Pré, Proto-História (246mil a.e.c.)
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Idade Média (476 - 1453 d.e.c.)
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Mesopotâmia a Invenção da Cidade -  | 2003 |
História da Antiguidade Oriental -  | 1969 |
Dos Sumérios a Babel - A Mesopotâmia - Historia, Civilizaçao, Cultura | 2003 |
No começo eram os deuses -  | 2011 |
Batalhas na Bíblia - 1400 A.C - 73 D.C | 2010 |
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Civilização Asteca | Religião
A eternidade da alma Asteca

Existem várias interpretações, segundo a escatologia asteca. Para Alfredo López Austin, a geografia do mundo asteca está dividida em três planos - subterrâneo, terreno e celestial -, todos ligados pela árvore cósmica de Tamoanchán, chamada Xochtlicacín (De Onde Brotam as Flores). O plano subterrâneo, onde estão fincadas as raízes da árvore, se chama Chicnauhmictlín (O Nono Lugar do Inframundo). O plano terrestre, ocupado pelo tronco da árvore, se chama, por sua vez, Tlalticpac (A Superfície da Terra), e se compõe de quatro planos. E, finalmente, onde estão esparramados os galhos mais altos, situa-se o Chicnauhtopin (Os Nove Lugares Celestiais). No começo dos tempos, por dentro do tronco, fluíam as energias do céu e do inframundo, enroscadas, mas não misturadas. Com o pecado dos deuses, entretanto, rompeu-se o tronco e as duas seivas, superior e inferior ou "quente e fria”, segundo a terminologia mítica -, misturaram-se, dando origem ao caos mortífero da vida terrena.

Civilização Asteca | Religião
Os céus e os submundos astecas

Diz a lenda que ele se originou de parte do monstro Cipactli, um crocodilo gigante que foi esquartejado pelos deuses. Parte dele se converteu na Terra e parte no céu, que foi erguido por quatro deuses ou gigantes e sustentado por pilares, a fim de não tornar a se juntar à Terra. Cipactli foi homenageado no calendário mágico (tonalpohualli) como o primeiro dos vinte signos do "zodíaco" asteca. 
Mas que forma passou a possuir a Terra após essa gênese violenta? Jean Marcilly diz que, para os astecas, a Terra é um disco chato, cruzado pelos pontos cardeais, sendo o ponto de confluência de duas pirâmides, cujos vértices principais se tocam. A pirâmide de cima são os céus; a de baixo, os inframundos. A de cima recebe as horas do dia; a de baixo, as horas da noite.
Ao redor do Tlalticpac (Terra) está um rio chamado Chicunauhapín ("A Corrente dos Nove")

Civilização Asteca | Religião
Os paraísos astecas

Existem duas cosmografias míticas no universo asteca. A primeira é a horizontal delimitada pelos cinco pontos cardeais (o centro também é considerado um deles). Cada qual está associado a um deus e também a uma infinidade e outros atributos, impossíveis de serem enumerados aqui, tal a sua quantidade e complexidade. Em se tratando de mitologia asteca, não existem verdade firmadas, mas interpretações diversas e apenas aproximativas. A representação dos pontos cardeiais em forma de cruz, recorrente na iconografia asteca, era um dos conceitos fundamentais do misticismo ameríndio pré-colombiano. Cada um dos quadrantes possuía a sua simbologia própria:

Civilização Asteca | Religião
O Xamã asteca

No antigo México, o xamã era considerado um membro altamente respeitado da comunidade e desempenhava uma função vital como intermediário entre o mundo espiritual e o mundo natural. Os xamãs não escolhiam esta carreira - ou já nasciam xamãs, ou eram chamados através de sonhos e visões. Uma parte importante das crenças astecas era a interligação entre todas as coisas – vivas e mortas - e o papel do xamã consistia em trabalhar com a energia do mundo para lá da percepção quotidiana. A pulque, uma bebida alcoólica feita a partir da piteira, era muito usada nas cerimônias pois tinha um efeito alucinógeno como peyote e datura (outras variedades de catos mexicanos). As máscaras, os cânticos, os tambores, as matracas e outros instrumentos também eram usados para ajudar o xamã a atingir um estado de consciência alterado. Atualmente, as práticas dos xamãs na tradição cultural antiga invocam os mitos e as divindades do passado. Podem prescrever ervas medicinais, encontrar almas perdidas, ler o futuro ou proceder a purificações numa casa ou num indivíduo que tenha sido enfeitiçado.

Civilização Asteca | Ciências
A pedra calendário Asteca

Os Astecas davam grande importância ao estudo da matemática e da astronomia e desenvolveram complexos sistemas de contagem do tempo. O conceito de tempo que tinham era mais cíclico que linear e era dependente e controlado por forças divinas. Os Astecas dispunham de dois calendários concomitantes: um de 260 dias movendo-se no sentido dos ponteiros do relógio (coincidindo com o tempo de gestação humana), e um de 365 dias movendo-se em sentido contrário. Construído no século xv, a famosa Pedra do Calendário (também conhecida como Pedra do Sol) foi descoberta em 1790 na capital asteca de Tenochtitlan, hoje Cidade do México. A pedra mede 3,5 m de diâmetro, pesa 25,5 toneladas e é ricamente esculpida em basalto. No centro da Pedra do Calendário reconhece-se a face do deus do Sol Tonatiuh. Criador do Quinto Sol. Os quatro quadrados que o rodeiam representam as quatro eras anteriores (ou «sóis») que foram destruídas por animais, vento, fogo e água. Na orla e da pedra estão duas serpentes sagradas, que simbolizam a natureza cíclica e em espiral da dança da vida.

Civilização Asteca | Religião
O universo tripartido Asteca

No centro do universo asteca - o local de encontro do Céu, Terra e Sudmundo - era a cidade capital de Tenochtitlan. Segundo a lenda, o povo local era conhecido por Tenochca, mas o deus da guerra Huitzilopochtli deu-lhes um novo nome, Mexica, e ordenou-lhes que construíssem a capital numa ilha no meio do Lago Texcoco. No coração da cidade erguia-se o magnífico Grande Templo, dedicado a Huitzilopochtli e o deus asteca da chuva, chamado Tlaloc.

Civilização Asteca | Religião
A Religião Asteca após a conquista espanhola

Nos anos seguintes a 1521, a conversão dos povos nativos da Mesoamerica continuou, mas era mais aparente que real. Registros de 1536 a 1540 revelaram que tais costumes pre-colombianos como a concubinagem, idolatria e sacrifício humano ainda eram praticados. Em 1565, os bispos espanhóis da Cidade do Mexico reclamavam da facilidade com que os nativos se revertiam para os rituais pre-conquista, escondendo ídolos atrás de altares em igrejas recem-construidas, fazendo uso de alucinógenos e invocando o simbolismo das cores antigas. Os padres franciscanos tomaram Tezcatlipoca não apenas como a divindade asteca principal, mas também como Lucifer cuja influência maligna era vista entre os povos indígenas.

Civilização Asteca | Força Militar
A guerra Asteca

A antiga milícia mexicana era diferente em vários aspectos fundamentais dos seus equivalentes europeus. Os astecas, como os seus contemporaneos na Mesoamerica, não fomentavam a guerra para conquistar e integrar território, ou converter os derrotados para sua própria religião. Sua motivação era derrotar os inimigos para poder cobrar impostos deles e capturar prisioneiros para rituais de sacrifício aos deuses. Administrar as áreas conquistadas era caro e pouco prático, por isso os astecas governavam indiretamente por meio de chefes locais e alianças políticas por casamento. A recompensa dessa abordagem era a fabulosa riqueza que jorrava em Tenochtitlan. A matança em campo de batalha e a destruição da terra eram "autoderrotantes" para esse fim. Porem, havia exceções. A morte na guerra era frequente e as cidades, as vezes, eram destruídas e sua população dizimada para servir de aviso as outras.

Civilização Asteca | Família
A Família Asteca

O nascimento de uma criança era uma ocasião de alegria e perigo, ambos físicos e espirituais. Os bebes eram trazidos a luz por parteiras profissionais que rezavam para Chalchiuhtlicue, a deusa da fertilidade e da maternidade. Se o bebe fosse menino, o cordão umbilical era dado aos guerreiros para ser enterrado em campos de batalha; se fosse menina, era colocado embaixo de uma lareira, simbolizando suas futuras tarefas domesticas. O nome de um bebe recém-nascido era escolhido após uma consulta dos pais aos sacerdotes que determinavam as influencias sobrenaturais associadas com o tempo e com a data de nascimento. Se a data de nascimento fosse julgada de sorte, o bebe era nomeado no dia seguinte; se agourenta, uma data mais propícia era escolhida. Logo após o nascimento eram presenteados com miniaturas de sua futura vida adulta. Alguns meninos eram presenteados com o escudo de um guerreiro, outros com ferramentas de ourives, enquanto as meninas ganhavam uma vassoura ou uma roca cheia de malha de algodão. Meninos e meninas eram bem-vindos igualmente nas famílias astecas e descritos carinhosamente como "colares preciosos" ou "belas penas".

Civilização Asteca | Cotidiano
A Sociedade Asteca

A sociedade asteca estava baseada e caracterizada nos direitos, privilegios, costumes e emblemas de cada classe. No topo estava o imperador sagrado, conhecido como Huey Tlatoani, ou Primeiro Orador. Como era a pessoa mais importante da sociedade asteca, ele governava como representação divina de Tezcatlipoca. Em vestimentas tipicamente astecas, a posição do imperador não era herdada, mas sim obtida por meio da eleição com um conselho de nobres, os homens mais aptos da família real. Uma vez escolhido, cada novo imperador passava por uma longa serie de rituais que incluíam a Guerra da Coroação, para provar suas habilidades militares. O Codex Florentino descreve esses eventos, especialmente o imperador realizando rituais de discursos para Tezcatlipoca nos quais ele pedia força e liderança. Uma vez coroado, o novo imperador era carregado em um trono de jaguares e águias onde tinha seu corpo perfurado com uma presa de jaguar em uma oferta de sangue que o ligava eternamente aos deuses.

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Arte hebraica
Civilização Hebráica - Idade Antiga - Antiguidade Oriental
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Restringir-nos-emos apenas às realizações arquitetônicas dos hebreus. Os hebreus construíram palácios suntuosíssimos, como os do Salomão e Herodes, e possantes fortificações como, por exemplo, as muralhas do Jerusalém.

Mas a grande obra arquitetônica de Israel foi o templo de Jerusalém, ponto em que se concentrou o pensamento religioso dos judeus durante muitos séculos. Construído primeiramente por Salomão, destruído por Nabucodonosor, reconstruído após o exílio da Babilônia sem os esplendores da construção salomônica, atingiu o máximo da magnificência sob Herodes, o Grande, que não poupou esforços para captar a confiança e a simpatia de Seus súditos judeus.

