Pré, Proto-História (246mil a.e.c.)
Idade Antiga (4000 a.e.c. - 476 d.e.c.)
Idade Média (476 - 1453 d.e.c.)
Idade Moderna (1453 - 1789 d.e.c.)
Idade Contemporânea (1789 - 1946 d.e.c.)
Era da Informação (1946 - Presente)
O Islã - E a formação da Europa de 570 a 1215 | 2009 |
FATOS D.E.C.
TEXTOS
Civilização Árabe
A origem do Islã e os primeiros conflitos com o ocidente
Civilização Romana
O Império Romano não acabou em 476
Todos Império Bizantino
Todos Textos
CIDADES
Trácia
Fundada em: 330 d.e.c.
Constantinopla
Bizâncio era uma antiga polis grega, ou cidade-estado, às margens do Bósforo, jamais de grande importância na antiguidade. Mas isso mudou quando o Imperador Constantino, o Grande (306-37), a restabeleceu como a nova capital imperial e a rebatizou como Nova Roma. Mas Nova Roma não pegou, ficando então conhecida como Constantinopla - a cidade de Constantino - em sua própria homenagem. Devia servir de fato como uma nova Roma, a partir da qual o Imperador podia inspecionar as mais vulneráveis
Baixo Egito
Fundada em: 304 a.e.c.
Heraklion
Cerca de 45km a ocidente de Alexandria fica Abu Sir, a antiga Taposiris Magna, importante cidade do período ptolomaico, que tem um templo inacabado em estilo egípcio. O muro da vedação é de calcário, em vez do tradicional tijolo, mas as técnicas de construção são as do tijolo. O lado oeste do muro de vedação tem a forma de um pilone de entrada. O templo não tem inscrições e não pode, portanto, ser datado com precisão. Ali perto encontrava-se uma vasta necrópole de animais, o que constitui mais
Todos Império Bizantino
Todas Cidades
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CIVILIZAÇAO
Vikings | Economia
O comércio dos vikings com bizâncio e o oriente

A rota da prata do Volga e o Califado Abássida

Embora as suas colônias na Rússia se convertessem num dos legados mais perduráveis da época viking, é pouco provável que os escandinavos tivessem a intenção de colonizar quando saíram pela primeira vez para percorrer os rios da Europa Oriental. O seu objetivo foi sempre chegar a Bizâncio, a cidade fundada pelo imperador Constantino no ano 330. O império Romano e a própria cidade de Roma tinham caído sob o ataque cada vez mais implacável das tribos barbaras nômades da Europa Central no século V, e no final do século VI, e durante o século VII, o centro do poder se tinha mudado para o Mediterrâneo Oriental. Bizâncio tinha substituído Roma como capital do império decapitado. Na época viking, a cidade atravessou o Bósforo, tornando-se uma urbe imponente, e seria a maior povoação que os escandinavos jamais tinham visto. As grandes muralhas de pedra da cidade, as suas magnificas catedrais e igrejas, os seus bazares exóticos e, sobretudo, a esplendida corte do imperador bizantino impressionaram os visitantes nórdicos, e estes a chamaram simplesmente Mikligardr (a grande cidade).

Bizâncio atraía os escandinavos por várias razoes. Primeiramente, e acima de tudo, era um caminho para o comercio e à riqueza. À cidade chegavam mercadorias do Mediterrâneo Oriental, do Norte da África e das grandes extensões asiáticas. Ali os vikings podiam conseguir sedas e bordados, frutos exóticos e vinhos, especiarias e joias requintadas. Encontraram-se abundantes provas deste comercio na Escandinávia e em todo o mundo viking. Por exemplo, acharam-se tecidos de Bizâncio até na Inglaterra. A analise de pedaços de seda encontrados em duas povoações do século X, um em York e o outro em Lincoln, demonstrou até que pertenciam ao mesmo fabricante. Em troca desses produtos luxuosos, os vikings comercializavam peles dos bosques nórdicos e outras mercadorias que incluíam escravos.

