltado apela subitamente, com humildade, para os deuses, esperando deles, com a cabeça baixa, a abolição de seu infortúnio. Eis as suas últimas palavras:

"Que meu deus possa ainda, após ter-me abandonado, socorrer-me,/ E que minha deusa, que se distanciou, tenha novamente piedade de mim!"

Apesar de tudo o que havia afirmado antes no sentido contrário, ele volta, pois, sem explicações, à grande lei, posta e explicada em O Justo sofredor, da alternância divina: curvando a cabeça, ele espera que seu deus "volte atrás", que "se corrija". Em outros termos, a lição final que os autores dos três escritos anteriores queriam inculcar, e mais explicitamente o de O Justo sofredor, a resposta deles de certa forma definitiva ao problema do mal, e até mesmo do mal universal, era a seguinte: quando o infortúnio advém, a única atitude inteligente é esperar pacientemente sua fatal evacuação e substituição, ao sabor da vontade dos deuses, pela fortuna, renunciando a compreender as razões de seu advento. Trata-se de um segredo divino.

É claro que isso não vai longe. Mas ainda que nos consideremos, como eles gostavam de repetir, demasiado débeis para compreender o que fazem e querem os deuses, só podemos nos decepcionar com essa recusa tímida e inesperada de ir mais longe, e com esse fatalismo infantil que, em matéria de explicação religiosa do mal, constitui, no entanto, a última palavra dessa poderosa, inteligente e grandiosa Mesopotâmia, primeira edificadora de nossa civilização ocidental, que ainda nos surpreende por tudo o que inventou e trouxe ao mundo, a começar pela incomparável revolução da escrita.

Podemos, agora, nos demorar um pouco sobre a bíblia: para nós, ela não é exótica e distante como a Mesopotâmia, e meu propósito é acima de tudo ressaltar como, em presença do mesmo problema do mal, e a partir de pressupostos comuns, os autores da bíblia reagiram de maneira tão radicalmente diferente, e por quê.

A razão fundamental dessa divergência reside, a meu ver, em uma concepção completamente diferente do divino. Os hebreu eram semitas, como os mesopotâmios. Sentiam também a necessidade de colocar, acima do universo, para governá-lo e constituir sua indispensável causa primeira, todo um mundo sobrenatural, cuja superioridade, digamos transcendência, lhes era tão patente quanto para os mesopotâmios.

Como eles, estavam convencidos de que essa causa suprema intervinha em toda parte, não apenas no funcionamento e na vida do universo e deles mesmos, mas também em seu próprio comportamento; e imputavam-lhe todas as obrigações e proibições que nele intervinham. Como eles, consideravam toda desobediência a tais comandos uma revolta contra o divino, um desprezo, um pecado que merecia punição.

A partir de premissas em suma idênticas, o que comandou reações tão diferentes foi o fato de que os hebreus não tinham absolutamente a mesma representação que os mesopotâmios da ordem sobrenatural das coisas: eles não eram nem antropomorfistas nem politeístas; recusavam-se a ver o divino como uma projeção magnificada de si mesmos e a imaginá-lo disperso em um número mais ou menos grande de personalidades sobrenaturais. O criador de sua religiosidade e de seu povo, Moisés, incutira neles o que os historiadores das religiões chamam de henoteísmo, forma superior do politeísmo que consiste não em negar a existência de uma pluralidade de pessoas divinas, mas em escolher uma delas para ligar-se exclusivamente, afastando ao mesmo tempo todas as outras do campo de sua religiosidade.

Para associar de maneira mais estreita e definitiva seu povo a esse deus escolhido, que tinha o nome de Javé, Moisés havia recorrido a um velho costume, familiar aos antigos semitas, que consistia em criar um laço particular entre pessoas privadas ou públicas, por meio de um procedimento dito de "aliança". Por meio dessa aliança, Javé, de certo modo, adotara Israel como seu povo particular, comprometendo-se a apoiá-lo contra todos os seus inimigos e a ajudá-lo eficazmente em todos os seus empreendimentos;

Os Hebreus, por sua vez, havia jurado não apenas que se afastaria, para sempre, dos outros deuses, mas que consagraria unicamente a Javé seu apego religioso e seu culto; e seus fiéis, diferentemente de todos os outros povos de então, renunciariam a todo tipo de representação imagética de Javé - como que para afirmar a radical diferença dele em relação a todos os outros deuses - e a toda a faustuosa ostentação de riquezas materiais no culto - a fim de se concentrar na obediência completa e exclusiva à vontade moral de Javé: eles o adorariam por meio de uma conduta reta e honesta, e não pela exibição dos próprios dons. Semelhante revolução, inaugurada por Moisés, constituiu, de fato, na história religiosa da humanidade, uma transformação completa dos valores e das práticas.

 

Um monoteísmo absoluto

 

Foi sobre essas bases que se formou, em alguns séculos, o que chamamos de monoteísmo: a saber, a convicção de que Javé, o deus que foi escolhido primeiro e preferido entre todos os outros, era na verdade o único, o absolutamente único, para o universo inteiro. Esse monoteísmo absoluto, enunciado pela primeira vez no Deuteronômio (IV 35; século VII a.e.c), implicava uma concepção absoluta da transcendência reconhecida ao Divino por todos os semitas. Enquanto aos olhos dos mais avançados entre eles, os mesopotâmios, o universo aparecia constituído como uma espécie de enorme esfera única, que encerrava em si tudo o que existia - tanto o mundo sobrenatural quanto o material, tanto o criador quanto a "criatura" -, o monoteísmo, absoluto, implicava a existência de duas esferas ontológicas completamente separadas uma da outra: a do Deus único, do Criador, e a da criatura, sobre a qual o Criador podia agir, mas a partir da qual não se podia absolutamente ter acesso a ele. Em outros termos, como diríamos em nossa linguagem, o divino não era "maior", "mais imenso", "mais imensamente poderoso" que todas as criaturas, ele era de outra ordem.

A segunda consideração que deve ser levada em conta para que se observe a que ponto os autores da Bíblia estavam afastados dos outros semitas, inclusive dos mesopotâmios, está no fato de que a aliança particular com Israel fora firmada entre Deus e um povo: foi o povo hebreu que Javé prometeu apoiar em seus empreendimentos (vitória sobre os inimigos, estabilidade política, prosperidade comum...), e era primeiramente como membros de um povo devotado unicamente a Javé que deviam agir os hebreus, que viviam, portanto, sob o regime da responsabilidade coletiva.

Entretanto, eles descobriram pouco a pouco, a partir do século VII a.e.c., a responsabilidade individual: "Naqueles dias", proclama Jeremias (XXXI, 29), "não se ouvirá mais dizer: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos são os que se embotaram. Mas cada um morrerá na sua iniqüidade." Mudança considerável e diametral! O castigo prometido para os pecados - por esse Deus único e absoluto é, portanto, justo, que não podia deixar de infligi-lo sem renunciar a ser ele mesmo e a respeito do qual não se poderia mais raciocinar de outra forma que não a priori ("pequei, portanto devo ser punido, com o mal ou o infortúnio") -, desde então, passava do coletivo para o singular: não era mais o povo, mas cada um de seus membros, que deveria sofrer a justa sanção de sua falta.

 

História do verdadeiro "justo sofredor"

 

Algo poderia colocar temíveis dificuldades práticas: nas coisas dos homens, os fatos sempre são mais ricos do que as leis por meio das quais queremos enquadrá-los. Um povo tem futuro, e sempre é possível projetar nele a realização de promessas e ameaças; mas um indivíduo morre rapidamente e, para os hebreus, assim como para todos os outros semitas e contemporâneos deles, depois da morte de um homem só restava dele sua sombra incerta, seu fantasma etéreo, destinado sem julgamento discriminatório a um modo de torpor e de sonolência indefinidos nas sombrias cavernas do Embaixo, do inferno, desde então inacessível ao bem e ao mal, à fortuna e ao sofrimento - e, portanto, insensível a tudo: impunível e "irrecompensável". Recompensa ou castigo deveriam, portanto, realizar-se durante a curta existência aqui embaixo do justo ou do mau.

Foi assim que se colocou, e se encorpou, sobretudo a partir da metade do primeiro milênio a.e.c., o problema do mal em Israel. Permanecia certo e indiscutível que todo pecado contra Javé deveria ser a priori punido por meio de um mal físico ou moral, de um infortúnio, de uma catástrofe, e na própria pessoa do pecador. Mas como e quando? Uma vez que se via a cada dia (como se observara na Mesopotâmia) pessoas honestas, virtuosas e justas sendo perseguidas e desgraçadas, e francos criminosos tomando-se prósperos e beatos.