Vamos estudar essa obra famosa em suas diversas fases.

Davi acumulara matéria-prima e tesouros (1 Paralipômenos, 22,3,4 e 14) para a construção do templo. Salomão realizou-a. A construção iniciada talvez no ano 959 a.e.c durou mais de sete anos. Hiram da Fenícia forneceu não somente madeira (cedros e ciprestes) mas trabalhadores especializados como canteiros o carpinteiros.

O local escolhido para a construção foi a parte setentrional da colina oriental. O templo propriamente dito compreendia três partes: o vestíbulo. duas salas chamadas respectivamente o Santo e o Santo dos Santos. O vestíbulo media cerca de 1O metros de largura por 5 de comprimento; diante do mesmo encontravam-se duas colunas de bronze finamente trabalhadas. O vestíbulo comunicava-se com o Santo; este Segundo compartimento possuía a forma retangular com cerca de 2O metros por 1O; encontravam-se aí o altar dos perfumes, sobre o qual era queimado incenso, a mesa dos pães da proposição e os dez candelabros de ouro cujas lâmpadas ardiam constantemente.

O Santo dos Santos era uma sala cúbica medindo cerca de 1O metros por lado. Neste recinto encontrava-se a Área da Aliança com dois gigantescos querubins feitos de madeira revestida de ouro, e com cerca de cinco metros de altura.

A ornamentação do interior do templo era riquíssima: paredes e teto estavam revestidos de madeira de cedro e ornados com entalhes de relevo representando querubins, palmas e flores. O pavimento era feito de madeira de cipreste. O ouro estava por toda parte:

"E nada havia no templo que não estivesse coberto de ouro; e até cobriu de ouro o altar do oráculo" (3 Reis, 6,22).

Junto ao edifício do templo havia construções destinadas aos sacerdotes e levitas em serviço.

Dois adros circundavam o templo: o primeiro se estendia diante do vestíbulo e estava reservado aos sacerdotes: no centro desse adro se elevava o altar dos holocaustos; entre o altar e o vestíbulo existia um vasto recipiente chamado mar de bronze que repousava sobre doze touros repartidos em quatro grupos de três; este reservatório servia para as abluções dos sacerdotes. O segundo adro, separado do anterior por um muro, era destinado ao povo e só foi concluído muito mais tarde.

O templo pés-exilico. - O segundo templo foi construído após o exilío da Babilônia. Os trabalhos duraram cerca de cinco anos e foram concluídos em 515 a.e.c. Embora tivessem procurado imitar o templo de Salomão, a nova construção ficava muito aquém da antiga, principalmente quanto à suntuosidade.

O templo de Herodes. O templo de pós-exílio foi restaurado e transformado por Herodes, o Grande. A obra de restauração durou de 2O ate 9 a.e.c. Na realidade, até 64 d.e.c. ainda se trabalhava no templo.

As principais fontes para o estudo dessa construção gigantesca que Flávio José chama o edifício mais magnifico que existia sob o sol, são: os escritos do próprio Flávio José, o Talmud e o Novo Testamento.

O templo estava formado por um duplo quadrilátero: o primeiro era o adro dos gentios rodeado por uma imensa galeria que a leste tinha o nome de "pórtico de Salomão" e ao sul de "pórtico real". No ângulo noroeste do adro dos gentios, sobre uma rocha, levantava-se ameaçadora a fortaleza Antônia, guarnecida pelos romanos. O adro interno comunicava com o adro dos gentios através de nove portas; esse adro interno estava subdividido em "adro das mulheres" e "adro dos israeIitas" só acessível aos homens. Isolado do adro dos homens por uma balaustrada de mármore, encontrava-se o adro dos sacerdotes, no meio do qual se erguia o enorme altar dos holocaustos, construído de pedras brutas e medindo 25 metros de lado e 8 do altura. Mais acima é que se achava o templo propriamente dito, dividido em três partes: o vestíbulo, o Santo e o Santo dos Santos.

No Santo havia o candelabro de sete braços, a mesa dos pães de proposição e o altar de perfumes sobre o qual o sacerdote designado pela sorte vinha cada dia oferecer incenso (Lucas 1,8-1O).

Um véu separava o Santo do "Santo dos Santos", local em que outrora se guardava a Arca da Aliança.

O templo do Herodes a todos impressionava pela riqueza e imponência de suas linhas. Flávio José relata-nos:

"O exterior dele era maravilhoso para os olhos e para o espirito. O teto estava coberto de folhas do ouro de modo que, ao despontar do sol, parecia de fogo. Ao estrangeiro que vinha de longe o templo se apresentava como uma montanha de neve, por causa dos blocos de mármore do sua construção".

Referências Bibliográficas

CURTIS, Mario Giordani. História da Antiguidade Oriental 13ª Edição: Petrópolis, Editora Vozes, 2006;

RICCIOTTI, Giuseppe. Storia d'Israele. I. Dalle origini all'esilio. Quinta edizione: Societa editrice internazionale, Torino.

16 Textos publicados
Civilização Hebráica
Civilização Hebráica | Religião
Os hebreus e a invenção do pecado

Se acreditarmos no folclore bíblico, o crime é um hábito inveterado do homem. Ele ritmou e comandou inicialmente a mais velha "história", a "era mítica" que mais de uma mitologia antiga imaginou, das origens do mundo até o momento em que, por meio de retoques mais ou menos amplos ou brutais, a imagem do universo e do homem foi levada ao estado que todos conhecemos, de memória universal, e começou a funcionar como desde então sempre funcionou.

Segundo a mitologia dos hebreus, o primeiro Homem que apareceu aqui embaixo - incitado por sua Mulher, que fora enganada pela Serpente - desobedeceu a Deus e comeu do Fruto proibido. É preciso que uma insubordinação como essa tenha sido tomada como um ato criminoso monstruoso, como uma verdadeira revolta, se julgarmos pelo terrível e definitivo castigo que implicou: a Mulher foi definitivamente condenada às dores do parto e à tirania do Homem, e este, a só poder subsistir ao preço de um trabalho extenuante (Gênesis III).

Dos primeiros filhos do casal, expulso para sempre de sua beatífica morada original, Caim assassina seu irmão Abel, do qual tem ciúmes, e este também é banido e condenado a uma vida errante e amedrontada.

Entre os descendentes do assassino surge uma espécie de besta, Lamec, que se gaba de ser muito mais sanguinário que Caim: "Por uma ferida, eu matarei um homem, e por uma cicatriz matarei um jovem. Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete" (IV, 23).

Depois disso, ao longo das gerações, o crime se difunde em toda parte, de tal maneira que Deus fica desapontado ao ser obrigado a constatar "que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano era sempre mau" (VI, 6). E decide aniquilá-lo com o Dilúvio, excetuando apenas o único justo, o único irrepreensível: Noé, salvo do cataclismo, com sua família, em sua "arca" flutuante (VI, 15; VIII).

Passado o Dilúvio, Cam, segundo filho do herói, ultraja gravemente seu pai - de acordo com as ideias que se tinham então das coisas - ao contemplá-lo totalmente nu e comprazendo-se na embriaguez: esta curiosidade doentia devia constituir, por si mesma, um novo crime, um imperdoável atentado, para que Noé maldissesse o culpado a ponto de fazer dele o pai de gerações de escravos (IX, 20s).

Enfim, os homens, novamente espalhados sobre a terra, conspiram para nada mais nada menos que afrontar Deus em pessoa, alçando-se assim para falar à Sua altura por meio de uma torre que lhes permitirá "(chegar) até o céu", simples "começo de seus empreendimentos" maléficos, como se nada mais pudesse freá-los na devastação de todos os interditos e na progressão do crime. É por isso que, confundindo e multiplicando suas línguas, Deus os condena a não mais se entenderem uns aos outros, o que os predispõe a agredirem-se e matarem-se (XI).

E essa sucessão arcaica, original e obstinada dos crimes passados, portando em germe os crimes futuros, sem número e sem termo, que leva Deus, como desalentado diante da súcia malfeitora e perversa dos homens, a preparar, unicamente para Si, uma comunidade restrita, que será, como Noé em seu tempo, a única justa, inocente e irrepreensível: Seu povo particular, que jamais deveria decepcioná-lo. Assim parte Ele para longe, no início da "era histórica", para buscar Abraão e trazê-lo ao teatro em que pretende vê-lo viver e proliferar-se para tornar-se o pai do povo de acordo com Seu coração (XI, ls).

Vê-se que, antes mesmo do início da história, o passado mais antigo do mundo, na mitológica bíblica, não passou de uma seqüência de catástrofes, comandadas a cada vez por crimes e pela repressão deles: pela reação legítima de Deus diante dos atos celerados dos homens.

As coisas infelizmente não se detiveram aí, e o relato bíblico foi obrigado a registrar, no decorrer dos tempos "históricos", uma nova e interminável série de ações criminosas, ora duramente castigadas, ora sem punição discernível, e até mesmo no seio do "povo de Javé". Basta reler os detalhes das abominações de Sodoma e de sua destruição (XIX); do ciúme de Sara, que obriga Abraão a expulsar Agar, mãe de seu filho Ismael, sob o risco de condená-los à morte com esse afastamento e esse abandono (XXI, 9s); do estupro de Dina por Siquém e da cruel vingança de Simeão e Levi (XXXIV); e assim sucessivamente, em uma longa litania, prolongada até o fim da bíblia. Sequer o rei ideal, o nobre e sedutor Davi, escapa, quando, depois de ter olhado do alto de seu terraço uma mulher "muito bonita" tomando banho e tê-la violentamente desejado e tornado mãe, livra-se hipocritamente do marido, fazendo com que o coloquem no centro de uma batalha sangrenta (II Samuel XI).

Tudo se passa como se, desde a primeira revolta criminosa do pai de todos os homens, a Má ação, com demasiada frequência alçada a este superlativo que é o Crime, houvesse entrado em nossa natureza, tornando-se conatural a nós, infectando todos os homens, até mesmo os do "povo eleito". Como observará muito mais tarde Coélet, filósofo que via as coisas de cima, "Deus fez o homem correto, mas o homem inventa muitas complicações" (Eclesiastes VII, 29).