O império oferecia outras possibilidades para os guerreiros que tinham navegado nas suas chalupas, por vezes a remo e outras tendo de reboca-los, através da Rússia e da Ucrânia. Era necessário um continuo fornecimento de soldados para os exércitos que estavam lutando nas fronteiras do império ou mantendo a paz dentro deste. Os bizantinos reconheceram as qualidades dos combatentes vikings desde o principio, e no final do século X a guarda pessoal do imperador era inteiramente composta de mercenários escandinavos, que ofereceram a sua lealdade em troca de prata e de uma posição privilegiada na corte imperial. Pode até ter sido um desses homens, Halfdan, quem gravou seu nome em caracteres rúnicos numa balaustrada da grande basílica de Hagia Sophia (depois uma mesquita, agora um museu), em Istambul.

Os "guardas varegues", como se chamavam, eram famosos pelo seu gosto pela bebida e pelos seus terríveis machados de combate; ser membro da guarda converteu-se num escalão reconhecido na carreira de muitos vikings famosos. Um dos mais conhecidos foi Haroldo Hardradi da Noruega (1015-1066), que foi um notável capitão de guardas e lutou vários anos na Sicília, na Itália e na Bulgária. Segundo as sagas, disse-se que Haroldo Hardradi teve uma aventura com a imperatriz e participou de um golpe de Estado com exato; não teria sido o único escandinavo envolvido na politica bizantina. Pelo menos em duas ocasiões os escandinavos lutaram contra o império, quando as frotas guerreiras de Kiev atacaram as muralhas de Bizâncio no final do período viking. Em uma ocasião, o príncipe russo até cravou o seu escudo nas portas da cidade, fazendo uma demonstração plástica do seu desprezo pelo poder do imperador e dos bizantinos que estavam refugiados lá dentro.

O significado exato do nome "varegue" (varjagi nas fontes russas, varangoi nas gregas bizantinas) aplicado aos vikings orientais não está muito claro. Aparece junto ao reis nas fontes, mas parece ter sido uma associação mais guerreira que este ultimo termo. Os varegues aparecem como mercenários e guarda-costas dos principes russos nos séculos XI e XII, e houve tentativas de fazer remontar a palavra ao termo escandinavo vár, que significa um voto de lealdade muito apropriado para soldados profissionais. Em Staraya Ladoga, um nome de estrada que data dos tempos medievais e continua a ser usado hoje em dia significa "rua do varegue" e pode indicar que se tratava de um bairro escandinavo da povoação. Numa demonstração palpável do lugar perdurável dos escandinavos na consciência popular do leste, um dos maiores porta-aviões da primeira esquadra soviética recebeu o nome de "varegue".

Para um maior conhecimento da rota fluvial concreta que os vikings tomavam ate o mar Negro, devemos recorrer às fontes bizantinas e, em particular, a um documento secreto do imperador Constantino Porfirogeneta, que resume as estratégias de politica exterior em meados do século X. Ele menciona os reis nórdicos, considerando-os apaziguadores contra a agressão das tribos eslavas hostis. A arriscada viagem que os escandinavos faziam, descendo pelo Dniepre todos os meses de junho quando o gelo já se tinha derretido, volta com forca a vida quando lemos como conduziam os seus barcos, confrontando-se com sete fortíssimas corredeiras e defendendo-se dos ataques dos bandidos eslavos. Até na fonte grega, todas as corredeiras tem nomes escandinavos reconhecíveis e descritivos: Essupi (o Devorador), Baraforos (a Força das Ondas), Strukun (o Corcel), Gelandri (o Grito Grande), Uvorsi (o Fosso da Ilha), Leanti (o Risonho). O nome que se deu a uma das corredeiras, Aifur (Sempre Ruidoso), encontra-se numa das pedras rúnicas suecas de Pilgàrds, na Gotlandia, erigida em memoria de um homem chamado Hrafn pelos seus quatro irmãos que o acompanharam em uma expedição ao oriente. As inscrições rúnicas suecas contem varias referencias à rota fluvial a Bizâncio. Algumas das recordações mais perduráveis do impulso viking para oriente se encontram em tributos a pessoas como Spialbodi, "que encontrou a morte em Novgorod" (pedra rúnica de Sjusta, em Uppland), e Rognvald, "chefe de uma tropa de homens na Grécia" (Ed en Uppland).