Foram dessas discussões, das quais temos vários lampejos, aqui e ali, na bíblia, que surgiu o livro de Jó (século V ou IV a.e.c., provavelmente). Nada sabemos sobre seu autor. Mas basta lê-lo para se dar conta de que não se trata apenas de um dos mais poderosos e prodigiosos poetas, mas de um pensador religioso de primeira grandeza.

O livro não é inteiramente dele. Não somente, com o tempo (como é o caso de alguns livros bíblicos), algumas inserções foram feitas, como também, e sobretudo, ele comporta, no início e no fim, um enquadramento em prosa, em uma língua e um ritmo particulares, que parece com o conto popular. É bastante possível que o autor em pessoa tenha retido esse relato, que devia correr em seu tempo, não apenas porque certamente acreditava que fosse verdadeiro, mas sobretudo porque lhe fornecia a situação ideal para se lançar sobre o problema do mal sob sua forma mais aguda, mais escandalosa - o verdadeiro justo sofredor e, portanto, castigado -, e para apresentar o que lhe parecia a única explicação plausível para ele, na lógica de sua religião.

Tratava-se, com efeito, nesse texto de um certo Jó, um homem a um só tempo rico, feliz e religiosamente perfeito, irrepreensível, uma vez que Javé em pessoa, orgulhoso dele, o reconhecia e o declarava em alta conta. Diante da incredulidade de Satanás, seu grande "adversário", que estava persuadido de que Jó só se apegava a seu deus por interesse, e não por devoção sincera, Javé abandonou-o a ele. E em pouquíssimo tempo, o infeliz se viu despojado de todos os seus bens e filhos, reduzido à miséria e, atingido também em seu corpo, a coçar suas feridas sobre um monte de lixo, sem uma palavra de protesto e sempre apegado a seu deus, enquanto até mesmo sua mulher o havia aconselhado: "Amaldiçoe a Deus e morra de uma vez!" (II, 9).

Eis, portanto, o problema do mal apresentado em todo o seu rigor: como justificar o sofrimento de um homem que o próprio Javé sabe e proclama que é isento de todo pecado, justo e irrepreensível, e que não deveria, portanto, ser assim castigado, uma vez que o infortúnio é sempre apenas um castigo? De um lado, no decorrer do diálogo que compõe o livro, Jó não para de protestar sua inocência - e sabemos que ele diz a verdade! De outro lado, os três amigos que vieram encontrá-lo não cessam, alternadamente, de mostrar-lhe que a explicação de sua degradação é simples, conforme ao axioma teológico segundo o qual somente é infeliz aquele que mereceu seu infortúnio pecando: Jó é, portanto, culpado - e sabemos que eles estão errados! A discussão se prolonga, em vão, como todas as discussões humanas.

 

"Vou tapar a boca com a mão" (XL, 4)

 

Mas no fim Javé intervém e dirige-se a Jó, que, mais de uma vez, com veemência, lhe havia perguntado: por quê? E o que diz ele ao tomar a palavra "no meio de uma tormenta", como para fazer-se acompanhar do fenômeno natural que mais evoca sua formidável potência? Eis o início de seu discurso:

Quem é esse que escurece o meu projeto com palavras sem sentido?/ Se você é homem, esteja pronto: vou interrogá-lo, e você me responderá./ Onde você estava quando eu colocava os fundamentos da terra?/

Diga-me, se é que você tem tanta inteligência!/ Você sabe quem fixou as dimensões da terra?/ Quem a mediu com a trena?/ Onde se encaixam suas bases,/ Ou quem foi que assentou sua pedra angular,/ Enquanto os astros da manhã aclamavam e todos os filhos de Deus aplaudiam?/ Quem fechou o mar com uma porta, quando ele irrompeu, jorrando do seio materno?/ Quando eu coloquei as nuvens como roupas dele e névoas espessas como cueiros?/ Quando lhe coloquei limites com portas e trancas, e lhe disse:/ "Você vai chegar até aqui, e não passará. Aqui se quebrará a soberba de suas ondas?" (XXXVIII, 2-11)

Você já chegou até as fontes do mar, ou passeou pelas profundezas do oceano?/Já mostraram a você as portas da morte, ou por acaso você já viu os portais das sombras?/ Você examinou a extensão da terra? (XXXVIII, 16-18)

E assim sucessivamente, em 30 versos que passam em revista, em uma língua poderosa e esplêndida, cheia de incomparáveis imagens, o universo e seu povoamento de maravilhas inventadas, realizadas e dirigidas unicamente por Javé.

O que ele quer dizer? Entre os antigos semitas, os discursos eram preferencialmente mais sugestivos do que explicativos, um pouco como música, que é preciso sentir, mais que analisar, se quisermos receber a mensagem. Ao fim dessa longa tirada, na qual o autor se limita a pôr sob a responsabilidade de Javé o prodigioso espetáculo do mundo e o maravilhoso funcionamento da natureza, descritos com uma espécie de entusiasmo lírico admirável, e para os quais o homem em nada contribuiu e nem poderia fazê-lo, Jó compreende que nada mais lhe resta a não ser o silêncio:

"Eu me sinto arrasado. O que posso replicar? Vou tapar a boca com a mão." (XL, 4)

E, com efeito, não há nada a dizer. O papel de Javé é único: ele mesmo se encontra em posição demasiado alta; sua ação é a um só tempo formidável e incomparável o bastante para que o único sentimento que se possa experimentar diante dele seja o de aprovação e admiração, o que quer que ele faça! Não temos que colocar-lhe questões, fazer-lhe perguntas, e esperar respostas que, de resto, não entenderíamos. A única resposta ao grande "por que" que nos é colocado nos lábios pelo problema do mal, sob sua forma mais aguda, é que não há por que, pois ele seria dirigido a um ser ininterrogável, que em nada se assemelha a nós, e que nos é totalmente ocultado por sua própria transcendência.

Jó foi o primeiro a ir até o fim dessa noção tão familiar aos antigos semitas. Ele compreendeu que Deus não é maior, mais sábio, mais forte do que nós, o que suporia que é grande, sábio e forte como nós. Ele é algo completamente diferente, pertence a uma ordem de grandeza completamente diferente, isolado em sua esfera própria, que o subtrai a nossos questionamentos, mesmo diante de um problema tão agudo e escandaloso como o do mal: o do sofrimento do Justo - e da mesma maneira o da fortuna do Mau. Não temos meio de compreendê-lo: de modo algum se assemelha a nós e, de resto, não seria Deus se nos fosse compreensível e, portanto, acessível, o que o rebaixaria ao nosso nível. Resta-nos, portanto, apenas nos deixarmos levar por ele, onde e como ele quiser, admirando-o ainda mais na medida em que tudo o que faz, mesmo contra nós, nos excede completamente e não poderia ser mudado.

No livro de Jó, a transcendência tomou todo o seu sentido, pois, na visão dele, como na visão bíblica, não estamos mais diante de divindades múltiplas e antropomórficas, simplesmente alçadas à sua máxima grandeza por nossa imaginação, mas de um Deus absolutamente único, não muito maior do que nós, mas sem nada em comum conosco, de uma ordem completamente diferente da nossa.

Creio que, no plano religioso de um monoteísmo absoluto que é tradicionalmente o nosso, não há outra resposta possível ao mal e ao problema que ele nos coloca. E se Jó pôde percebê-la e formulá-la, foi porque vivia precisamente em pleno monoteísmo, o único sistema a introduzir, na religião, o absoluto. Jamais os grandes mesopotâmios, aqueles colossos de inteligência, poderiam ter ido tão longe; o livro de Jó é um dos cumes do pensamento religioso - poderíamos dizer da metafísica religiosa.

Civilização Babilônica | Cotidiano
Moral e ética na Mesopotâmia

Tinham os mesopotâmios uma moral? Se entendermos por esse termo o conjunto de regras que devem dirigir a atividade livre dos homens, então é claro que tinham uma moral! Ninguém pode viver normalmente sem que sua atividade livre seja orientada para uma certa felicidade, da coletividade ou de cada pessoa. Se bastasse responder sim ou não à pergunta que dá início a este artigo, ela já estaria inteiramente resolvida.