Entretanto, não são o termo e a ideia de crime que dominam a bíblia, mas os de pecado, cujo alcance não é de maneira alguma o mesmo. Como se, para além do horror, da selvageria, da violência, do excesso e da vergonha de cada crime relatado, se quisesse destacar, como verdadeira razão de sua reprovação, seu caráter de "pecado": isto é, de recusa de obedecer a Deus, de rebelião contra Sua vontade e, portanto, contra Sua pessoa. Na bíblia, a gravidade do crime não é tomada pelo lado de seu caráter ignóbil, insuportável e atroz, como espetáculo condenável, mas do lado de Deus, a quem, simples e miserável criatura, o homem resiste por meio de tal ato e contra quem se insurge e desafia. Antes de ser aos nossos olhos um crime, a ação criminosa, na bíblia, é primeiramente condenada por Deus pelo fato de ser rebelião e "pecado". Consumado o adultério e assassinado o marido, Davi vê chegar a ele um daqueles intratáveis representantes da fidelidade a Javé, que se consideravam "enviados" por Ele, e que o censura violentamente, como o rei que é, por seu excesso criminoso, pelo fato de ser reprovado por Deus: "Então por que você desprezou Javé e fez o que Ele reprova?" (II Samuel XII, 9).

A religião de Israel, da qual a bíblia é ao mesmo tempo a carta de fundação e o dossiê de história, via, quanto a esse assunto, as coisas sob um ângulo bastante particular.

Os hebreus eram semitas e faziam, portanto, parte de um grupo cultural determinado, um dos mais antigos conhecidos, atestado, na Mesopotâmia, o mais tardar desde os primórdios do terceiro milênio, por sua linguagem, que revela obrigatoriamente uma cultura própria. Do ponto de vista religioso, o que sabemos sobre eles nos leva a pensar que tinham uma ideia bastante elevada da natureza e do papel dessa espécie de mundo sobrenatural que toda religião, de uma maneira ou de outra, sobrepõe ao nosso nível visível e palpável, a fim de nos fornecer a razão de ser de nossa existência e de seus grandes movimentos.

Na Mesopotâmia, via-se nele a projeção magnificada da classe política, que, nesse país, havia desde sempre assumido uma forma estritamente monárquica. Como tais, os deuses haviam criado os homens para desempenhar em relação a eles o mesmo papel dos súditos para com seu rei: prover com seu trabalho todas as necessidades deles, análogas às nossas - alimentação e bebida, roupas e ornamentos, edifícios para moradia, existência agradável e festiva -, que lhes eram asseguradas sob a forma de estátuas e imagens nos templos a eles erigidos. Nisso residia o essencial do culto que lhes era consagrado e, uma vez que nos haviam inventado e posto no mundo com esse objetivo preciso, eles não pediam mais. Mas também desempenhavam, em relação aos humanos, o papel do soberano e de seus auxiliares para com os súditos: tudo o que, para os homens, constituía uma obrigação ou uma defesa emanava da vontade deles, e quem quer que infringisse uma delas se tornava passível de um castigo, o qual tomava a forma desses aborrecimentos, males ou infortúnios que vêm de repente - inexplicavelmente - sombrear ou abalar nossa existência, e que ali encontravam sua justificação.

Temos apenas uma ideia bastante vaga da primeira religiosidade dos israelitas, que apareceram somente em meados do segundo milênio a.e.c. Ao modo deles, mais modesto e menos intelectualmente sistematizado, visto seu estado de nômades rudes, com certeza evocavam de maneira vaga e em pequeno formato o afresco amplo e multicolorido do panteão e do sistema mesopotâmicos.

Entretanto, no início do século XIII a.e.c., um deles, conhecido com o nome de Moisés, quis ao mesmo tempo dar- lhes um país que fosse deles - aquele que chamamos de "Palestina" - e ligar esse novo destino "nacional" a uma forma religiosa inédita que, em sua alma aberta e ardente, havia elaborado. Num mundo, porém, universalmente politeísta, ele preconizava que seu povo não devia se preocupar com os outros deuses, mas ligar-se a um só, de nome Javé, ao qual deveria permanecer para sempre e exclusivamente fiel, pois Ele protegeria Seu povo ainda frágil e asseguraria o sucesso de suas ambições territoriais e políticas. E para que esse Deus reservado aos hebreus permanecesse separado das outras inúmeras divindades veneradas pelos povos, não se devia tentar figurá-lo, representa-lo por meio de imagens ou estátuas: bastava saber que ele existia e daria a mão ao seu povo. Recorrendo a uma formalidade usual entre os antigos semitas, Moisés havia realizado e imaginado, entre Javé e seu povo, um verdadeiro pacto de Aliança: o povo se comprometia a permanecer ligado exclusivamente a seu deus, e esse último a apoiá-lo, contra ventos e marés.

Nova e admirável "invenção" de Moisés, decididamente à contracorrente de tudo o que se fazia em toda parte, o apego de seu povo ao seu deus não se manifestaria, como ocorria entre outros povos, inclusive mesopotâmios e outros semitas, por meio de um serviço de bens e provisões materiais - templos magníficos, roupas e ornamentos de valor, oferendas cotidianas e pluricotidianas de alimentos e outros subsídios -, mas unicamente pela conduta e obediência exclusiva, alienatória e total a uma espécie de "código moral", algo como aquele que a bíblia conservou para nós e que chamamos de "Decálogo":

Eu sou Javé seu Deus (...)/ Não tenha outros deuses além de mim./ Não faça para você ídolos (...)/Não se prostre diante desses deuses, nem sirva a eles, porque eu, Javé seu Deus, sou um Deus ciumento (...)/Não pronuncie em vão o nome de Javé seu Deus, porque Javé não deixará sem castigo aquele que pronunciar o nome dele em vão./ Lembre-se do dia de sábado, para santificá-lo./ Trabalhe durante seis dias e faça todas as suas tarefas./ O sétimo dia, porém, é o sábado de Javé seu Deus. (...)/Honre seu pai e sua mãe(...)/Não mate./ Não cometa adultério./ Não roube./ Não apresente testemunho falso contra o seu próximo./ Não cobice a casa do seu próximo, nem a mulher do próximo, nem o escravo, nem a escrava, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo. (Êxodo XX, 2-17)

Essa polarização ética de toda a atividade religiosa desenvolveu um sentimento agudo das obrigações de cada um, e do alcance delas. Num tempo em que o mundo - e muito menos esse povo alienado - ainda não estava, nem de longe, "desencantado" - e em que a religião acompanhava e recobria todo o campo da atividade humana, ainda mais entre aqueles que sentiam o "sobrenatural" tão profundamente mesclado à sua história - qualquer infração do "código moral" e daquilo que ele implicava, em detalhes, para além de suas grandes rubricas, qualquer transgressão, era estimada e julgada de saída em virtude do critério fundamental que a ligava à vontade de Deus e às obrigações para com Ele baseadas na Aliança e em seu pacto fundador. Conforme essa vontade e esse "código", tal ação era regular e própria do que Deus esperava de Seu povo; caso contrário, em qualquer que fosse o domínio da conduta, ela constituía antes de tudo um pecado, e era primeiramente por esse viés que suscitava reprovação e condenação.

A prioridade de um critério e de uma proscrição desse tipo foi, ao longo dos séculos, consideravelmente reforçada na consciência dos israelitas pela evolução de seu próprio destino e pela explicação que dela era dada pelos fiéis mais sobejos de Javé, aqueles que eram chamados de "profetas", por vocação renhidos defensores do integrismo religioso. Dilacerado, após um momento de glória, por terríveis dissensões internas e tristes fracassos políticos, o povo de Israel se via, o que era ainda pior, como vítima regular e impotente das impiedosas invasões conquistadoras empreendidas pelos formidáveis mesopotâmios. Ora, repetiam desafiadoramente os "profetas", isso tudo era apenas o castigo prometido por Javé às incessantes transgressões - é preciso dizer, humanamente inevitáveis - que os israelitas acumulvam contra seu Deus. Egoísmo e rapacidade de uns contra os outros, preferência pelos baixos prazeres da vida, maldades e atentados cada vez maiores, perversão do espírito para justificar a qualquer preço a má conduta, soberba e vaidade, desonestidade e injustiça, além de outros crimes, eram primeiramente condenados apenas por Deus, isto é, dito de outra maneira, como insultos e pecados dirigidos a esse tirano divino:

Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio do país./ (...) Ai daqueles que madrugam procurando bebidas fortes e se esquentam com o vinho até o anoitecer./ Em seus banquetes, eles têm harpas e liras, tambores e flautas, e vinho para suas bebedeiras (...)/ Ai dos que arrastam a culpa com cordas de bois, e o pecado com tirantes de uma carroça (...)/ Ai dos que dizem que o mal é bem, e o bem é mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo!/ Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e inteligentes diante de si mesmos!/ Ai dos que são fortes para beber vinho e valentes para misturar bebidas,/ Dos que absolvem o injusto a troco de suborno e negam fazer justiça ao justo! (Isaías 8-23)

Era esse o tom do discurso "profético", e pode-se compreender sem dificuldade como ele podia obliterar inteiramente o campo da consciência ao implantar nele a ideia central do pecado. Quaisquer que fossem os efeitos propriamente judiciários dos delitos e dos crimes da alçada do poder "civil" (a bíblia praticamente não aborda esse tema), a conduta tinha apenas um único juiz, supremo e sem recursos: Deus. E o peso, o perigo, o prejuízo, a abominação das más ações e dos crimes tinham menos importância que sua ignomínia essencial, a recusa de obedecer-lhe, que o obrigava, uma vez que Ele era absolutamente justo, a vingar-se sem falta, infligindo Ele mesmo a seus autores o castigo merecido: o infortúnio.

As coisas foram tão longe que um verdadeiro crime, aos nossos olhos, podia, comandado por Deus, ser tomado como uma ação admirável, heróica... É o sentido da história do assassinato de seu filho, exigido de Abraão por Deus: "Deus pôs Abraão à prova, e lhe disse (...)/ 'Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o aí em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar!"' (Gênesis XXI, 1-2). É claro, como é dito com todas as letras, que Deus queria apenas "pôr à prova" a obediência e a devoção de Abraão, mas este partiu imediatamente, sem pestanejar, para executar essa ordem atroz, e se seu braço se deteve no final, no momento em que erguia a faca para matar o filho, não é menos verdade que ele havia aquiescido sem delongas, sem dizer palavra, sem hesitar, àquela ordem tão objetivamente criminosa.

Tudo se passa como se, na bíblia, do começo ao fim, a exclinica unidade de peso na balança das ações humanas houvesse sido, não o sentimento do "Direito", escrito ou não, mas a Vontade de Deus, desse ser pintado pela mitologia hebráica como um tirano divino, mesquinho, vaidoso, incoerente com seus próprios objetivos e também incompetente por criar uma raça de seres imperfeitos que mesmo incessantemente castigados, voltam a "ofender" e a cometer "crimes" pecando contra sua vontade; e como se, por mais terrível, inumano, odioso ou atroz que fosse, o crime houvesse assumido e conservado sua significação intrínseca de ato a ser condenado e evitado sobretudo a partir de sua qualidade de pecado.