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A rota da prata do Volga e o Califado Abássida

Enquanto alguns suecos faziam a viagem para sul de Staraya ate a Rússia e descendo o Mar Negro, outros seguiam uma rota ainda mais ambiciosa, que ia diretamente para oriente, para as terras das tribos búlgaras, os nômades khazars, e finalmente para os desertos da Arábia e para a sede do califado de Bagdá. Depois do lago Ladoga, esses viajantes entravam no Alto Volga, passando por povoações em Beloozero, Jaroslavl, Vladimir e Murom; foram encontrados artefatos escandinavos em todos esses lugares. Pode ser que os escandinavos tenham viaja do em grupos familiares, mais que em expedições de mercadores solitários, a julgar pelo numero elevado de túmulos de mulher que foram encontrados ao longo da rota; nem sequer há razoes para excluir a possível presença de comerciantes femininos. O Volga forma um grande meandro no Bulgar (junto à localização da cidade moderna de Kazan) quando se desvia para sul ate o mar Cáspio. Este marca o extremo oeste da Rota da Seda, a rota comercial terrestre que passava por Sarabanda e Tashkent e chegava à China. Ali se tinha desenvolvido um grande centro mercantil controlado pelas tribos eslavas. Sabemos que os comerciantes escandinavos tiveram de se encontrar com as caravanas que percorriam a Rota da Seda, porque foram encontradas sedas chinesas em túmulos de Birka, na Suécia Central. Estes achados, juntamente com a estatua de Buda, encontrada no sitio pré-viking de Helgo, até nos podem permitir especular sobre a extraordinária possibilidade de que os escandinavos tenham viajado até a China ou ate o subcontinente indiano.

Bulgar era o primeiro dos mercados em que os escandinavos encontravam os artigos de prata maciça do mundo Árabe. O comercio no Volga pode ter começado já no século VIII, com os acordos entre o Califado Abássida e as tribos khazars do Baixo Volga. Os Abássidas assumiram o poder no mundo islâmico por volta de 750, apoiando a revolta popular contra as injustiças da família que governava anteriormente, os Omiadas. Depois de rejeitar a antiga capital de Damasco, na Síria, como uma fortaleza dos Omiadas, a nova dinastia estabeleceu finalmente a sua base de poder em Bagdá, às margens do rio Tigre, no Iraque moderno. No inicio da época viking, a cidade tinha-se expandido muito, prosperando com as enormes reservas de prata dos domínios do califado. As minas principais encontram-se no Afeganistão e foram descobertas no século IX, junto com as fontes mais ricas no vale de Panshir. Foram localizadas outras minas na Ásia Central, onde hoje ficam o Uzbequistão, o Quirguistão e o Tajiquistão. A produção era enorme: a maior parte da prata era transformada em moedas, e até a relativamente insignificante mina de Radrad, no Iêmen, produzia prata suficiente para cunhar um milhão de moedas por ano. Os Abássidas tornaram-se muitíssimo ricos com o comercio da prata, que chegava ate a Índia, o Sri Lanka, a China e a Pérsia. Os vikings parecem ter começado a aproveitar as fontes de prata árabes no inicio do século IX, adquirindo moedas, que tinham sido cunhadas algumas décadas antes. Tornou-se o seu metal mais apreciado, e o seu apetite pela prata foi enorme. Foram encontradas mais de 60.000 moedas árabes em mais de 1.000 tesouros só na Escandinávia, junto com muitas outras nas colônias vikings. Está claro que só se guardava uma proporção pequeníssima da prata importada em forma de moedas; a maior parte era fundida e refundida em barras ou em joias. Os vikings compravam a prata com artigos parecidos com os que comercializavam em Bizâncio: peles, escravos, falcões, mel, machados, marfim de morsa e espadas de aço.