Na realidade, tal interrogação é formulada apenas para propiciar a oportunidade de vislumbrar essa "moral" dos velhos mesopotâmios. Em outras palavras, de nos fazer penetrar um pouco na vida e na maneira de viver desse povo antigo e famoso que, depois de ter inventado, há 6 mil anos, uma alta civilização inteligente, original e poderosa, e de tê-la enriquecido e preservado ao longo de mais de três milênios, desapareceu, nas proximidades de nossa era, depois de ter dominado com toda a sua altivez cultural todo o Oriente Médio, e de tê-lo alimentado tão bem com suas ideias, descobertas e técnicas. Podemos hoje considerá-lo com justiça nosso ancestral cultural discernível mais antigo, já que educou em parte nossos pais: não apenas os israelitas autores da bíblia, mas também os antigos gregos, criadores de nossa mentalidade, de nosso pensamento. Dos dois lados, descendemos dos mesopotâmios, e tudo o que lhes diz respeito nos toca. É por isso que, após abordar seus valores e sua vida moral, ou os princípios de conduta que os dirigiam, não me furtarei a lançar um olhar sobre nós mesmos, para ressaltar nossas semelhanças e sobretudo nossas diferenças em relação a eles, no que diz respeito à "moral".

Não se falava muito no assunto na Mesopotâmia. A palavra nem sequer existe na língua do país, pois, como tudo o que é mais intrínseco à existência, inclusive à nossa, essas regras de conduta são normalmente implícitas, sem que se sinta a necessidade de remeter a elas ou defini-las. Na Mesopotâmia, os documentos escritos que registram mais visivelmente essas normas são o que chamamos de "Códigos", que supostamente enumeram e detalham "leis".

 

As 2800 linhas do Código de Hamurabi

Aqui é preciso esclarecer as coisas. Todo mundo já ouviu falar do famoso Código de Hamurábi, pesada esteia de 2,25 metros de altura que, em cerca de 2.800 linhas e com 282 parágrafos (que chamamos de "artigos"), contém o texto publicado por esse rei da Babilônia por volta de 1750 a.e.c. Em sua descoberta, no início do século XX, ele não apenas despertou espanto e admiração como também foi logo considerado um "Código", um conjunto sistemático de "leis". Desde então, os pontos de vista mudaram bastante.

Em primeiro lugar, encontramos, ao menos em fragmentos, meia dúzia de documentos análogos, dos quais o mais antigo data de por volta de 2100 a.e.c., e o mais recente de 1200 a.e.c. Em seguida, percebeu-se que não se podia tratar de verdadeiros "Códigos", uma vez que não tinham por meta reunir sistematicamente a legislação inteira do país, e que seu conteúdo não era sequer de verdadeiras "leis", isto é, enunciados universais, sancionados pela autoridade legítima, para impor uma conduta social determinada. Na realidade, eram conjuntos, não de "leis", mas de "sentenças", dadas pelo rei ou por um de seus representantes para resolver um problema particular de comportamento público, mas que foram despojadas de todas as notas individualizantes para conservar apenas o essencial de sua significação: de um lado, um problema de conduta, do outro, sua solução.

Se um homem roubou algum bem do templo, será executado

Por acaso, é possível adivinhar, com alguma verossimilhança, como se procedeu para redigi-las. Resta-nos uma carta do próprio Hamurábi na qual, ao dar ordens a altos funcionários, diz-lhes:

Queiram resgatar Sín-ana-Damru-lippalis, o filho de Maninum, que o inimigo aprisionou. Para esse fim, entreguem ao negociante que o trouxe de volta [do estrangeiro] para casa a soma de 80 gramas de prata (cerca de 1.500/1.800 litros de grãos ou 5 ovelhas, preço bastante baixo!), retirados do tesouro do templo da cidade dele, a saber, do templo do deus Sín.

Trata-se, portanto, de um soldado do rei, aprisionado no decorrer de uma campanha, que um negociante itinerante encontrou no país em que ele estava detido, resgatando-o por "10 siclos", soma que o rei quer que lhe reembolsem, retirando-a do tesouro do templo principal da cidade do ex-prisioneiro. Ora, esse caso, com todos os seus detalhes concretos, de simples incidente do cotidiano foi transformado em modelo de conduta pública, sendo inserido, a esse título no "Código" (parágrafo 32):

Se um negociante itinerante resgatou, no estrangeiro, um militar que havia sido aprisionado no decorrer de uma campanha do rei, e trouxe-o de volta para casa, e se na família do dito militar há como pagar seu resgate, ele mesmo o pagará; caso contrário, o valor será retirado do tesouro do templo de sua cidade...

O "Código" é, portanto, um florilégio desses "casos" julgados e das decisões tomadas; e se o autor ali as reuniu e classificou, foi, como ele mesmo o diz, para ensinar a seus sucessores (e aos representantes deles, os juizes) a fazer justiça, a julgar. São de certa forma modelos de julgamentos, e os "Códigos" são uma antologia desses modelos: à custa de relê-los e meditar sobre eles, os juizes deviam e podiam adquirir, de alguma maneira, o senso da justiça tal como ela era concebida no país - um pouco como, ao repetir nossas tabelas de aritmética, adquirimos, insensivelmente, não os princípios, mas o senso da adição, da multiplicação etc.

Desses "modelos de julgamento", assim transformados em princípios de conduta social, trarei agora alguns exemplos, colhidos na obra de Hamurábi:

Se um homem acusar alguém de assassinato sem fornecer provas, o acusador será executado (artigo 1).

Se um homem roubar algum bem do Templo ou do Palácio, será executado. Será igualmente executado quem quer que receba da mão do ladrão o objeto roubado (6). Se a esposa de um homem for surpreendida em flagrante delito de adultério, os dois culpados serão acorrentados e atirados na água. Se, contudo, o marido quiser deixar sua esposa viva, o rei deixará seu cúmplice igualmente vivo (129). Se a esposa de um homem for acusada de adultério por seu marido, sem jamais ter sido surpreendida em flagrante delito, ela prestará juramento de inocência e voltará para casa sem que ninguém a perturbe (131). Se um homem de qualidade esbofetar outro, dar-lhe-á 500 gramas de prata; se se trata de um homem simples: 80 gramas. Se um servidor esbofetear um homem de qualidade, cor-tar-lhe-ão a orelha (202-206). Se um pedreiro construir uma casa para alguém, este último lhe dará, como valor do trabalho, 16 gramas de prata por 36 metros quadrados de construção. Se o pedreiro não garantir a solidez do edifício e a casa desabar, causando a morte de seu proprietário, o pedreiro será executado; se o filho do proprietário da casa morrer, o filho do pedreiro será executado (228-230).

Todas essas "sentenças-modelo" são, portanto, diretrizes de conduta social que visam ao bem comum, ou, o que é a mesma coisa, que tentam evitar comportamentos nocivos ao bem-estar de todos. Elas ensinam a todos, de maneira coerciva, da parte da autoridade do soberano, como se cimportar para a boa ordem da coletividade. Obrigatoriamente, todas apelam para "valores morais", evidentemente reconhecidos no país: o sentimento da justiça devida a qualquer um; a necessidade de confiar em um indivíduo enquanto ele não se houver mostrado culpado; a equidade, que pretende que cada um seja responsável pelo que fez ou deixou de fazer... Entretanto, como elas regulamentam antes de tudo a vida pública, como são oficialmente proclamadas e coercivas (sob pena de castigo), é claro que estáo fundadas em valores morais - e antes de tudo em uma ideia do bem e do mal -, mas representam em primeiro lugar o que chamamos de Direito.

Ora, a Moral, subjacente ao Direito, vai muito mais longe do que ele: cobre tudo o que chamamos de vida privada, aquilo que, em nossa existência, não tem repercussão sobre a comunidade ou incidências graves, que praticamente não têm chances de perturbar a vida coletiva e que, portanto, não são da alçada da autoridade comum, mas apenas do livre-arbítrio de cada indivíduo, que aprendeu seu "dever" não por meio de um enunciado proclamado ou escrito, mas de sua educação e dos exemplos que pôde ver ao seu redor enquanto aprendia a viver. Cada civilização é assim definida e particularizada por um certo número de axiomas que não são necessariamente articulados, mesmo que aconteça de serem lembrados quando necessário, mas que traduzem a ideia comum que se faz do bem de cada um, da conduta de que ele deve resultar: as "coisas que se fazem" "as coisas que não se fazem", em virtude de princípios por vezes obscuros, mas tacitamente ligados às próprias bases da civilização em questão, de sua visão do mundo e de sua escala de valores, remontando à noite dos tempos, e transmitidas a todos os indivíduos através da vida e da cultura. Isso também diz respeito à nossa civilização.