Incorporada, por meio da mensagem do cristianismo, à própria raiz de nossa civilização, semelhante convicção pesou bastante na formação de nossa consciência e nesse extraordinário "senso do pecado" que a invadiu, ainda que se desvie com demasiada frequência na direção de um certo juridismo, tão distante da religiosidade autêntica...

Civilização Hebráica | Religião
Deus e o mal, da mesopotâmia à bíblia

O "mal" que aqui constitui "problema" não é o que chamamos de "mal moral": o "vício", a imoralidade, a maldade, a perversidade, ainda que sejam, aos olhos dos cristãos, os mais deploráveis; é o infortúnio, o sofrimento, físico ou moral, a impossibilidade de obter ou de conservar o que se ama ou de se livrar do que se detesta. O animal atingido não tem outro recurso a não ser a paciência. Mas o homem, quando está infeliz, não pode impedir a si mesmo de se fazer perguntas, sobretudo a mais importante delas: Por quê?

No plano utilitário, uma curiosidade como essa é legitimada pela busca de um remédio: se tenho um severo ataque de dor ciática, tomo um comprimido e a dor se atenua, ou desaparece. Mas, de acordo com a gravidade do mal, é no plano religioso que esse "por quê?" se impõe com mais força, insistência ou angústia. A partir do momento em que é possível remeter tudo o que se passa aqui embaixo a uma causa sobrenatural, ao mesmo tempo inteligente e onipotente; a partir do momento em que se pensa ter diante de si, mesmo invisível, um interlocutor responsável ao qual se pode perguntar "por quê?", ainda que ele não responda, que não responda nunca, e deixe ao interrogador a preocupação de encontrar a resposta - eis o verdadeiro "problema do mal", aquele em que penso aqui: o mais pesado, assustador, intolerável, a ponto de poder atingir com um golpe mortal a fé na existência do Interlocutor sobrenatural em questão. Quem não se recorda do grande monólogo de Ivan Karamazov, diante do insuportável sofrimento dos filhos?: "Não me recuso a admitir Deus, apenas lhe devolvo respeitosamente meu bilhete!"

Mesmo que se venha a detectar a causa imediata do mal de que se sofre e que se consiga encontrar um remédio para ele, resta sempre a questão, aquela que torna o problema verdadeiramente lancinante e intolerável: por que eu? Por que este mal se abateu sobre mim, aqui e hoje? Por que a causa universal de tudo, aquela que dirige o mundo e sem a qual nada pode ser feito aqui embaixo, por que ela fez com que esse infortúnio me atingisse, justo a mim?

Um problema como esse já assombrou outros, antes de nós. E em particular, para permanecer na linha de um pensamento religioso, aos homens autores da bíblia. Sem falar das freqüentes alusões dispersas que nela encontramos, sobretudo em um de seus livros, o de Jó, que se consagrou expressamente a ele.

Mas se a bíblia trouxe ao mundo uma revolução, uma considerável transformação religiosa, ela não é, nesse domínio, um princípio absoluto: em história, a grande lei é a de que "Há sempre alguma coisa antes!". Quando, em 1872, descobriu-se pela primeira vez um documento mesopotâmico que trazia um relato do Dilúvio inteiramente comparável ao dela, palavra por palavra, detalhe por detalhe, e, contudo, anterior a ela, começou-se a imaginar que devia haver algo a aprender sobre o "pré-bíblia", sobre as fontes da bíblia, naquele país, cujos arquivos exumamos sob a forma de meio milhão de documentos, legíveis e inteligíveis - entre os quais um grande número recobre os problemas e os próprios textos da bíblia, tais como, entre outras, as questões da origem do mundo e da mais antiga história do homem desde seu aparecimento. Ocorre, justamente, que nessa massa de documentos figuram também alguns dedicados ao problema que nos é colocado pela existência do mal.

 

Sumérios, acadianos e aramaicos

 

Deveria haver algum interesse em conhecê-los, não por eles próprios, talvez, mas pelo fato de mostrarem que se a mesma questão cardeal trabalhou o espírito dos antigos mesopotâmios de um lado, e, de outro, o dos autores da bíblia, estes a resolveram de maneira completamente diferente. Talvez essa diferença permita compreender que se os israelitas de fato receberam muito dos mesopotâmios antigos, sua visão religiosa era radicalmente distante demais para que se pudesse dizer, como não se deixou de fazê-lo, às vezes ingenuamente, que "a bíblia nasceu na Mesopotâmia".

Em primeiro lugar, é indispensável situar essa Mesopotâmia famosa e ainda tão pouco conhecida fora do círculo imperceptível de seus especialistas, e sobretudo seu sistema religioso, em cujo interior se colocava o problema que nos ocupa.

Mesmo que os antigos habitantes deste país (mais ou menos recoberto pelo Iraque contemporâneo, e cuja história podemos acompanhar desde o fim do quarto milênio a.e.c.) tenham recebido muito de uma população provavelmente imigrante - da qual conhecemos a língua e muitos escritos, mas nada além disso - os sumérios, esses desapareceram de maneira relativamente rápida, desde o fim do terceiro milênio a.e.c., no máximo, não deixando ali mais do que aqueles que haviam inicialmente aculturado e que chamamos acádianos ou acádios, em outros termos: semitas.

A civilização e a religião, na Mesopotâmia antiga, eram, portanto, a despeito da contribuição suméria, profundamente semíticas: pertenciam àquela grande e venerável família lingüística e cultural que devia, sucessivamente, a partir do fim do terceiro milênio a.e.c., dar origem aos "acádios", aos que chamamos de "cananeus", depois aos aramaicos e, mais tarde, aos árabes. Os velhos mesopotâmios, por suas raízes semíticas, compartilhavam, pois, um certo número de tradições e traços de mentalidade com os semitas ulteriores e, entre eles, os hebreus, autores da bíblia, e provenientes do ramo "cananeu". Esse parentesco é capital: ele explica muitas das convicções e reações comuns que assinalaremos entre mesopotâmios e israelitas.

No plano religioso, os mesopotâmios eram decididamente politeístas e antropomorfistas. Isto é, haviam imaginado, bem acima do mundo - para governá-lo e desempenhar nele o papel de causa primeira universal -, toda uma sociedade de seres sobrenaturais: deuses, que representavam a própria imagem, magnificada e embelezada, muito mais poderosos e inteligentes do que eles, e subtraídos à morte. Eles haviam tomado aqui embaixo, como modelo para esses deuses imaginados, não as "pessoas comuns", insuficientemente reluzentes, mas as mais notáveis, a alta classe dos governantes - o rei, sua família e sua corte de altos e não tão altos funcionários.

E como os semitas, em geral, sempre partilharam uma viva e poderosa convicção sobre a ingerência universal dos deuses na marcha do mundo e dos homens, estava-se persuadido, na Mesopotâmia, de que esses mesmos deuses desempenhavam em relação a nós - de maneira mais grandiosa, naturalmente! - o papel do rei para com seu povo, cujo comportamento ele regulava por meio de decisões coercivas. Portanto, tudo o que, positiva ou negativamente, comandava a conduta dos homens, em todos os domínios da vida - o direito, o ritual, a moral, e até as rotinas folclóricas, irracionais, mas que nos sentimos na obrigação de seguir -, supostamente emanava da vontade diretiva e "legislativa" dos deuses. E da mesma forma que o príncipe castiga toda desobediência às suas ordens, os deuses puniam as infrações aos seus comandos: pois tratava-se de revoltas intoleráveis contra sua autoridade, de menosprezo de sua vontade; em uma palavra, de pecados. Essa noção de pecado, ligada de perto, aparentemente, às representações tradicionais dos semitas, já tinha amplo espaço na consciência dos mesopotâmios, como mais tarde na bíblia.

 

Uma Sanção de nossas faltas

 

Foi por meio do apelo a essa noção que primeiramente se tentou, nesse país, responder ao "porquê" do infortúnio: sempre em virtude da mesma analogia. Se infrinjo uma ordem do rei, ele pode dar a seus representantes a missão de me infligir um castigo. Da mesma maneira, se cometi um pecado, os deuses têm boas razões para me punir. Essa era a primeira explicação que os antigos mesopotâmios davam para o infortúnio. Todos os males que nos acontecem eram, aos olhos deles, sanções de nossas faltas, justamente decretadas pelos deuses e executadas por seus "agentes", que haviam sido imaginados sob a forma de "demônios", também eles seres sobrenaturais, de silhueta incerta, inferiores aos deuses e superiores aos homens, e cujo papel era de ordem, digamos, "policial".

É de se notar que semelhante raciocínio explicativo, tal como frequentemente o vemos, mais ou menos detalhado, em nossos textos cuneiformes, era feito a posteriori. Em outros termos, para um homem desafortunado, bastava, para justificar seu infortúnio, para lhe conferir uma razão última, recorrer a esta dialética mitológica: "Se sofro, é porque sou castigado pelos deuses; se eles assim me puniram, foi porque pequei contra eles." Mas se os deuses mesopotâmicos eram necessariamente justos, e se era preciso, a qualquer preço, salvaguardar sua justiça fornecendo, do lado do homem desafortunado, um motivo legítimo do mal do qual este padecia, eles não deixavam por isso de ser soberanamente livres e, como os reis, podiam muito bem, por razões próprias, dispensar a si mesmos de reagir diante das faltas dos homens. É por isso que não se podia raciocinar a priori: "Se cometi um pecado, devo forçosamente esperar expiá-lo." Partia-se do infortúnio para concluir a respeito da falta que supostamente o teria provocado.

Mas o que ocorria quando o desafortunado não tinha a menor lembrança de ter transpassado ordens divinas? Isso acontecia, necessariamente! Nesse caso, também havia meios de "salvaguardar a justiça dos deuses": considerando-se o número quase infinito de todas as obrigações e proibições impostas pelos senhores do mundo, sempre era possível invocar uma delas, quase imperceptível ("Não há homem isento de pecado", dizia-se), e mesmo esquecida, inconsciente, ou ainda (em um país em que o regime jurídico admitia a responsabilidade familiar) cometida por um próximo!

Essa maneira de raciocinar tinha algo de frágil e simplista, uma vez que, afinal de contas, a falta explicativa era, em muitos casos, postulada: "Devo ter cometido um pecado!" Afinal, se alguém estava mergulhado em um sofrimento ou infortúnio excessivos, tendo consciência apenas de pecadilhos irrisórios, não tinha razões para reputar injusta a severidade exagerada dos deuses? E como "salvar" a justiça deles do espetáculo de notáveis celerados nadando em felicidade - pois isso também se via com muita frequência! - diante de pessoas honestas e cruelmente tratadas?