A partir do mercado de Bulgar, a rota fluvial do Volga penetrava nas terras dos nômades khazars. A sua capital era Itil, nas margens do mar Cáspio, e eles controlavam todo o território por onde passava o caminho para o sul da rota do Volga. A politica dos califas tinha todo o interesse em gerir melhor as saídas para a prata devido à concorrência dos mercados de Bulgar e Khazar, e tanto o califado como os mercados do norte desejavam manter boas relações com os khazars. As influencias khazars chegaram até a Suécia, onde algumas modas em joalharia e roupa intima refletiam gostos orientais. Isto é evidente, por exemplo, em muitos dos objetos encontrados em túmulos de Birka. Alguns dos objetos de inspiração oriental, como antes retorcidos e entrançados que são normalmente encontrados, foram adotados por toda a Escandinávia. De Itil, os navegantes vikings podiam cruzar o mar Cáspio e prosseguir por terra ao longo da rota de caravanas, de Gorgan a Bagdá e a corte do califa. Foram encontradas, de novo, na Escandinávia artefatos que só podiam proceder do centro do Califado, os quais incluíam alguns exemplares de cerâmica árabe especialmente belos. Nem todas as viagens dos escandinavos para o Oriente foram pacíficas, ou feitas apenas com propósitos comerciais. Os invasores vikings empreenderam varias expedições na região, as quais incluem um ataque importante a Baku e às margens do mar Cáspio em 912.

O comercio da prata com os Abássidas foi diminuindo progressivamente durante o século IX, quando as minas se esgotaram e o Califado ficou destroçado pelas guerras civis, pelas campanhas externas e pela sangria de uma série de projetos de construção esbanjadores, como a cidade real de Samarra. Esta ocupava uma extensão de 35 quilômetros ao longo das margens do Tigre, e demorou 46 anos para ser construída. Em 892, o tesouro abássida estava vazio, mas descobriram-se, a essa altura, novas e imponentes fontes de prata no Afeganistão, e a economia árabe se foi recuperando lentamente. Os clientes samânidas que governavam a Transoxiânia, a região que incluía as grandes cidades comerciais de Samarcanda ao norte do rio Oxus (Amu Darya), rapidamente começaram a produzir enormes quantidades de moedas, que chegaram a Rússia e ao mundo viking. Depois do começo do século X, moedas procedentes dessas fontes mais a oeste são mais abundantes que as pertencentes a primeira fase de produção de prata no século IX. Só na Rússia, foram recuperadas de tesouros varias centenas de milhares de moedas árabes. Essa exportação de prata ainda a maior do califado continuou de modo quase constante até 965 aproximadamente, quando, por sua vez, as minas samnitas se esgotaram. Embora ainda circulassem moedas procedentes do leste na Escandinávia nos anos 980 e 990, os vikings tinham começado a fixar-se em fontes europeias para o seu abastecimento de prata, especialmente nas novas minas das montanhas de Harz, na Alemanha Central.

Em 1015 a importação de prata árabe tinha cessado completamente, e o laço com o Oriente estava quebrado. Durante a época de expansão do comercio da prata, o Califado Abássida enviou muitos mensageiros diplomáticos e mercantis às terras nórdicas para negociar condições comerciais e explorar novos mercados. Aqueles embaixadores do islamismo eram muitas vezes homens de grande educação e conhecimento, e deixaram registros pormenorizados das suas viagens. As primeiras impressões de Ibn Fadlan sobre um grupo de comerciantes escandinavos com que tratou em 922 merecem ser citadas pela sua surpreendente declaração de testemunha ocular, cujos pormenores concordam muito bem com as provas arqueológicas sobre os vikings

"Vi os rús quando chegaram na sua viagem comercial e acamparam no Volga. Nunca vi exemplares físicos mais perfeitos, altos como palmeiras, louros e corados; não usam túnicas nem cafetãs, mas os homens vestem uma peça de roupa que cobre um lado do corpo e deixa a mão livre. Cada homem tem um machado, uma espada e uma faca, que levam sempre consigo [... ] . Todas as mulheres trazem no peito uma caixa de ferro, prata, cobre ou ouro [...] cada caixa tem uma anilha a que esta agarrada uma faca. As mulheres usam colares de ouro e de prata [...] os seus adornos mais apreciados são contas de vidro verde."