Se em geral fala-se pouco disso, muito menos que das obrigações e proibições do direito, que são de bom grado formuladas nas civilizações desenvolvidas, encontramos, contudo, na Mesopotâmia, entre os textos descobertos, alusões suficientes ao que chamamos de regras da Moral propriamente dita.

 

Cometer faltas é revoltar-se contra os deuses

Em primeiro lugar, mencionam-se, às vezes, essas ou aquelas regras, não positiva, mas negativamente, assinalando-se as infrações a elas: as faltas. Para compreender a importância dessa categoria mental de "falta", de "pecado", aos olhos dos antigos mesopotâmios e em sua vida, é preciso saber que, naquele país, os deuses, considerados os criadores e governantes do mundo, supostamente haviam decidido - como os reis daqui de baixo - e proclamado todas as obrigações e todos os interditos que se impunham aos seus súditos nos domínios da vida e da conduta. Infringir quaisquer dessas vontades e decisões divinas era "revoltar-se" contra os deuses, "desprezá-los" e "cometer uma falta" contra eles: um pecado. Como os soberanos reagiam a tais denegações de sua autoridade castigando os autores, os deuses deviam por si mesmos punir quem quer que cometesse um "pecado", isto é. que não aquiescesse a suas vontades relativas à conduta a ser mantida, em qualquer ordem das coisas: e não havia aí a menor hierarquia, no domínio da ofensa, uma vez que todo pecado, qualquer que fosse sua gravidade intrínseca, constituía por si mesmo uma revolta, e era precisamente essa revolta que merecia o castigo. Matar alguém e infringir uma simples regra litúrgica eram atos que não diferiam nesse plano, uma vez que implicavam antes de tudo um "desprezor em relação aos deuses, uma "revolta" contra eles.

Havia orações e ritos especiais: "exorcismos", muito numerosos, para implorar o perdão dos deuses assim ofendidos e obter relaxamento da pena. Uma dessas liturgias, particularmente longa e solene, enumera, em várias centenas, por meio de uma espécie de confissão geral, as faltas que podem ter sido cometidas pela vítima do mal ou do infortúnio, que pede assim aos deuses o perdão da pena em que incorreu. Composto à maneira de um catálogo, esse documento põe no mesmo nível faltas de diversas categorias, as quais, considerando-se a hipótese contrária (a falta evitada, a não falta), esclarecem o que chamamos de vida reta e honesta, a boa conduta, a conduta moral. Eis ao menos alguns exemplos, extraídos do que chamaríamos mais estritamente de faltas contra a Moral, próprias a incomodar ou perturbar os outros, ou prejudicá-los, ainda que em matéria ligeira e por si sem incidência sobre a ordem pública. A longa lista delas é ainda mais interessante e permite vislumbrar - considerando-se o princípio contrário daquele que as descreve, como já afirmei - certo número de comportamentos e práticas cuja observância era recomendada aos antigos mesopotâmios, e que compunham, em suma, sua "moral", seu "código de boa conduta".

Todas elas se caracterizam pela necessidade de levar em conta os outros, de não causar-lhes prejuízo, mas respeitá-los, auxiliá-los, socorrê-los etc. Assim se destacavam: a Veridicidade (não dizer "sim por não, e não por sim"); a Franqueza (não ter "a boca justa mas o coração falso"; não pretender falsamente não ter aquilo que alguém lhe pede); a Urbanidade (não ameaçar os outros); a Polidez (não importunar os outros falando demais, tagarelando; não dizer ou fazer inconveniências e grosserias; não proferir insanidades em público); o Respeito pelos outros e especialmente pelos mais frágeis ou necessitados (não "espezinhar" uma mulher fraca; não introduzir a cizânia em uma família que se entende bem; não falar ou comportar-se com insolência ou arrogância; não brandir uma arma em plena "Assembleia", reunida para debater questões da cidade); o Auxílio aos outros (não se recusar a libertar um prisioneiro ou a vestir aqueles que estão nus); o Respeito pelos pais (não desprezar seus próximos: pai, mãe, irmãos e irmãs; não se esquecer dos deveres para com eles); a Fidelidade à própria palavra (não fazer promessas que não serão cumpridas); a Honestidade (não comer carne roubada por outros); e assim por diante...

Esses exemplos concretos, com tantos detalhes, permitem que façamos uma ideia geral da Boa Conduta (cortesia, polidez, boas maneiras, a arte de saber viver) tradicional na Mesopotâmia e do tipo de Moral que a comandava: o que aparece, sobretudo, é o que devia ser feito para não prejudicar os outros, o "próximo", como diríamos, mas vir em seu auxílio, ser-lhe caridoso, com generosidade, às vezes até mesmo com certa delicadeza, como quando se recomenda não o ensurdecer "falando demais", de modo a não incomodar.

Encontram-se ainda, aliás, algumas alusões a aspectos diversos da "moralidade". Por exemplo, em um antigo poema (datado de 1700 a.e.c.) que parece tocar no problema (múditos cedo debatido na Mesopotâmia) do porquê do Mal. Quando o deus, implorado, liberta o herói de suas penas, dá a ele esse conselho "moral", de modo a evitar que atraia outras: "No futuro, passe unguento naqueles que têm a pele seca; alimente os famintos; dê água aos que têm sede!"...

Dizendo de outra maneira: mostre-se compassivo e caridoso com aqueles que, ao seu redor, sofrem de privação. E, em uma oração cujo texto conservamos, o rei Assurbanipal (668- 627 a.e.c.), em meio a toda espécie de infortúnios e angústias, protesta sua boa conduta diante do deus a quem se queixa: "Fiz bem a todos, aos deuses e aos homens, aos mortos assim como aos vivos!" - "beneficência" que vai ao encontro da "moralidade" há pouco explicitada.

 

Quanto mais bois você tem, mais tem esterco!

 Um outro documento que deve ser destacado (pouquíssimo conhecido e citado) a respeito do mesmo assunto pode ser encontrado no vasto e labiríntico tesouro da "literatura divinatória". Os antigos mesopotâmios, em virtude de especulações que lhes eram particulares, se haviam persuadido de que os deuses, criadores de tudo aqui embaixo, quando produziam um ser ou acontecimento insólito, inabitual, monstruoso, queriam com isso anunciar um futuro definido, bom ou ruim. Apenas os "adivinhos" profissionais conheciam o "código" que levava do "presságio" anormal ao "oráculo" prometido. E, ao preço de longas e sistemáticas buscas, haviam reunido e classificado milhares desses presságios, tirado de toda ordem de coisas, e o futuro que revelavam.

Um desses "tratados" obtém do comportamento ou do caráter dos homens seus meios de conhecer o futuro. Seguem-se uma ou duas passagens, para mostrar como o sistema se apresentava e funcionava: "Se o interessado não cessa de repetir: 'Quando é que verei (com clareza)?' - ele viverá por muito tempo. Se tem o coração perturbado - ficará alegre.

Se tem o hábito de se lamentar - as coisas não ficarão bem para ele." Encontram-se também inúmeros dados tomados da vida cotidiana: traços de caráter e de boa ou má conduta: Veridicidade e Franqueza ("sim" e "não" se sucedem em sua boca; é franco); Urbanidade (é fiel; espalha alegria; tem um grande coração; é amável; ama o bem); Polidez (é um tagarela inesgotável; escolhe as palavras; domina os lábios; só faz praguejar); Respeito pelos outros (calunia; retribui boas ações; é inconveniente; é escrupuloso); Auxílio aos outros (honra-os e exalta-os; é obsequioso); Respeito pelos pais (ameaça o pai ou a mãe); Bom caráter (é belicoso e provocador)...

Para acrescentar a esse retrato uma nota interessante, é preciso saber que, em geral, nos tratados divinatórios, o presságio e o oráculo têm os valores naturalmente invertidos: o que é bom no presságio promete coisas ruins no oráculo e vice-versa. Aqui, contudo, a um traço de conduta bom ou feliz no presságio frequentemente corresponde um futuro feliz no oráculo. Essa correspondência é sem dúvida um sinal de que se supunha que os deuses viam com bons olhos a boa condu-ta e estavam sempre dispostos a recompensar a observação da moral e o bom caráter.

Se ele é caluniador - morrerá em conseqüência de uma denúncia. Se retribui as boas ações - estará inteiramente no bem-estar. Se é um tagarela inesgotável - não será mãis considerado entre as pessoas de qualidade. Se escolhe as palavras - será honrado.