Eis um belo exemplo das reações de tais vítimas. É o último grande rei de Nínive, o famoso Assurbanipal, que, por volta de 630 a.e.c., depois de ter evocado todos os seus préstimos, lança este lamento:

Fiz bem aos deuses e aos homens, aos mortos e aos vivos. (...) Então, por que doenças e tristezas, dificuldades e danos não me abandonam? Discórdias no país, perturbações e fracassos de toda sorte estão constantemente em meu encalço. Mal-estares do corpo e do coração me encarquilham inteiro. Passo o tempo a lamentar e a suspirar. Mesmo no dia da grande Festa, fico desesperado. (...) Oh, meu deus, semelhante sorte, reserve-a aos ímpios, e deixe-me re-encontrar a fortuna! Até quando você vai me maltratar dessa maneira, como alguém que não respeita nem deuses nem deusas?

 

Que pecado afinal cometi?

 

Assim, no país, com o tempo, vozes foram se elevando no sentido de exigir, para o problema do mal, uma solução religiosa mais nuançada, mais aceitável, que levasse em conta "justos sofredores" e "maus felizes".

Desses protestos restam-nos alguns ecos literários. No decurso do tempo, foram compostas, no país, algumas obras (poéticas, embora, na Mesopotâmia, o lirismo fosse em geral bastante fleumático) que propunha, por menos que possamos lê-las e compreendê-las, essa nova "resposta", melhorada, que parece ter-se disseminado, e depois se imposto, ao menos no segundo milênio a.e.c.

Algumas palavras, somente, sobre as duas mais antigas. Uma delas foi composta em língua suméria, sem dúvida perto do fim do terceiro milênio a.e.c., em cerca de 40 versos. A outra, em língua acadiana, deve ser das proximidades do segundo quarto do milênio seguinte: ela conta com menos da metade dos versos, e chegou a nós com enormes lacunas. Ambas apresentam "um homem" que, face a face com "seu deus", lamenta seus infortúnios e suas penas. É claro que reconhece-se culpado por seus pecados, o que salva a doutrina vigente; mas suas faltas não lhe parecem ter importância e gravidade proporcionais ao rigor de seu castigo, o que ressalta a insuficiência da doutrina. Ele implora, então, ao deus a quem se dirige, para livrá-lo. E esse deus, no final, o livra de fato e lhe restitui a felicidade. Essa dupla aventura, que resumo aqui, ganhará todo o seu sentido quando nos debruçarmos sobre o terceiro poema, o mais significativo.

Intitularam-no O Justo sofredor, por referência implícita e, em minha opinião, errônea, ao livro bíblico de Jó: a situação é completamente diferente! Trata-se de um longo monólogo, de cerca de 500 versos., repartidos em quatro tabuletas. Para expor sua tese, não por meio de abstrações mas bastante concretamente, o autor, desconhecido, decidiu materializá-la em uma história, a qual fez com que o paciente detalhasse e da qual quis reforçar a credibilidade ao apresentar este último, com todo o seu séquito, como um personagem conhecido (mas não por nós!) na Babilônia no último terço do segundo milênio a.e.c., época de origem do poema. De acordo com o grande movimento religioso "reformista" daquele tempo, que havia levado que se colocasse à frente dos deuses e do mundo Marduk, o líder sobrenatural da cidade, é declaradamente a ele que o autor do poema faz com que o queixoso se dirija.

Não se deve procurar aqui a grande literatura. Não apenas o texto tende a ser raso e prolixo em geral (inconveniente que não é excepcional nas "belas-letras" mesopotâmicas), como o autor parece ter sido tomado por uma aflitiva preocupação de sistematização, e até mesmo de geometrização: certamente porque queria pôr sob os olhos dos leitores uma demonstração, mais do que um verdadeiro relato. Seu plano é simples, e mesmo simétrico: nas duas primeiras tabuletas, o paciente conta seus infortúnios; nas outras, sua libertação.

Os infortúnios se dividem em duas categorias: na primeira tabuleta, tudo o que é degradação social - perda dos favores do rei, da situação, da fortuna, da consideração, e desprezo dos concidadãos; na segunda, o acúmulo de males propriamente físicos e a extraordinária coleção de doenças - todas gravíssimas -, quase cômica pela quantidade, que levam o autor ao tema da morte. Das duas últimas tabuletas, muito mais lacunares, resta, contudo, o bastante para nos fazer compreender que a libertação - inesperada, depois de tantas provações e inúteis orações, é decidida de maneira brusca e espontânea, no pior momento, pelo deus soberano, Marduk - realizou-se (ainda a sistematização ingênua!) no sentido inverso da chegada dos males: primeiramente desaparecem os que atingem o corpo, um após o outro; depois os mal- estares de ordem social! Por fim, de volta às graças de seu deus, o paciente se vê novamente no grande templo de Marduk, na Babilônia, realizando uma espécie de peregrinação devota de gratidão, ao longo da qual, à medida que avança, recebe graças acumuladas.

 

Esperar os favores divinos

 

Eis aqui ao menos alguns trechos da primeira parte: a degradação social.

Eu que tinha os lábios loquazes me tornei surdo-mudo,/ Minhas sonoras gritarias foram reduzidas ao silêncio,/ Minha cabeça, que era erguida, inclinou-se até o chão.../ Após ter-me pavoneado altivamente, aprendi a esgueirar-me pelos cantos.../ Minha cidade me tratou como inimigo,/ E, tornado-me hostil, meu país se encheu de cólera contra mim!

Em seguida, a degradação física:

Meus olhos se encarquilhavam, mas sem ver;/ Meus ouvidos se abriam, sem ouvir:/ O esgotamento se apoderou de meu corpo,/ E uma comoção se abateu sobre mim./ A paralisia tomou meus braços,/ A exaustão sobreveio aos meus joelhos,/ Meu esqueleto se desenhava, coberto apenas com minha pele.../ Minha tumba estava aberta, minha pompa fúnebre, organizada.

No início da segunda tabuleta, e entre as duas crises, o paciente recorda primeiramente seus inúteis pedidos de ajuda ao seu deus:

"Eu gritava para meu deus, e ele recusou-me o rosto;/ Eu implorava à minha deusa, e ela sequer erguia os olhos..."

Depois disso, ele deixa escapar o que constitui aos seus olhos o verdadeiro "problema do mal": diante da certeza da justiça dos deuses e de seu deus, o que mais o tortura é que ele se vê assim castigado a despeito de sua piedade e de seu comportamento exemplares:

 

Como alguém que jamais houvesse assegurado libações ao seu deus,/ Jamais houvesse inclinado piamente seu rosto, nem praticado a prostração,/ De cuja boca se houvessem afastado orações e preces,/ Que houvesse esquecido a festa de seu deus,/ Negligenciado as celebrações mensais,/ E que, por incúria, houvesse abandonado o culto,/ É assim que sou tratado: como um homem mau punido.

Ele detalha, então, todos os seus atos pios, que, normalmente, deveriam ter atraído para ele as boas graças dos deuses. No entanto, tais atos não o protegeram dos maus tratamentos destes, isto é, daquilo que, em virtude da velha "lei" comumente admitida, que explicava o infortúnio pelo pecado, se assemelhava exatamente a uma punição de faltas. A perturbação e a confusão de seu espírito diante de semelhante anomalia são tão grandes que ele acaba por se perguntar se a lógica dos deuses não estaria invertida: o avesso da nossa - pois então tudo ficaria claro:

É claro, eu acreditava que meu bom comportamento fosse agradável aos deuses!/ Mas será, talvez, que o que estimamos louvável/ Não é ofensivo para eles?/

E que o que julgamos blasfematório/ Talvez seja para eles um prazer?

E em favor dessa interpretação, ele evoca a doutrina, ou antes a convicção, compartilhada por todos os semitas, da superioridade radical dos deuses, que vai a ponto de torná-los incompreensíveis para nós:

"Quem jamais saberá o que querem os deuses, no céu?/ Quem compreenderá o que ruminam os deuses, no inferno?/ Como os habitantes da terra penetrariam o plano divino?"

Aí residiria um promeiro aspecto da nova resposta para o problema do mal: a saber, que não há resposta, pois ela é reservada aos deuses e, por natureza, inacessível aos homens. Veremos que, levada ao absoluto, essa transcendência do sobrenatural, no livro de Jó, constitui justamente a chave do mistério. Aqui, diríamos que o autor a teve em mãos, mas sem o poder de usá-la, nem sequer de reconhecê-la, pois em uma região antropomorfista e politeísta como a da Mesopotâmia, nada podia ser absoluto. Assim, o autor do poema se limita, para responder ao problema que apresentou, ao fato de que, uma vez que os deuses se encontravam por natureza - à maneira dos reis em relação ao seu povo - bem acima de nós, inacessíveis e imunes, por isso, às nossas inquisições e recriminações, a única coisa que podemos dizer diante da conduta deles em relação aos homens que parecem castigar, mesmo sem que haja razão para isso, é que ela é desconcertante e que não temos que julgá-la. Na verdade, não se trata de uma explicação, mas quase de uma tautologia.

Há, contudo, outra coisa no poema: outro aspecto de sua resposta, complementar a esse que acabo de ressaltar. Encontramo-lo precisamente no princípio, nos primeiros versos, como se a história contada na seqüência devesse ser apenas sua aplicação ou demonstração:

Glorifico o sapientíssimo Senhor, o deus razoável,/

Que se irrita, à noite, mas que, chegado o dia, se acalma:/ Glorifico o senhor Marduk!/ Como a tormenta de um ciclone, ele envolve tudo com sua cólera;/ Depois, seu hálito se faz benfazejo, como o zéfiro da manhã!/ Irresistível, inicialmente, é seu furor, é catastrófica, sua ira;/ Depois seu coração volta atrás, sua alma se corrige!

O que quer dizer isso, senão que os deuses, Marduk à frente, são, afinal de contas, como os homens, e mais ainda como os reis, que, livres de toda coerção, passam constantemente do preto ao branco? Deve-se, pois, saber que são capazes, sem nenhum outro motivo a não ser o humor ou a vontade, de se deixar bruscamente levar às piores violências e crueldades; depois, da mesma maneira incontrolável, estão prontos para as bondades mais admiráveis. E a longa história contada no poema não é uma impressionante ilustração dessas reviravoltas? Inicialmente vítima sem razão aparente das sevícias de Marduk, sem que nada - preces, súplicas, rituais - pudesse salvá-lo, o paciente, de repente, e sem outra razão, se vê libertado pelo mesmo Marduk, cujo "coração", nesse meio-tempo, "havia voltado atrás", cuja "alma se havia corrigido". Assim compreendemos melhor o sentido da obra inteira.