Depois de descrever as oferendas feitas aos deuses pagãos por essa gente, aparentemente rude, com a esperança de fazer bons negócios, Ibn prossegue citando a oração pragmática de um aventureiro viking.

"Gostaria que me enviasses um comerciante com muitos dinares e dirhames, que me compre tudo o que eu quiser e não discuta nada do que eu diga."

Parece ironia que as descrições contemporâneas mais pormenorizadas que temos sobre os vikings venham da periferia do seu mundo. As fontes árabes proporcionam-nos uma informação incomparável da vida diária dos escandinavos que viajavam - as suas roupas e modas, comportamentos, ritos funerários e guerras -, fazendo da expansão viking para o oriente um dos acontecimentos mais extraordinários da época.

Império Bizantino | Religião
Ícones cristãos no governo de Justiniano I

Havia um claro entusiasmo na corte imperial por imagens cristãs, ou ícones. Justino II tinha um famoso ícone de Cristo, que fora guardado na cidade capadocia de Kamoulianai e levado para Constantinopla em 574. Segundo a crença popular, tratava-se de uma imagem milagrosa do tipo conhecido como acheiropoietos (arqueopoetas, feitas não por mãos humanas, mas criadas por revelação divina). A mais famosa relíquia foi o Mandylion de Edessa, um pano com a impressão da face de Cristo. A lenda dizia que o soberano de Edessa pedira a Cristo seu retrato. Ele logo o obsequiou, deixando miraculosamente suas feições num guardanapo que usara para enxugar o rosto. A imagem de Kamoulianai seria no devido curso usada como um estandarte de batalha nas guerras contra os sassanidas.

A adoção de ícones como símbolos do estado em fins do século VI foi outro sinal da transformação do Império Romano num império cristão, mas também um sinal da conseqüente transformação do cristianismo. A Igreja primitiva via com muita desconfiança as imagens religiosas. Os cristãos limitavam-se a um repertório muito limitado, tomado de empréstimo aos judeus e aos pagãos. Só após a conversão de Constantino, a arte crista passou a ganhar merecida fama, mas continuou havendo intensa suspeita da arte para uso pessoal, pois se aproximava demais da idolatria. A irmã de Constantino consultou Eusebio de Cesareia sobre a aquisição de uma imagem de Cristo para devoção particular. O clérigo repreendeu-a, porque agora que Cristo reinava em glória, só deveria ser contemplado na mente. Mesmo a decoração publica das igrejas mereceu reprovação de Epifanio de Salamina (m. em 403), um dos mais respeitados Padres da Igreja. Ele temia que o gosto popular por imagens fosse um meio pelo qual pudessem se infiltrar no culto cristão as práticas e a maneira de pensar pagãs.

Outros, contudo, começavam a aceitar que a decoração das igrejas cumpria uma útil finalidade como os "livros dos analfabetos". O valor das imagens também ficou visível com o crescimento de cultos a vários santos em conseqüência da conversão de Constantino. As vezes fixavam-se nas relíquias do santo, mas também exigiam a visualização do santo em plena flor da vida. Em um sermão sobre S. Teodorico, o Mono, Gregório de Nissa (m. c. de 395) imaginou a reação daqueles que vislumbravam as relíquias do santo: "Abraçavam-nas como se fossem o próprio corpo vivo em plena flor; movimentavam os olhos, a boca, os ouvidos, todos os sentidos. Depois, com lagrimas de reverencia e paixão, dirigiam ao mártir sua oração de intercessão, como se ele estivesse são e presente". Gregório observou que em volta da sepultura havia imagens do santo. Podia-se dar as imagens maior validade acrescentando-se um pouco da poeira das relíquias na pintura. Assim como as curas eram muitas vezes realizadas bebendo-se uma gota de água misturada com poeira das relíquias, também lemos nos Milagres de São Cosme e São Damião sobre uma mulher que raspou um pouco da pintura de um retrato dos santos, misturou-a com água e ficou curada de sua enfermidade.