Quanto ao que faz parte do cotidiano da vida de cada um, regido por certas "regras morais", dispomos ainda, na Mesopotâmia antiga (como, de resto, em toda parte), de uma fonte abundante e capital chamada de Provérbios, que se interessam pelos indivíduos como tais, sem distinção de classe ou de estrato social, pondo-nos, assim, em contato imediato com seu comportamento e sua vida de cada dia e hora. Há, em nosso vasto dossiê, toda uma literatura "gnômica" consagrada a esse gênero a um só tempo mental e literário. Assim, os antigos mesopotâmios haviam compilado vastos alinhamentos de provérbios, em sumério ou em acádio.

As peças reunidas nessas coletâneas são quase sempre difíceis de serem entendidas - é, aliás, geralmente o caso, um pouco em toda parte, dessa "literatura popular", concisa, alusiva, colorida, concebida em um imaginário bastante distante do nosso, e que busca impressionar ou sugerir mais do que explicar. Por outro lado, nem sempre são o que nós entendemos por provérbios: sentenças expressando um conselho ou um modelo de conduta, uma verdade de experiência, úteis para que a eles nos conformemos no decorrer da vida. Alguns parecem mais exercícios de estilo, de bem-dizer; ditos espirituosos; curtos quadros bem detalhados; breves imagens, mais ou menos originais ou tocantes; rápidos realces de traços de caráter, que dissimulam sem dúvida um humor que não é mais, de modo algum, o nosso. Há até mesmo astúcias, enigmas, adivinhações - às vezes com a solução. Por exemplo: "Quando entra, não acrescenta nada à riqueza. Quando sai, nada retira dela. O que é? Um bem que pertence ao rei!" Eis aqui ao menos uma pequena seleção, bastante sugestiva:

"Despose uma mulher ao seu gosto." "Jovem, não é seu irmão que lhe escolherá um esposo." "Uma esposa gastadora em casa é pior do que um demônio morbígeno." "O destino é um cão que nos leva rapidamente atrás de si." "Os pobres são os silenciosos do país." "Diga uma mentira, depois diga a verdade: ela será tomada como mentira." "Aquele que mente sempre parece uma carta que chegou de muito longe." "Quanto mais bois você tem, mais tem esterco!" "Oh burro! Seu pai o reconhecerá? Sua mãe o reconhecerá?" "O pobre homem, se tem pão, não tem sal, e quando tem sal, falta-lhe o pão; se tem carne, não tem condimentos, se tem condimentos, não tem carne..."

"Oh nora, o que você faz com sua sogra farão com você também." "Será que se compram os grunhidos do porco?" "Fora de alcance, é um búfalo indomável, uma vez preso, abana a cauda como um cão." "Por ter causado a morte de um homem (por falso testemunho), o que ganhou o delator?" "De ter picado um homem, que proveito tira o escorpião?" "Enquanto durar a prosperidade que seu deus lhe deu, nada recuse a sua irmã, nada negue a sua família, dê de comer a seus conhecidos: você ganha na mesma proporção!" "Quer você aja, quer não, o resultado depende do deus, seu senhor." "No ano passado, comi alho: neste ano minhas entranhas ardem." "Deitar-se leva a aleitar..."

 

Não compre um asno que zurra, ele lhe romperá os ouvidos

Há, enfim, na literatura mesopotâmica, outro "gênero" lirerário bastante próximo ao dos provérbios, voltado ainda mais para a maneira inteligente e prudente de governar a própria vida, e que, consequentemente, toca mais de perto a 'moral". Trata-se de "Conselhos de um pai a seu filho": a 

saber, admoestações, instruções e advertências supostamente pronunciadas por um pai que, para o bem do filho, quer inculcar-lhe sua própria sabedoria - adquirida por meio de uma longa experiência -, o modo como ele organizou sua vida, bem-sucedida e feliz. Com "Conselhos", continuamos, portanto, em plena "moral".

Note-se que eles compõem um dos mais antigos "gêneros literários" atestados na Mesopotâmia. A primeira versão que conhecemos foi encontrada em meio a um conjunto de tabuletas que formam a mais antiga coletânea de peças literárias conhecida no país, e muito provavelmente no mundo, uma vez que remonta a cerca de 2600 a.e.c.! Restam-nos dela cerca de 130 linhas; mas, considerando as lacunas do texto e o estado ainda imperfeito da escrita da época, elas são bastante difíceis, não apenas de serem lidas, mas de serem compreendidas. O fracasso seria certo se o texto dessa obra não tivesse sido ulteriormente retomado, e até mesmo ampliado, no país, em uma versão ainda suméria, muito mais completa e longa (cerca de trezentas linhas), escrita por volta de 200 a.e.c., e da qual temos um bom número de testemunhos. Ela também foi traduzida para o acádio, mas dessa tradução temos apenas um trecho de mais ou menos trinta linhas: uma miséria!

Eis, em primeiro lugar, o início da versão suméria de "Conselhos": um velho antediluviano, o rei da cidade em que, dizia-se, o Dilúvio em seguida irrompeu, e que leva seu nome, Shurupak, resolve transmitir sua longa experiência ao filho, o futuro herói do Dilúvio, Ziusudra. Este, por sua vez, transmitiria os ensinamentos à nova humanidade pós-diluviana.

Naqueles dias, aqueles dias recuados,/ Naquelas noites, aquelas noites distantes,/ Naqueles anos, aqueles anos arcaicos,/ Naqueles dias, o Inteligente, o Autor de sábias palavras,/ O Conhecedor das palavras verídicas, que vivia em Shumer,/ Shurupak, deu estas instruções a Ziusudra, seu filho:/ "Meu filho, deixe-me dar-lhe minhas instruções, receba-as!/ Deixe-me falar com você, preste atenção!/ Não negligencie meus conselhos!/ Não transgrida minhas palavras!/

As instruções de um homem idoso são preciosas, observe-as!...

Ele lança em seguida admoestações, de fato bastante curtas, em uma ordem cuja lógica quase não percebemos mais. Elas são sempre precisas, incidindo sobre um ponto determinado da vida cotidiana; e a cada vez a justificativa é marcada: a utilidade, o resultado feliz ou a inconveniência que resultaria se fossem ignoradas ou não observadas.

"Não compre um asno que zurra: ele lhe rompe¬á os ouvidos..." "Não seja fiador de ninguém: ele teria poder sobre você." "Não circule ali onde as pessoas querelam: você será tomado como testemunha." "Deixe as querelas se apagarem sozinhas." "Se for casado, não fale sozinho com uma jovem: atenção à calúnia!" "Meu filho, não fique sentado em um quarto com a esposa de outro." "Não coma da comida que foi roubada." "Não se deite com sua servente: ela o chamaria de 'Canalha!'" "Não pronuncie julgamento quando tiver bebido." "Seu irmão mais velho é para você um verdadeiro pai, sua irmã mais velha, uma verdadeira mãe: obedeça a seu irmão mais velho, submeta-se a sua irmã mais velha como à sua mãe." "Quem é casado está bem mobiliado; quem não é dorme em uma meda de palha." "O amor mantém a família; o ódio a destrói."

Eis o texto da série em acádio:

"Controle sua boca, vigie seu discurso: este é o orgulho do homem! Que blasfêmia e maledicência lhe causem abominação: o caluniador é desprezado."

"Não honre em sua casa uma escrava: que ela não tenha autoridade sobre seu quarto de dormir, como uma esposa...: a casa dirigida por uma servente está destinada à ruína." "Não tome por esposa uma prostituta, que tem inúmeros maridos; nem uma hierodula, reservada a um deus; nem uma cortesã com a qual todos deitam incessantemente: se você estiver infeliz, elas não o apoiarão; se você brigar, elas caçoarão de você.

Elas ignoram respeito e submissão." "A cada dia, preste homenagem a seu deus: (...) Se você assegurar a ele diariamente orações, súplicas, prosternações, terá retornos de bens e, apoiado por ele, prosperará em abundância. Pois a reverência aos deuses engendra o favor deles; o sacrifício alonga a vida, e a oração dissolve o castigo pelas faltas..."