 

As sombrias cavernas do além

 

Por trás dessa aventura e do opúsculo a ela consagrado, oculta-se o que o autor pretendia trazer: ao mesmo tempo uma lição e o complemento da "resposta ao problema do mal" que queria ensinar. Uma resposta racional é impossível, pensa ele; não é sequer preciso buscá-la, trata-se do segredo dos deuses, inacessível. Por outro lado, quando o infortúnio nos atinge, mais do que quebrar a cabeça para explicá-lo, por meio do pecado ou de outra maneira, só nos resta esperar pacientemente, com resignação, o infalível retorno da fortuna. Trata-se, de uma só vez, de uma exortação ao fatalismo e de uma lembrança da evidência de que "após a tempestade vem a bonança". Era igualmente esse o ensinamento, a partir de então mais bem compreendido sob essa luz, dos dois opúsculos mais antigos, consagrados ao mesmo problema: o infeliz, inicialmente maltratado sem motivo, era, no fim das contas, libertado sem razão.

A prova de que semelhante explicação do infortúnio acabou aprovada e admitida, na Mesopotâmia, ao menos na alta classe (nada temos e nada sabemos das reações da multidão, analfabeta e silenciosa diante de nós), está no fato de que ela também se encontra, sutilmente, no fundo da quarta e última obra relativa ao mesmo problema do mal.

Os assiriólogos a chamaram, de maneira um tanto imprópria em minha opinião, de Teodiceia - a "justificação dos deuses a respeito da existência do mal". Ela deve ter sido composta na virada do segundo para o primeiro milênio a.e.c. Conhecemos o nome do autor e sua qualidade de membro do clero, pois introduziu tais informações em seu texto por meio de acróstico; mas nada além disso. Diferente, contudo, do autor de O Justo sofredor, trata-se de um excelente escritor, de linguagem original e poderosa, e com vigorosa argumentação, ainda que o resultado nos pareça decepcionante.

Em 27 estrofes de 11 versos cada, ele escreveu um diáogo no qual duas partes discutem com grande cortesia, mas sem fazer rodeios. De um lado, aquele que podemos chamar de "queixoso", e que, bastante discreto em relação aos detalhes de seus infortúnios, deixa claro que, depois de uma prática constante da piedade e da virtude, e sem ter nada a censurar a si mesmo, tem várias razões para queixar-se de sua sorte, desde a mais tenra juventude. É ele quem toma primeiramente a palavra e quem encerra o debate, no fim. De outro lado, seu interlocutor, anônimo, tem a aparência daqueles velhos com reputação de "sábios", grandes repetidores de sentenças e truísmos. O queixoso não apenas sustenta fortemente suas críticas, como as baseia, com toda evidência, unicamente nos fatos, constatados por sua própria experiência e pelos olhares agudos que tem sobre o mundo - e ele não é gentil!

Em meio a toda a literatura mesopotâmica, jamais encontrei algo mais negro, ácido e forte quanto à censura do que se passa aqui embaixo, nenhuma reprovação tão ferina do mal universal, tolerado pelos deuses:

Aqueles que não fazem caso algum dos deuses, seguem o caminho da fortuna. Mas quem implora a eles com fervor só tem pobreza e miséria.../ Lancei meu olhar sobre o mundo: tudo anda às avessas:/ Os deuses não barram o caminho ao diabo!/ Um pai reboca penosamente seu barco, no canal,/ Enquanto seu primogênito se compraz no leito./ Um filho de rei se reveste de farrapos,/ Mas um filho de maltrapilhos é suntuosamente vestido.../ E eu, que sempre servi os deuses, o que ganhei com isso?/ Eis-me aqui aviltado diante de um insignificante qualquer,/ E, rico e opulento, um fedelho me despreza.../ Exalta-se a palavra do prepotente, habituado ao assassinato,/ E esmaga-se o modesto que jamais cometeu uma má ação!/ Enchem-se de ouro os baús do tirano. Mas esvazia-se a despensa do pobre...

A esses dados factuais, relatados com veemência, o sábio, seu interlocutor, replica apenas com vagos "princípios", com aqueles aforismos que correm as ruas, com aquelas máximas gastas que não têm muita relação com as vituperações do queixoso. Ele o lembra de que "apenas a piedade lhe devolverá a fortuna", que seu futuro será melhor mesmo que não se mantenha apegado aos deuses, e que, além disso, a prosperidade dos maus é transitória e será prontamente substituída pelo infortúnio. E repete-lhe o axioma favorito dos semitas, e em particular dos mesopotâmios: "o plano dos deuses é tão distante quanto o âmago do céu; dominá-lo é impossível: não o compreendemos". Ele vai ainda mais longe quanto a esse aspecto, afirmando que foram os deuses-criadores, em pessoa e deliberadamente, que "dotaram os homens, ao criá-los, de uma inteligência confusa,/ Outorgando-lhes o erro no lugar da verdade!/ É por isso que tanto se proclama a fortuna do rico".

Se seguirmos a discussão na ordem, salta aos olhos que os argumentos do sábio não fazem o mínimo efeito sobre os do sofredor, que insiste, cada vez mais, em seus vitupérios, como se permanecesse sempre seguro de si, diante de explicações tão frágeis. Espera-se, portanto, que, para concluir, ele rechace definitivamente o autor de tais tolices, e o mande embora humilhado. Bem, não é de modo algum o caso, e essa é a surpresa final da Teodiceia: sem explicação ou refutação, sem o menor meio-termo, abandonando de uma só vez sua veemência e indignação, o revoltado apela subitamente, com humildade, para os deuses, esperando deles, com a cabeça baixa, a abolição de seu infortúnio. Eis as suas últimas palavras:

"Que meu deus possa ainda, após ter-me abandonado, socorrer-me,/ E que minha deusa, que se distanciou, tenha novamente piedade de mim!"

Apesar de tudo o que havia afirmado antes no sentido contrário, ele volta, pois, sem explicações, à grande lei, posta e explicada em O Justo sofredor, da alternância divina: curvando a cabeça, ele espera que seu deus "volte atrás", que "se corrija". Em outros termos, a lição final que os autores dos três escritos anteriores queriam inculcar, e mais explicitamente o de O Justo sofredor, a resposta deles de certa forma definitiva ao problema do mal, e até mesmo do mal universal, era a seguinte: quando o infortúnio advém, a única atitude inteligente é esperar pacientemente sua fatal evacuação e substituição, ao sabor da vontade dos deuses, pela fortuna, renunciando a compreender as razões de seu advento. Trata-se de um segredo divino.

É claro que isso não vai longe. Mas ainda que nos consideremos, como eles gostavam de repetir, demasiado débeis para compreender o que fazem e querem os deuses, só podemos nos decepcionar com essa recusa tímida e inesperada de ir mais longe, e com esse fatalismo infantil que, em matéria de explicação religiosa do mal, constitui, no entanto, a última palavra dessa poderosa, inteligente e grandiosa Mesopotâmia, primeira edificadora de nossa civilização ocidental, que ainda nos surpreende por tudo o que inventou e trouxe ao mundo, a começar pela incomparável revolução da escrita.

Podemos, agora, nos demorar um pouco sobre a bíblia: para nós, ela não é exótica e distante como a Mesopotâmia, e meu propósito é acima de tudo ressaltar como, em presença do mesmo problema do mal, e a partir de pressupostos comuns, os autores da bíblia reagiram de maneira tão radicalmente diferente, e por quê.

A razão fundamental dessa divergência reside, a meu ver, em uma concepção completamente diferente do divino. Os hebreu eram semitas, como os mesopotâmios. Sentiam também a necessidade de colocar, acima do universo, para governá-lo e constituir sua indispensável causa primeira, todo um mundo sobrenatural, cuja superioridade, digamos transcendência, lhes era tão patente quanto para os mesopotâmios.

Como eles, estavam convencidos de que essa causa suprema intervinha em toda parte, não apenas no funcionamento e na vida do universo e deles mesmos, mas também em seu próprio comportamento; e imputavam-lhe todas as obrigações e proibições que nele intervinham. Como eles, consideravam toda desobediência a tais comandos uma revolta contra o divino, um desprezo, um pecado que merecia punição.

A partir de premissas em suma idênticas, o que comandou reações tão diferentes foi o fato de que os hebreus não tinham absolutamente a mesma representação que os mesopotâmios da ordem sobrenatural das coisas: eles não eram nem antropomorfistas nem politeístas; recusavam-se a ver o divino como uma projeção magnificada de si mesmos e a imaginá-lo disperso em um número mais ou menos grande de personalidades sobrenaturais. O criador de sua religiosidade e de seu povo, Moisés, incutira neles o que os historiadores das religiões chamam de henoteísmo, forma superior do politeísmo que consiste não em negar a existência de uma pluralidade de pessoas divinas, mas em escolher uma delas para ligar-se exclusivamente, afastando ao mesmo tempo todas as outras do campo de sua religiosidade.

Para associar de maneira mais estreita e definitiva seu povo a esse deus escolhido, que tinha o nome de Javé, Moisés havia recorrido a um velho costume, familiar aos antigos semitas, que consistia em criar um laço particular entre pessoas privadas ou públicas, por meio de um procedimento dito de "aliança". Por meio dessa aliança, Javé, de certo modo, adotara Israel como seu povo particular, comprometendo-se a apoiá-lo contra todos os seus inimigos e a ajudá-lo eficazmente em todos os seus empreendimentos;

Os Hebreus, por sua vez, havia jurado não apenas que se afastaria, para sempre, dos outros deuses, mas que consagraria unicamente a Javé seu apego religioso e seu culto; e seus fiéis, diferentemente de todos os outros povos de então, renunciariam a todo tipo de representação imagética de Javé - como que para afirmar a radical diferença dele em relação a todos os outros deuses - e a toda a faustuosa ostentação de riquezas materiais no culto - a fim de se concentrar na obediência completa e exclusiva à vontade moral de Javé: eles o adorariam por meio de uma conduta reta e honesta, e não pela exibição dos próprios dons. Semelhante revolução, inaugurada por Moisés, constituiu, de fato, na história religiosa da humanidade, uma transformação completa dos valores e das práticas.