Na pratica, houve a princípio algumas hesitações sobre o papel das imagens no culto de um santo, como vemos da Vida de São Daniel, o Estilita. Ele foi um homem santo sírio que passou a desempenhar influente papel na vida religiosa e política da Constantinopla de meados do século V Rejeitou furioso a tentativa de um dos seus admiradores de erguer sua imagem numa capela privada e escrever uma história de sua vida enquanto vivo. Mas aceitou satisfeito uma imagem de prata de si mesmo pesando mais de cinco quilos como oferenda de agradecimento de uma família que curara. A diferença parece estar em que na primeira ocasião o santo achou que o admirador tentava assumir o controle da santidade dele, enquanto na segunda a imagem foi colocada numa igreja dedicada ao seu culto. Esses episódios revelam que em meados do século V a imagem tinha um papel - talvez ligeiramente controverso - a desempenhar na promoção do culto dos santos.

Todos os indícios sugerem que a decoração figurativa das igrejas e o surgimento de retratos individuais de Cristo, sua mãe e seus santos foram ocorrências naturais e espontâneas, que se tornaram parte aceita da pratica da devoção cristã a partir de fins do século IV. Mas mesmo no inicio do século VI, continuava a haver dúvidas na hierarquia eclesiástica quanto a validade dessa pratica. Gerou inquietação a forma como as pessoas penduravam pinturas e talhas nos santuários das igrejas, e com isso "mais uma vez perturbavam a tradição divina". No entanto, o consenso era o de que serviam a útil finalidade de instruir os analfabetos. Os cultos, por outro lado, extraiam mais dos "textos sagrados", vistos como tendo valor espiritual superior.

Os indícios também sugerem que o longo reinado de Justiniano foi um momento decisivo nas atitudes oficiais para com a arte religiosa. Nos primeiros anos, continuou havendo desconfiança da arte figurativa; já quase no final de seu reinado, ela passava a infiltrar todos os aspectos da prática da devoção crista. A aprovação oficial agora se estendia aos ícones: pinturas individuais de Cristo, sua mãe e seus santos. As vezes faziam parte da decoração de uma igreja maior, mas também podiam ser o foco de devoções privadas, mesmo se expostas em lugar público, como ocorreu com certas imagens especiais mantidas em igrejas e mosteiros. Foi o ícone, mais que todo o impetuoso movimento da arte cristã, que suscitou a questão da legitimidade da arte na prática da devoção cristã, porque os perigos de descambar na idolatria se evidenciavam mais com os ícones.

Quase não sobreviveram os primeiros ícones, com a exceção de alguns relacionados com o Sinai e Roma. Estes em geral usavam a técnica de encáustica (pintura baseada no uso de pigmentos e cera tratados a quente, caracterizada pelo efeito translúcido que produz), privilegiada na pintura clássica que desapareceu a partir do século VIII. Portanto, podemos ter razoável certeza de que os ícones em que é empregada remontam aos séculos VI e VII. São com freqüência belíssimos e continuam as mais elevadas tradições do retrato clássico, mas temos de recorrer as fontes escritas para descobrir suas finalidades e sua aura.

Dificilmente e uma coincidência o fato de que, a partir de fins do século VI, várias fontes comentavam os ícones como se fossem uma parte aceita da religiosidade e culto cristãos, enquanto antes só se faziam referencias esporádicas. Não é de admirar que a hagiografia de uma ou de outra forma forneça a maior parte da informação, em vista das estreitas relações que existiam entre os ícones e o culto dos santos.