Todos esses "conselhos", embora bastante diferentes dos "provérbios" por sua apresentação, não estão tão longe deles. De um lado como de outro, trata-se de uma tradução em máximas, advertências, exemplos, de uma espécie de "código de boa conduta", cuja observação devia assegurar o êxito de cada procedimento, e consequentemente o sucesso da vida inteira, a "Felicidade". Observamos essa "moral" traduzir-se em detalhes, em toda sorte de documentos, preferencialmente de maneira indireta, pela reprovação das infrações cometidas contra ela, e às vezes diretamente, em matéria pública (os "códigos") ou em matéria privada: nas listas de faltas que provocavam o castigo divino ("exorcismos"), ou na evocação que dela podem fazer certos "textos divinatórios"; e, enfim, nos "provérbios" e "conselhos". Mas em parte alguma encontramos uma apresentação sistemática e explícita. E em parte alguma, a não ser tacitamente, encontramo-la motivada e fundada sobre o que era sua última razão de ser: os "princípios" da "moral", a saber, o Bem e o Mal, a Felicidade ou a Infelicidade da vida.

A razão disso, como vimos, está no fato de que essas motivações primeiras da conduta estão profundamente enraizadas na "consciência", demasiado importantes, universais e evidentes aos olhos de cada um, ao mesmo tempo que demasiado visceralmente inculcadas desde a infância, pela educação e pelo espetáculo da vida, para que se tenha considerado útil ou até mesmo fácil explicitá-las, justificá-las e apelar para elas todo o tempo.

Se pensarmos minimamente no assunto, ainda é assim em nosso caso. E se refletirmos, exceção feita a um contexto caduco e obsoleto em seus detalhes e em seu sistema, sobre o conjunto desses conselhos, recomendações, proibições, estí¬mulos e exemplos, ele nos parece ainda familiar, não tão dis¬tante do nosso próprio "código de moral prática". A "moral", para organizar a vida de cada um a fim de evitar-lhe o fracas¬so e o mal, e de fazê-lo ter acesso ao bem, à "felicidade", é, quanto ao essencial, comum a todos os homens porque seu bem e seu mal provêm da própria natureza deles, e valem, portanto, de maneira aproximadamente igual para todos. Não incomodar ninguém; não prejudicar ninguém; não se expor a riscos, perigos, incertezas; ser prestativo e boa companhia; ser honesto e de frequentação fácil etc., não está nisso também nossa própria "moral", como a de todos os homens? Dizendo de outra maneira, a "moral" dos antigos mesopotâmios nos é sempre mais ou menos familiar.

Evidentemente nem sob todos os aspectos, pois por um longo decurso de tempo puderam intervir, sob diversas pressões, mudanças de ideologia que inflectiram de tal maneira sobre esse ou aquele artigo dessa "moral" antiga que não os sentimos mais da mesma forma. O que, à exceção de alguns dados secundários, torna nosso "código moral" diferente do deles, a despeito do ar familiar, são duas ou três ideias novas introduzidas por nossa tradição cultural.

 

Faça a felicidade de sua mulher, abraçada a você

Evoquemos, em primeiro lugar, a associação estrita - que nos foi ensinada pela bíblia - entre "moral" e religião. Uma das maiores transformações introduzidas por Moisés com o "monoteísmo" reside na total mudança de orientação e de sentido do culto, da prática religiosa. Desde o "Decálogo", não nos desobrigamos mais de nossos deveres para com o Divino por meio de "sacrifícios", "oferendas" e cerimônias, mas antes de tudo pela conduta reta de nossa vida. A "moral" foi quando menos integrada ao culto, se não identificada a ele. O culto tornou-se a prática da "moral", da boa conduta, ao passo que essas nada tinham a ver com os deuses entre os mesopotâmios: se alguém se comportava bem, não era para proveito deles, mas para evitar os aborrecimentos provocados pelo fato de cometer "pecados", que logo eram castigados; não se tratava de culto, mas de precaução, de prudência. Por isso, a despeito das inúmeras semelhanças, a "moral" não tem mais, entre nós, a mesma ressonância que tinha entre eles, e, quanto a esse aspecto, as transformações foram consideráveis.

Por outro lado, devido a nossa hereditariedade cristã, não temos mais absolutamente a mesma atitude intrínseca em relação a Deus. Na Mesopotâmia, o sentimento religioso essencial era do tipo centrífugo: o temor, o recuo, o distanciamento respeitoso. Ensinaram-nos, ao contrário, que "o Bom Deus", como dizemos, era sobretudo digno de admiração, de entusiasmo, de atração, de amor. Por isso, nossa moral, em relação à deles, se viu totalmente reorientada: tornou-se o único meio, essencial, de demonstrar a Deus nosso apego, nossa fidelidade, nosso amor. Ela pode, portanto - o que era impensável na Mesopotâmia -, resultar em uma atitude teocêntrica e até mesmo mística.

Enfim, conforme aprendemos com o cristianismo, a morte não é mais, como era para eles, o fim absoluto da vida, e temos a esperança de um além no qual as dívidas da terra podem ser pagas. A "moral", aos nossos olhos, não se esgotaria, pois, na existência presente, mas continuaria em outra vida, o que muda seu valor e sentido. Não vendo mais longe, os mesopotâmios voltavam-se inevitavelmente para o "hedonismo", a busca de todos os prazeres acessíveis no curto espaço da vida, para obter o máximo possível de satisfação e felicidade antes de desaparecer para sempre. Nós, ao contrário, não podemos nos contentar com os conselhos que a misteriosa Taberneira dava a Gilgamesh para desencorajá-lo de correr atrás de uma vida sem fim:

Sem buscar em vão a imortalidade,/ Encha sua pança,/ Permaneça alegre dia e noite,/ Vista-se com belas roupas,/ Lave e banhe seu corpo,/ Olhe ternamente seu pequeno, que lhe segura a mão,/ E faça a felicidade de sua mulher, abraçada a você,/ Pois essa é a única perspectiva dos homens!

Não digo que essa prodigiosa reviravolta da "moral" e do sentido da vida tenha sido recebida por todos os distantes herdeiros dos antigos mesopotâmios: em nosso mundo atual, a vida da maioria certamente não é afetada pela religião, e sua "moral" não passa de uma rotina. Mas uma "moral" tão transformada, sobretudo por dentro, está a nosso alcance. É preciso dizer, por isso, que embora restem em nossa conduta e "moralidade", inúmeros reflexos mais ou menos idênticos aos deles, nossa moral não é mais, de modo algum, a deles.

Civilização Suméria - Família
Amor e sexo na Suméria e Babilônia

Seria bastante surpreendente se, nessa gigantesca confusão, esquadrinhada há mais de um século pelos assiriólogos, não encontrássemos, entre outros tesouros, material que nos permitisse ter uma ideia da vida sexual e amorosa dos antiquíssimos habitantes do país onde nasceu, na virada do quarto para o terceiro milênio antes de nossa era, a primeira grande civilização verdadeiramente digna desse nome, complexa e refinada em todos os domínios da existência.

Civilização Suméria - Religião
O país sem retorno dos mortos

A morte é um tema fúnebre e triste por si só. Contudo, se refletirmos bem, é inofensiva enquanto apenas falarmos dela - um pouco como assistir a uma catástrofe da qual não somos vítimas; tem algo de reconfortante, se não de involuntariamente agradável, para nos expressarmos com um certo cinismo. A morte, dizia um de meus velhos amigos, é algo que acontece com os outros. Esses outros, por ora, são os veneráveis habitantes da Mesopotâmia, os criadores, há seis milênios, de uma alta civilização refinada, complicada, original e inteligente; e também os inventores, há 5 mil anos, do primeiro sistema de escrita: uma escrita extraordinariamente complicada, mas que lhes permitiu fixar lembranças e muitos detalhes de sua vida, além de pensamentos e vários aspectos de sua visão das coisas, relativos aos cerca de trinta séculos de duração de sua história - até as proximidades de nossa era. Graças a isso, e por termos achado em seu território, na época atual, cerca de meio milhão daquelas plaquetas de argila sobre as quais escreviam, podemos consultar esses arcaicos "documentos" e neles reencontrar as ideias e a expressão dos sentimentos de nossos ancestrais identificáveis mais antigos.