 

Um monoteísmo absoluto

 

Foi sobre essas bases que se formou, em alguns séculos, o que chamamos de monoteísmo: a saber, a convicção de que Javé, o deus que foi escolhido primeiro e preferido entre todos os outros, era na verdade o único, o absolutamente único, para o universo inteiro. Esse monoteísmo absoluto, enunciado pela primeira vez no Deuteronômio (IV 35; século VII a.e.c), implicava uma concepção absoluta da transcendência reconhecida ao Divino por todos os semitas. Enquanto aos olhos dos mais avançados entre eles, os mesopotâmios, o universo aparecia constituído como uma espécie de enorme esfera única, que encerrava em si tudo o que existia - tanto o mundo sobrenatural quanto o material, tanto o criador quanto a "criatura" -, o monoteísmo, absoluto, implicava a existência de duas esferas ontológicas completamente separadas uma da outra: a do Deus único, do Criador, e a da criatura, sobre a qual o Criador podia agir, mas a partir da qual não se podia absolutamente ter acesso a ele. Em outros termos, como diríamos em nossa linguagem, o divino não era "maior", "mais imenso", "mais imensamente poderoso" que todas as criaturas, ele era de outra ordem.

A segunda consideração que deve ser levada em conta para que se observe a que ponto os autores da Bíblia estavam afastados dos outros semitas, inclusive dos mesopotâmios, está no fato de que a aliança particular com Israel fora firmada entre Deus e um povo: foi o povo hebreu que Javé prometeu apoiar em seus empreendimentos (vitória sobre os inimigos, estabilidade política, prosperidade comum...), e era primeiramente como membros de um povo devotado unicamente a Javé que deviam agir os hebreus, que viviam, portanto, sob o regime da responsabilidade coletiva.

Entretanto, eles descobriram pouco a pouco, a partir do século VII a.e.c., a responsabilidade individual: "Naqueles dias", proclama Jeremias (XXXI, 29), "não se ouvirá mais dizer: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos são os que se embotaram. Mas cada um morrerá na sua iniqüidade." Mudança considerável e diametral! O castigo prometido para os pecados - por esse Deus único e absoluto é, portanto, justo, que não podia deixar de infligi-lo sem renunciar a ser ele mesmo e a respeito do qual não se poderia mais raciocinar de outra forma que não a priori ("pequei, portanto devo ser punido, com o mal ou o infortúnio") -, desde então, passava do coletivo para o singular: não era mais o povo, mas cada um de seus membros, que deveria sofrer a justa sanção de sua falta.

 

História do verdadeiro "justo sofredor"

 

Algo poderia colocar temíveis dificuldades práticas: nas coisas dos homens, os fatos sempre são mais ricos do que as leis por meio das quais queremos enquadrá-los. Um povo tem futuro, e sempre é possível projetar nele a realização de promessas e ameaças; mas um indivíduo morre rapidamente e, para os hebreus, assim como para todos os outros semitas e contemporâneos deles, depois da morte de um homem só restava dele sua sombra incerta, seu fantasma etéreo, destinado sem julgamento discriminatório a um modo de torpor e de sonolência indefinidos nas sombrias cavernas do Embaixo, do inferno, desde então inacessível ao bem e ao mal, à fortuna e ao sofrimento - e, portanto, insensível a tudo: impunível e "irrecompensável". Recompensa ou castigo deveriam, portanto, realizar-se durante a curta existência aqui embaixo do justo ou do mau.

Foi assim que se colocou, e se encorpou, sobretudo a partir da metade do primeiro milênio a.e.c., o problema do mal em Israel. Permanecia certo e indiscutível que todo pecado contra Javé deveria ser a priori punido por meio de um mal físico ou moral, de um infortúnio, de uma catástrofe, e na própria pessoa do pecador. Mas como e quando? Uma vez que se via a cada dia (como se observara na Mesopotâmia) pessoas honestas, virtuosas e justas sendo perseguidas e desgraçadas, e francos criminosos tomando-se prósperos e beatos.

Foram dessas discussões, das quais temos vários lampejos, aqui e ali, na bíblia, que surgiu o livro de Jó (século V ou IV a.e.c., provavelmente). Nada sabemos sobre seu autor. Mas basta lê-lo para se dar conta de que não se trata apenas de um dos mais poderosos e prodigiosos poetas, mas de um pensador religioso de primeira grandeza.

O livro não é inteiramente dele. Não somente, com o tempo (como é o caso de alguns livros bíblicos), algumas inserções foram feitas, como também, e sobretudo, ele comporta, no início e no fim, um enquadramento em prosa, em uma língua e um ritmo particulares, que parece com o conto popular. É bastante possível que o autor em pessoa tenha retido esse relato, que devia correr em seu tempo, não apenas porque certamente acreditava que fosse verdadeiro, mas sobretudo porque lhe fornecia a situação ideal para se lançar sobre o problema do mal sob sua forma mais aguda, mais escandalosa - o verdadeiro justo sofredor e, portanto, castigado -, e para apresentar o que lhe parecia a única explicação plausível para ele, na lógica de sua religião.

Tratava-se, com efeito, nesse texto de um certo Jó, um homem a um só tempo rico, feliz e religiosamente perfeito, irrepreensível, uma vez que Javé em pessoa, orgulhoso dele, o reconhecia e o declarava em alta conta. Diante da incredulidade de Satanás, seu grande "adversário", que estava persuadido de que Jó só se apegava a seu deus por interesse, e não por devoção sincera, Javé abandonou-o a ele. E em pouquíssimo tempo, o infeliz se viu despojado de todos os seus bens e filhos, reduzido à miséria e, atingido também em seu corpo, a coçar suas feridas sobre um monte de lixo, sem uma palavra de protesto e sempre apegado a seu deus, enquanto até mesmo sua mulher o havia aconselhado: "Amaldiçoe a Deus e morra de uma vez!" (II, 9).

Eis, portanto, o problema do mal apresentado em todo o seu rigor: como justificar o sofrimento de um homem que o próprio Javé sabe e proclama que é isento de todo pecado, justo e irrepreensível, e que não deveria, portanto, ser assim castigado, uma vez que o infortúnio é sempre apenas um castigo? De um lado, no decorrer do diálogo que compõe o livro, Jó não para de protestar sua inocência - e sabemos que ele diz a verdade! De outro lado, os três amigos que vieram encontrá-lo não cessam, alternadamente, de mostrar-lhe que a explicação de sua degradação é simples, conforme ao axioma teológico segundo o qual somente é infeliz aquele que mereceu seu infortúnio pecando: Jó é, portanto, culpado - e sabemos que eles estão errados! A discussão se prolonga, em vão, como todas as discussões humanas.

 

"Vou tapar a boca com a mão" (XL, 4)

 

Mas no fim Javé intervém e dirige-se a Jó, que, mais de uma vez, com veemência, lhe havia perguntado: por quê? E o que diz ele ao tomar a palavra "no meio de uma tormenta", como para fazer-se acompanhar do fenômeno natural que mais evoca sua formidável potência? Eis o início de seu discurso:

Quem é esse que escurece o meu projeto com palavras sem sentido?/ Se você é homem, esteja pronto: vou interrogá-lo, e você me responderá./ Onde você estava quando eu colocava os fundamentos da terra?/

Diga-me, se é que você tem tanta inteligência!/ Você sabe quem fixou as dimensões da terra?/ Quem a mediu com a trena?/ Onde se encaixam suas bases,/ Ou quem foi que assentou sua pedra angular,/ Enquanto os astros da manhã aclamavam e todos os filhos de Deus aplaudiam?/ Quem fechou o mar com uma porta, quando ele irrompeu, jorrando do seio materno?/ Quando eu coloquei as nuvens como roupas dele e névoas espessas como cueiros?/ Quando lhe coloquei limites com portas e trancas, e lhe disse:/ "Você vai chegar até aqui, e não passará. Aqui se quebrará a soberba de suas ondas?" (XXXVIII, 2-11)

Você já chegou até as fontes do mar, ou passeou pelas profundezas do oceano?/Já mostraram a você as portas da morte, ou por acaso você já viu os portais das sombras?/ Você examinou a extensão da terra? (XXXVIII, 16-18)

E assim sucessivamente, em 30 versos que passam em revista, em uma língua poderosa e esplêndida, cheia de incomparáveis imagens, o universo e seu povoamento de maravilhas inventadas, realizadas e dirigidas unicamente por Javé.

O que ele quer dizer? Entre os antigos semitas, os discursos eram preferencialmente mais sugestivos do que explicativos, um pouco como música, que é preciso sentir, mais que analisar, se quisermos receber a mensagem. Ao fim dessa longa tirada, na qual o autor se limita a pôr sob a responsabilidade de Javé o prodigioso espetáculo do mundo e o maravilhoso funcionamento da natureza, descritos com uma espécie de entusiasmo lírico admirável, e para os quais o homem em nada contribuiu e nem poderia fazê-lo, Jó compreende que nada mais lhe resta a não ser o silêncio:

"Eu me sinto arrasado. O que posso replicar? Vou tapar a boca com a mão." (XL, 4)

E, com efeito, não há nada a dizer. O papel de Javé é único: ele mesmo se encontra em posição demasiado alta; sua ação é a um só tempo formidável e incomparável o bastante para que o único sentimento que se possa experimentar diante dele seja o de aprovação e admiração, o que quer que ele faça! Não temos que colocar-lhe questões, fazer-lhe perguntas, e esperar respostas que, de resto, não entenderíamos. A única resposta ao grande "por que" que nos é colocado nos lábios pelo problema do mal, sob sua forma mais aguda, é que não há por que, pois ele seria dirigido a um ser ininterrogável, que em nada se assemelha a nós, e que nos é totalmente ocultado por sua própria transcendência.

Jó foi o primeiro a ir até o fim dessa noção tão familiar aos antigos semitas. Ele compreendeu que Deus não é maior, mais sábio, mais forte do que nós, o que suporia que é grande, sábio e forte como nós. Ele é algo completamente diferente, pertence a uma ordem de grandeza completamente diferente, isolado em sua esfera própria, que o subtrai a nossos questionamentos, mesmo diante de um problema tão agudo e escandaloso como o do mal: o do sofrimento do Justo - e da mesma maneira o da fortuna do Mau. Não temos meio de compreendê-lo: de modo algum se assemelha a nós e, de resto, não seria Deus se nos fosse compreensível e, portanto, acessível, o que o rebaixaria ao nosso nível. Resta-nos, portanto, apenas nos deixarmos levar por ele, onde e como ele quiser, admirando-o ainda mais na medida em que tudo o que faz, mesmo contra nós, nos excede completamente e não poderia ser mudado.

No livro de Jó, a transcendência tomou todo o seu sentido, pois, na visão dele, como na visão bíblica, não estamos mais diante de divindades múltiplas e antropomórficas, simplesmente alçadas à sua máxima grandeza por nossa imaginação, mas de um Deus absolutamente único, não muito maior do que nós, mas sem nada em comum conosco, de uma ordem completamente diferente da nossa.