A mais esclarecedora peça de hagiografia para nossos fins é a Vida de S. Teodoro de Sicião. Ele nasceu na Galácia, no inicio do reinado de Justiniano, e morreu em 613. Sua vida foi escrita logo depois por um de seus seguidores. Destinava-se a preservar sua memória e promover seu culto. Não era uma história, mas, como ocorre com a hagiografia, contem muita coisa no que diz respeito a detalhes incidentais. Não dá ênfase alguma a imagens; dá muito mais ênfase ao ascetismo do santo, a seu papel como homem santo e curador, as visões, as procissões e peregrinações, a importância da Eucaristia. Há em todo o texto apenas seis episódios envolvendo imagens, mas são instrutivos e revelam que os ícones se haviam tornado o acompanhamento natural de muitos aspectos do culto religioso cristão. Aos doze anos, Teodoro foi vítima da peste. A família desesperou-se pela vida dele e arrastou-o para uma igreja local, onde o deitaram a entrada do santuário. Acima havia uma imagem de Cristo, da qual gotas de umidade caíram nele e realizaram uma cura milagrosa. Alguns anos depois, Teodoro tinha a maior dificuldade para decorar o Salterio. Nem sequer a tranqüilidade de uma capela lhe trouxe auxilio. Ele se atirou ao chão diante de uma imagem de Cristo e pediu-lhe ajuda. No mesmo instante, sentiu uma doçura na boca, que reconheceu como a graça de Deus, e a engoliu como se participasse da Eucaristia. Não teve mais o menor problema em aprender o Salterio.

Associavam-se os ícones a outros fenômenos religiosos, como visões. Assim, Teodoro jazia doente na cama. Na parede acima, havia um ícone dos santos médicos Cosme e Damião. Ele começou a delirar e viu os santos saírem andando de seus ícones. Examinaram-no da forma como faria um médico. Ele implorou-lhes que intercedessem em seu nome junto ao rei, que era, claro, o próprio Cristo, A intervenção deles funcionou e Teodoro ficou curado. Na virada do século VI, as imagens também faziam parte da parafernália de peregrinação a vários santuários. Teodoro partiu em peregrinação à cidade pisida de Sozopolis. Sua principal atração era um ícone milagroso da Mãe de Deus, que borrifava mirra. Teodoro pês-se diante do ícone e seus olhos e rosto encheram-se de mirra. Os espectadores tomaram isso como um sinal de que ele era um valioso servo de Deus.

Essa era uma forma pela qual um ícone confirmava a santidade. Outra era mandar pintar um ícone do santo, como fez em agradecimento algum curado por Teodoro. Mais revelador e um incidente que ocorreu quando Teodoro se achava hospedado num mosteiro em Constantinopla. Já tinha uma reputação que se estendia longe como milagreiro. Os monges quiseram uma lembrança da estada do grande homem com eles, por isso, contrataram um pintor, que fez o esboço do santo pelo buraco da fechadura de sua cela. Quando Teodoro ia partir, o abade pediu-lhe que abençoasse o ícone que fora feito. O santo sorriu e disse: "Es um grande ladrão, pois que fazes, alem de roubar alguma coisa?" Achou que o ícone roubara alguma coisa de sua virtude, embora ficasse mais lisonjeado que ofendido. Deu sua benção e foi embora. O sentido desse incidente torna-se ainda mais claro com um episodio de outra Vida contemporânea, a de S. Simeão Estilita, o Mono, que morreu em 592. Uma de suas devotas pendurou um ícone do santo em casa, onde "fazia milagres, sendo ensombrado pelo espírito santo que morava no santo".