Civilização Suméria - Religião
Sacerdotes e sacerdotisas sumérios
Civilização Suméria - Religião
Dias sagrados e festivais na suméria
Civilização Suméria - Artes
Arte e arquitetura de Ur III
Os gêneros literários são muito variados: coleções de provérbios e de fabulas, hinos aos deuses e aos reis, lamentações sobre as cidades destruídas. Pode supor-se que, se tantos textos são então registrados é porque a tradição religiosa perde forma e vigor. Ao mesmo tempo, o sumério, que sofre a influencia do acadiano, tende a tornar-se a língua de cultura: as longas listas lexicográficas, algumas das quais remontam à época de Uruk ver-se-ão em breve duplicadas com a sua tradução acadiana. O
Civilização Suméria - Economia
Economia de Ur III
No domínio da industria e do artesanato, o Estado tende a reagrupar e organizar a produção em oficinas e fabricas. Os setores mais conhecidos são os da metalurgia e da tecelagem. O bronze é produto corrente, o ferro continua a ser raro. A prata serve de moeda corrente desde há muito tempo, embora a cevada continue a ser o padrão de referencia. O ouro, é reservado aos trabalhos de ourivesaria. Desde a sua fundição até ao acabamento, o metal é trabalhado em oficinas especializadas. A mão-de-obra
Civilização Suméria - Administração
Organização do Imperio de Ur III
As competências dos governadores estendem-se até a manutenção do pessoal subalterno. Este, muito numeroso e variado, exerce no seu conjunto funções de vigilância. As suas relações com o governador são difíceis de apreciar. É igualmente difícil fazer-se uma idéia da hierarquia administrativa: alguns títulos correspondem de fato a atividades temporárias ou ocasionais e a polivalência das funções parece ser pratica corrente. As pequenas aglomerações são dirigidas por um hazannum, uma espécie de
Civilização Suméria - Artes
Arte e arquitetura Acadiana
A literatura suméria continua a ser a mais rica; atribui-se à própria filha de Sargão, Enheduana, uma intensa atividade literária nesta língua. Deve-se-lhe a celebre Exaltação de Inanna e, mas tal fato é muito menos seguro, a compilação de uma coleção de hinos para os templos. Um texto religioso de Nippur é um testemunho particularmente eloqüente do florescimento de escritos mitológicos, mas está infelizmente muito deteriorado. Possuímos, além disso, encantações em Acadiano e em sumério. Por fim
Civilização Suméria - Economia
Economia Acadiana
Os bens da coroa não se reduzem aos despojos acumulados; o rei é também um grande proprietário fundiário e compra grandes extensões de terras, quando elas não são diretamente atribuídas pelo direito de conquista. A inscrição do Obelisco de Manishtusu é um exemplo eloqüente disso mesmo: por cerca de 150 kg de prata - sem contar com os presentes e outras liberalidades - o soberano fez a aquisição de vários domínios cuja superfície total se eleva a mais de 300 ha. Ao mesmo tempo, os reis de Acádia
Civilização Suméria - Administração
Organização do Império Acadiano
As conquistas levam a uma imensa concentração de riquezas muito mais que, a constituição de um Estado poderosamente organizado e estruturado. De uma maneira geral, o império apresenta-se como um grande conjunto heterogêneo que o rei se esforça por administrar com flexibilidade; cada soberano tem de reconquistá-lo quando da sua subida ao trono. O Estado Acadiano é um império em perpétuo devir. Nas regiões possuidoras de um passado histórico já importante, os reis mantém em vigor as estruturas
Civilização Suméria - Economia
Economia e sociedade na suméria
Através das fontes, textos oficiais, contratos de cessão de bens imobiliários, textos administrativos e econômicos, transparece a imagens de um sistema socioeconômico dominado pelo confronto entre duas concepções antinômicas das relações sociais de produção. Em resumo, assiste-se, ao longo do segundo terço do III milênio - e provavelmente já há muito tempo -, ao abandono progressivo de uma economia domestica de auto-subsistência, em que a circulação dos bens, encerrados num tecido de laços muito
Civilização Suméria - Introdução
Proto-História na Mesopotâmia
Na Mesopotâmia, a história destas comunidades é ainda demasiado pouco conhecida para que seja possível traçar um quadro de conjunto. Os nossos conhecimentos neste domínio estão totalmente dependentes das escavações arqueológicas que ainda se encontram nos seus inícios, no que se refere a estas épocas altas. Demasiado raras, reduzidas com freqüência a simples sondagens, carecendo de meios, elas ainda só clarificam alguns momentos, importantes sem dúvida, da ponto-história. A cronologia é
Civilização Suméria - Introdução
Estudo da Mesopotâmia
Só no inicio do século XIX foram empreendidos trabalhos de envergadura. G.F. Grotefend, na seqüência de uma aposta, interpreta com êxito um epitáfio real aquemênida cuja copia, trazida por um viajante holandês um século antes, possui. Foi assim dado o primeiro passo para a decifração das escrituras cuneiformes. Em 1802, publica um alfabeto persa antigo ao qual E. Burnouf e Chr. Lassen acrescentarão às ultimas retificações em 1836 Entretanto, em 1843, H.C. Rawlinson, cônsul geral britânico em
Civilização Suméria - Introdução
Os habitantes da Mesopotâmia
A unidade de habitação, quadro habitual da vida na Mesopotâmia antiga, é a cidade. O florescimento urbano é marcado pelas fundações de cidades de que os textos se fazem eco: Uruk, Acadia, Shubat-enlil, Kalá são exemplos ilustres entre tantos outros. Cada soberano faz questão em dar o seu nome à uma cidade: Dur-Kurigalzu, Kar-Tukulti-minurta, Dur-Sharrukin. O Estado mesopotâmico é, primeiro que tudo, uma cidade, a qual o príncipe está ligado por estreitos laços; é igualmente uma dinastia
Civilização Suméria - Geografia
Localização geográfica da Mesopotâmia
Mais a Sul, a, região dos grandes pântanos é um autêntico mar de caniços rico em caça e em peixe. É o refúgio dos fugitivos e dos proscritos. Julgou-se durante muito tempo que, na Antiguidade, as costas do golfo deviam encontrar-se mais a Norte do que se encontram nos nossos dias e que, conseqüentemente, as grandes cidades sumérias se situavam à beira do mar. Mas os trabalhos dos geólogos ingleses G.M. Lees e N.R Falcon tendem a fazer admitir uma formação muito mais antiga da região baixa. As
Pré-História - Economia
Economia Pré-histórica
As informações que o pré-historiador possui sobre as técnicas de aquisição dos homens do Paleolítico são truncadas e com bastante freqüência ambíguas, particularmente no que se refere ao Paleolítico Antigo. Possuímos, pelas ossadas abandonadas nos habitats, a lista dos animais caçados, sem que tenhamos documentos muito claros sobre as técnicas que permitiram capturá-los ou abatê-los e, por outro lado, sempre através de vestígios ósseos, pode reconstituir-se o consumo de carne, ao passo que a
Pré-História - Ciências
Técnicas na Pré, Proto-História
Certos locais do Paleolítico Antigo forneceram grandes quantidades de ossos fraturados para fins primordialmente alimentares. Perante o caráter estereotipado dos fragmentos, foi formulada a hipótese de uma verdadeira utensilagem de osso. Tais vestígios não apresentam em geral nenhum vestígio de arranjo para uma finalidade técnica objetiva e não se diferenciam dos resíduos alimentares informes do Paleolitico Superior em que o osso serviu realmente de materia-prima para objetos trabalhados
Pré-História - Introdução
Os Impérios despóticos do Bronze
A própria natureza da documentação reflete pois, no Egito, a constituição de um poder de larguíssimo domínio territorial (da primeira catarata ao Mediterrâneo) por agrupamentos sucessivos: nomos, reinos do Norte e do Sul, Egito unificado, em suma. Se não está totalmente excluído que alguns agrupamentos se tenham feito pacificamente, sabe-se que a unificação de onde nasce o Egito dinástico é o resultado da guerra entre o Norte e o Sul e da vitória do Sul, exaltada já pelas paletas ou clavas de
Civilização Suméria - Religião
Piedade pessoal suméria
Civilização Suméria - Religião
Adivinhação, exorcismo e a cura de doenças na suméria
Civilização Suméria - Religião
Religião Suméria
O universo era concebido como um domínio dos deuses. Esses se agrupavam em um vasto panteão que, no III milênio a.e.c., já. contava centenas de habitantes devidamente catalogados. Existia, naturalmente, uma hierarquia divina cujo lugar supremo foi ocupado primeiramente por An, que possuía seu principal santuário em Uruk. Aos poucos, as poderes de An foram passando para Enlil que se tornou a mais importante divindade sumeriana, ocupando lugar de destaque no culto e nos mitos. Mitos e hinos mais r
Civilização Suméria - Religião
Deuses padroeiros sumérios
Civilização Suméria - Religião