Creio que, no plano religioso de um monoteísmo absoluto que é tradicionalmente o nosso, não há outra resposta possível ao mal e ao problema que ele nos coloca. E se Jó pôde percebê-la e formulá-la, foi porque vivia precisamente em pleno monoteísmo, o único sistema a introduzir, na religião, o absoluto. Jamais os grandes mesopotâmios, aqueles colossos de inteligência, poderiam ter ido tão longe; o livro de Jó é um dos cumes do pensamento religioso - poderíamos dizer da metafísica religiosa.

Civilização Hebráica - Religião
De Abraão à Moisés - a invenção de Deus

Somos, portanto, forçados a supor que os primeiros israelitas - antes da chegada de Moisés, a começar, naturalmente, pelo Pai deles, Abraão em pessoa - eram politeístas e compartilhavam uma religiosidade comum com os outros semitas e não semitas do Oriente Médio, e que, se eles mudaram de religião, abandonando todo um panteão de divindades antropomórficas por uma única, que absolutamente não o era, e apenas por Javé, foi pela intervenção de Moisés.

Civilização Babilônica - Cotidiano
Moral e ética na Mesopotâmia

Tinham os mesopotâmios uma moral? Se entendermos por esse termo o conjunto de regras que devem dirigir a atividade livre dos homens, então é claro que tinham uma moral! Ninguém pode viver normalmente sem que sua atividade livre seja orientada para uma certa felicidade, da coletividade ou de cada pessoa. Se bastasse responder sim ou não à pergunta que dá início a este artigo, ela já estaria inteiramente resolvida.

Civilização Hebráica - Cotidiano
A Sociedade hebraica
Distinguiam-se entre os hebreus duas classes de escravos: e escravo hebreu e o estrangeiro; a ambos assistiam certos direitos assegurados quer pela própria Legislação mosaica quer pelo costume. Assim, por exemplo, entre os direitos do escravo estrangeiro salvaguardados pela tradição judaica, podemos enumerar: casar-se com uma escrava, possuir bens, converter-se ao judaísmo, receber a liberdade, em determinadas circunstâncias. Dentre os povos da Antiguidade, os hebreus revelaram a melhor
Civilização Hebráica - Cotidiano
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Com relação a origem do povo hebreu, notemos, desde logo, que a emigração de Tare para Harran é um fato que quadra perfeitamente com o que as descobertas arqueológicas nos revelam sobre a História dessa região na época. A emigração dos tareítas de Ur a Harran não deve ter sido um acontecimento fora do comum, mas um simples episódio das estreitas relações que existiam entre as duas cidades. As tribos caldéias concentradas em torno de Ur dos caldeus eram etnologicamente afins daquelas tribos de
Civilização Romana - Cotidiano
Romanização do Ocidente
A organização política das províncias desenvolvidas se realizou sempre por meio das classes superiores existentes; podemos achar muitos exemplos de que as funções políticas e a munificência cívica foram sempre da velha nobreza das províncias. Em Leptis Magna (Tripolitania), o teatro mais antigo e quase todos os prédios públicos do século I foram erigidos por membros das famílias púnicas mais poderosas. Em Mediolano Santono, no Sudoeste da Galiza, o arco do triunfo erguido em 18 d.e.c. foi
Civilização Hebráica - Introdução
Legado Cultural hebraico
Na vida privada e na vida pública, o Decálogo tem ditado normas e costumes. A escuridão e ignorância em que se encontrava a maioria dos países ocidentais na Idade Média, causadas pela cegueira do cristianismo, influenciaram substancialmente no atraso da evolução da humanidade como um todo. Esse atraso decorrente das religiões monoteístas, só começou a se desfazer através do glorioso período do renascimento, onde o ocidente passou a valorizar o homem em detrimento de um deus monoteísta vingativo
Civilização Hebráica - Religião
Religião hebraica
O culto ao deus Seth ministrado pelos hycsos no delta do Nilo em meados do século XV a.e.c., é a provável origem da adoração de um deus único no Próximo Oriente; além do mais, o contato que esses asiáticos tiveram com o culto do deus egípcio, Aton, o disco solar, foi fundamental para o desenvolvimento de uma idolatria monoteísta em torno de Javé, o deus que acompanhou os hebreus expulsos do Egito pela 18ª Dinastia de Tebas. Do Egito, além do deus em que os hebreus agora cultuam, eles levaram
Civilização Hebráica - Artes
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Civilização Hebráica - Artes
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a grande obra arquitetônica de Israel foi o templo de Jerusalém, ponto em que se concentrou o pensamento religioso dos judeus durante muitos séculos. Construído primeiramente por Salomão, destruído por Nabucodonosor, reconstruído após o exílio da Babilônia sem os esplendores da construção salomônica, atingiu o máximo da magnificência sob Herodes, o Grande, que não poupou esforços para captar a confiança e a simpatia de Seus súditos judeus. Vamos estudar essa obra famosa em suas diversas fases
Civilização Hebráica - Direito
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A Lei Mosaica estava longe da perfeição. Promulgada para um povo que crescera em terra estranha e cada vez menos hospitaleira, que abandonara essa mesma terra para a árdua conquista de uma nova pátria, num ambiente hostil e rude em que a própria sobrevivência da nação dependia, muitas vezes, de medidas drásticas, tinha necessariamente que ser severa, inflexível e até mesmo rude. Acrescente-se que, a obra de Moisés sancionou antigos costumes do povo hebreu, costumes esses ligados a um fundo
Civilização Hebráica - Economia
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Os israelitas, ao chegarem à Terra Prometida, eram pastores nômades que, passando a uma vida sedentária, adaptaram-se, em breve, às fainas agrícolas. Durante muitos séculos, o camponês israelita cultivou a sua terra plantando cereais e árvores frutíferas e pastoreou seus rebanhos. Note-se, entretanto, que, embora as atividades rurais constituíssem a base da economia da Palestina, a indústria também conheceu um certo desenvolvimento. Uma descoberta arqueológica recente lança um pouco de luz nova
Civilização Hebráica - Geografia
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Note-se que na época de Davi e de Salomão as fronteiras do reino atingiram o Egito, ao sul, e o Eufrates a leste. O território palestino é cortado por uma longa depressão cujo declive se inicia cerca de mais de quinhentos e cinquenta metros sobre o nível do Mediterrâneo, atingindo, na embocadura do Mar Morto, a profundidade de quase quatrocentos metros abaixo do mesmo nível. Essa depressão, que constitui fenômeno geológico único no mundo, é percorrida pelo rio Jordão que divide assim a Palestina
Civilização Hebráica - Introdução
Fontes para o estudo de Israel
A Bíblia é a fonte por excelência para o conhecimento da História do Povo hebreu. A historiografia hebraica ocupa o primeiro lugar entre a literatura congênere dos povos orientais. Dentre todos os povos asiâtico-europeus, somente Israel e a Grécia possuem autêntica historiografia. Em Israel, que ocupa lugar privilegiado entre todos os povos civilizados do Oriente, a historiografia se originou em época tão remota que causa surpresa, e produziu logo de início obras de importância. Na Grécia surgiu
Civilização Hebráica - Introdução
Introdução ao Estudo de Israel
A História do Povo hebreu é sempre atual; e é atual não só por seu legado mas também porque o povo hebreu, disperso várias vezes no espaço e no tempo, é o único povo do Oriente Antigo que sobreviveu ao desmoronamento de milenares impérios e que, fato excepcional na História da Humanidade, reconstitui hoje sua vida politica nas mesmas plagas conquistadas ha milénios por seus antepassados. A influência do povo hebreu na Civilização Ocidental foi, em primeiro lugar, diretamente religiosa. Essa
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Primeira Guerra Mundial - A derrota britânica em Galípolli e a expulsão dos aliados do estreito de Dardanelos
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Os prazeres provenientes da dor, dos exercícios e da aceitação social no Sistema Nervoso
O exercício físico sustentado, seja correr, nadar, pedalar ou alguma outra atividade aeróbica, tem benefícios bem conhecidos para a saúde, inclusive melhorias no funcionamento dos sistemas cardiovascular, pulmonar e endócrino. O exercício voluntário também é associado a melhorias de longo prazo no funcionamento mental e é a melhor coisa que pode ser feita para reduzir o declínio cognitivo que acompanha o envelhecimento normal. O exercício tem um acentuado efeito antidepressivo. Ele amortece a resposta do cérebro ao estresse físico e emocional. Um programa regular de exercícios produz grande número de alterações no cérebro, inclusive novo crescimento e ramificação de pequenos vasos sanguíneos e aumento da complexidade geométrica de alguns dendritos neuronais. Exercícios físicos são associados a uma série de alterações bioquímicas inter-relacionadas, inclusive aumento do nível de uma proteína-chave chamada BDNF (fator neurotrófico deriva­do do encéfalo). Atualmente não se sabe muito bem quais dessas alterações morfológicas ou bioquímicas fundamentam os efeitos benéficos do exercício voluntário no funcionamento cerebral, mas trata-se de uma área que vem sendo ativamente pesquisada.
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Os corsários alemães da Primeira Guerra Mundial
Os cruzadores de batalha britânicos Invincible e Inflexible, já não mais necessários no Atlântico Sul, partiram de volta para casa quatro dias depois de destruírem a esquadra de Spee. Os navios que eles deixaram para trás se concentraram em perseguir o Dresden, que tinha retornado para o Pacífico depois de sobreviver à Batalha das Malvinas com a intenção de chegar às Índias Orientais. O Dresden conseguiu afundar apenas um navio mercante Aliado antes que problemas com o motor e a falta de carvão levassem seu capitão a solicitar internação em Más a Tierra (ilha Robinson Crusoé), nas ilhas Juan Fernandez, a 640 km da costa chilena. Em 14 de março de 1915, o Kent e o Glasgow o encontraram e abriram fogo, ignorando a internação, o que levou o capitão do Dresden a afundar seu próprio navio.
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Comportamento sexual, prazer e o sistema nervoso
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A Desgraça de Quetzalcoatl
A lenda de Quetzalcoatl, rei de Tula, é a mais controversa do arsenal mítico pré-colombiano. Mistura magistralmente confusa de história e mito, é uma dessas criações que, sendo antiquíssimas, parecem também saídas das páginas modernas de Mareei Schwob ou Jorge Luis Borges. Com seu enredo intrincado e seu jogo permanente de máscaras - Quetzalcoatl atua sob a forma de dois reis sucessivos (um deles utilizando uma máscara de verdade), o mesmo ocorrendo com seu rival Tezcatlipoca, que se utiliza dos disfarces mais variados para destronar o seu rival -, a saga da Serpente Emplumada já foi definida de quase todas as maneiras, desde mito ameríndio genuíno até uma engenhosa patranha piedosa inventada pelos frades espanhóis para combater a prática dos sacrifícios humanos.