Reis e deuses: o casamento perfeito na suméria
Civilização Suméria - Religião
Templos sumérios
Civilização Suméria - Artes
O legado cultural dos sumérios
Os sumérios talvez sejam mais lembrados devido às suas muitas invenções. Muitas autoridades lhes dão crédito pelas invenções da roda e do torno de oleiro. Seu sistema de escrita cuneiforme foi o primeiro sistema de escrita de que se tem evidência, pré-datando os hieróglifos egípcios em pelo menos 75 anos. Os sumérios estavam entre os primeiros astrônomos, possuindo a primeira visão heliocêntrica de que se tem conhecimento (a próxima apareceria por volta de 1.500 a.C. por parte dos Vedas na Índia
Civilização Suméria - Cotidiano
O surgimento da escrita na Mesopotâmia
A atividade literária dos sumérios foi enorme. Atestam-no as milhares de tabuinhas desenterradas e, apenas em parte, traduzidas pelos sumeriólogos. A arte de escrever era intensamente ensinada na Suméria onde, principalmente a partir da segunda metade do III milênio a.e.c. existia um sistema escolar freqüentado por milhares de escribas. “Havia escribas subalternos e escribas de elevada categoria, escribas ligados ao serviço do rei e escribas a serviço dos templos, escribas especializados em tal
Civilização Suméria - Direito
O Direito na Suméria
As leis penais dos sumérios foram as mais clementes da Mesopotâmia antiga. No Código do Ur-Nammu encontramos a substituição da lei do talião por dispositivos mais humanos, que aplicavam multas em vez do penas corporais. Igualmente o Código do Eshnunna apresenta-nos um sistema de penas baseado sobretudo no principio da indenização legal, isto é, o autor de uma infração deveria indenizar a vítima ou seus substitutos legais. A taxa de composição legal é avaliada em função da infração cometida e do
Civilização Suméria - Ciências
A Ciência na Suméria
Uma curiosa tabuinha de argila, encontrada nas ruínas do Nippur, pode ser considerada o mais antigo manual de medicina conhecido. Esse “manual”, redigido em termos tão especializados que sua tradução exigira colaboração de um sumeriólogo e de um químico, contém preciosas indicações sobre os remédios receitados pelos médicos sumerianos. Na preparação de drogas medicinais a farmácia sumeriana usava substâncias vegetais, animais e minerais. Entre as substâncias minerais empregadas podemos citar o
Civilização Suméria - Artes
A Arte da Suméria
Para compreendermos a importância do estudo das artes dos sumérios, basta lembrar que as mesmas se encontram na base da ante do toda a Ásia Ocidental antiga. A religião foi, entre os sumérios, como entre os egípcios, a grande inspiradora das artes. Esta influência se traduziu especialmente na construção dos templos. “Convém que o deus possa habitar com seu povo, que possa permanecer para ter o tempo de manifestar-se em todo o sentido do termo. Para facilitar este acesso à terra, tudo foi
Civilização Suméria - Economia
A Economia Suméria
O comércio local se fazia no mercado da cidade. Cereais, frutas, animais, peixes secos, bebidas (vinhos e licores), tecidos e mil e um objetos de uso diário estavam entre as mercadorias apresentadas. A insegurança dos caminhos exigia que, para o comércio com as regiões distantes, como os vales do Nilo ou do Indus, os comerciantes se organizassem em caravanas. “A caravana de passo igual, tranqüilo, indiferente às rotas, a qual as pistas e os caminhos mesmo incômodos são suficientes! Os camelos
Civilização Suméria - Cotidiano
A sociedade suméria
Acima das classes sociais da Suméria estava o rei ou o governador da cidade. O rei era considerado “vigário” da divindade, isto é, intermediário entre o deus-rei e a humanidade: era chefe político e religioso ao mesmo tempo. A idéia de que o rei é o deus encarnado introduziu-se mais tarde, talvez por influência egípcia. Patesi (= servidor) era o titulo dado antigamente aos chefes locais; lugal era o título reservado aos reis propriamente ditos. Posteriormente esses dois termos foram empregados
Civilização Suméria - Introdução
A Origem da Civilização Suméria
Ao chegar à Mesopotâmia, os sumérios encontraram provavelmente a cultura Uruk indígena, que influenciou o seu desenvolvimento. No entanto, enquanto a cultura Uruk se difundiu por toda a Mesopotâmia, a cultura suméria se restringiu à Mesopotâmia meridional durante todo o período Jemdat Nasr, e por muito tempo depois. É provável que a liderança organizacional dos sumérios tenha sido a força motriz que transformou as vilas neolíticas existentes em cidades-estado, enquanto a cultura religiosa e
Civilização Suméria - Geografia
Geografia suméria
Civilização Suméria - Fontes
Fontes sumérias
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ULTIMAS ATUALIZAÇOES
História
O príncipe esquecido
Um personagem que foi importante como forte candidato no apagar das luzes do Império, hoje está quase totalmente esquecido, não fosse o notável livro de Mary Del Priore O príncipe maldito (ed. Objetiva, 2006). Era o belo jovem príncipe D. Pedro Augusto de Saxe Coburgo, neto de D. Pedro II e filho de sua segunda filha, d. Leopoldina, casada com o príncipe Augusto (Gusty) Saxe Coburgo. No entanto, o título de “príncipe maldito” parece impróprio, já que ele nada fez que provocasse maldição, nem maldades.
Psicologia
Aspectos históricos da neuropsicologia e o problema mente-cérebro
No lado diametralmente oposto do espectro de posições sobre a relação mente-cérebro, encontra-se o eliminativismo ou materialismo eliminativo. Uma das princi­pais teses do eliminativismo é a de que a folk psychology (psicologia popular) trabalha com categorizações falsas, terminologias herdadas de um passado remoto que pre­cisam ser eliminadas para um progresso da compreensão da relação cérebro-mente. As­sim como a teoria do phlogiston foi supera­ da cientificamente e tornada obsoleta pelas pesquisas empíricas em oxidação, também muitas classes de supostos estados mentais seriam apenas ilusões. Ainda que permane­çam em nosso vocabulário explicativo, esses entia non-gratia não possuiriam qualquer capacidade causal, nem sequer existiriam, tal como bruxas, almas, elán vital, etc. Entre as entidades mentais que essa linha de pen­samento pretende eliminar, encontram-se, por exemplo, atitudes preposicionais: rela­ções entre conteúdos proposicionais e uma determinada postura mental com implica­ções práticas (p. ex., acreditar, desejar, espe­rar) (P. M. Churchland, 1981; P. S. Churchland, 1986). Também foi proposto por eliminativistas (Dennett, 1992) que a no­ção de qualia (sensações e experiências co­mo estados subjetivos qualitativos) poderia ter um caráter ilusório e não ter a existência que lhes é atribuída na psicologia popular.
Psicologia
O lugar do ser humano na natureza e na evolução
O modo tradicional de concluir os livros sobre a evolução humana é discorrer sobre as maneiras nas quais nosso passado evolucionário é impor­tante para a compreensão do mundo atual. Isso não é tão difícil se o livro for como o African Genesis, de Ardrey, cujo tema - a evolução de um macaco assassino para um humano assassino - tornava fácil a defesa da ideia de que é importante entender o aspecto violento da natureza humana. No caso de muitos dos livros de antropologia mais tradicionais, essa argumentação seria impossível, uma vez que eles, com frequência, afirmam que o principal padrão verificado na evolução humana é o de que os humanos vêm gradualmente se libertando do jugo da seleção natural, e que os efeitos do meio ambiente sobre eles vêm se reduzindo. Se os humanos moldam sua evolução mais que a evolução molda os humanos, o papel do passado teria algum interesse mas pouca importância.
História
Guerras Púnicas
As Guerras Púnicas marcaram um período crucial na história de Roma, quando passou de potência puramente italiana, em 265, a força dominante no Mediterrâneo, em 146, um processo que a História de Polibio tem como propósito explicar. Nesta altura, estavam já criadas seis províncias ultramarinas: Sicília, Sardenha e Córsega, Hispânia Citerior, Hispânia Ulterior, África e Macedônia. A exceção desta última, todas foram adquiridas através do conflito com Cartago. Em finais do século, foram criadas
Antropologia
Evolução humana: Por que a África?
A evolução é sempre associada ao tempo. Afinal, a evolução é um processo que ocorre ao longo do tempo, e são os extraordinariamente longos períodos de tempo em questão que despertam nossa imaginação. Dinossauros que existiram por cem milhões de anos ou hominídeos que evoluíram ao longo de sete milhões de anos, são essas as coisas que tornam a evolução diferente dos demais ramos da ciência ou da vida cotidiana. A pergunta sobre se haveria períodos de tempo geológico mais interessantes que outros ocorre com facilidade.