Outros episódios da Vida de S. Teodoro de Sicião são cotejados em outra hagiografia dessa época, os Milagres de S. Demetrio. O culto a Demetrio, santo padroeiro de Tessalonica, concentrava-se num cenotáfio na cripta de sua igreja. Uma imagem do santo teve de servir como relíquia, pois as suas notoriamente jamais foram encontradas. Seus Milagres contem a história de que alguns homens viram o santo cavalgando em socorro de sua cidade, com a mesma aparência que exibia nos icones, como forma de autentificação. Em outra visão, descreveram-no como "usando uma toga e exibindo uma fisionomia rósea e amável, distribuindo seus favores às pessoas como um cônsul a quem o Imperador delegara plenos poderes". É exatamente assim que aparece num dos painéis sobreviventes que decoravam a nave de sua igreja. Também há ícones do santo nos pilares da nave, quando nos aproximamos do santuário. Mostram-no com seus devotos; um talvez seja o Arcebispo João, que, na virada do século VI, foi responsável pela compilação do primeiro ciclo dos seus milagres. Os mosaicos sobreviventes da Igreja de S. Demetrio em Tessalonica são provas do lugar que teve a imagem no desenvolvimento do culto de um santo local.

A imagem, contudo, não era apenas essencial ao culto dos santos; também parecia unificar todas as facetas da prática religiosa cristã em Bizâncio. Podia ser usada para comunicar o sentido da fé em seus diferentes aspectos. O papel essencial que passaram a assumir as imagens era enfatizado pela maneira como algumas adquiriam poderes miraculosos. Um resultado extraordinário, mas bastante lógico, assim que se aceitou que a imagem oferecia um meio de comunicação com o mundo espiritual. A comunicação é um processo de mão dupla, portanto era razoável supor que em alguns casos as imagens talvez fossem um veiculo para a ação da graça divina neste mundo. Isso era levado a sua conclusão lógica com a suposição de que alguma coisa do poder especial do santo fosse inerente a sua imagem.

Sena difícil separar uma visão como essa das suposições pagãs sobre o papel dos objetos de culto. Foi portanto normal ver a ascensão do culto das imagens na Bizâncio do século VI como parte do ressurgimento de padrões de pensamento mais antigos e de origem muito popular. Tem de haver alguma verdade nisso. Contudo, sabe-se ao certo que em meados do século VI a promoção das imagens foi obra da elite. O historiador Agatias deixou um epigrama num ícone do Arcanjo Miguel. Na certa foi uma oferenda de agradecimento feita quando ele fazia as provas finais na década de 550. Parte de seu interesse está na forma como justifica o lugar que assumiam os ícones nas devoções privadas. Agatias afirmava que a "arte consegue por meio das cores agir como uma balsa para a prece do coração". Admitia a existência de um elo no processo de intercessão, por "dirigir a mente a um estado de imaginação mais elevado". Em poucas frases elegantes, Agatias apresenta a chamada justificação "anagogica" para as imagens: a idéia de que a arte pode agir como um meio de acesso a coisas mais elevadas.

O corolario disso era que a reverência não ia para a própria imagem, mas para a realidade por trás da imagem. Agatias manifesta a empolgação sentida por um jovem intelectual da época de Justiniano com a possibilidade de o ícone abrir um caminho de comunicação que outrora fora reserva dos místicos e dos ascetas. Agatias teve pouca dificuldade em misturar o entusiasmo pelas mais recentes formas da religiosidade erista com a exibição de tradicionais talentos literários. Desse modo, o reinado de justiniano foi um ponto de equilíbrio. A cultura clássica continuou, mas a experimentação que prosseguiu em tantos campos logo iria revelar como se tornava irrelevante. Os temas da arte clássica ficaram reduzidos ao kitsch e seu pensamento a um topos ampliado.

Em nenhum outro lugar isso foi mais claro que na arte imperial. A antiga imagística imperial continuou, mas pareceu cada vez mais obsoleta, pois não integrou a autoridade imperial numa prescrição especificamente cristã. Justiniano reagiu elaborando novos temas de arte imperial. Incorporou à devoção ao culto dos santos que fora uma característica da família imperial desde o século V O Imperador Leão I homenageou a Mãe de Deus, acrescentando uma capela-relicario a sua igreja de Blaquerne para abrigar seu veu. Aeima da preciosa reliquia, pos uma imagem de Maria mostrando o imperador acompanhado de sua família. Isso numa época em que continuava havendo oposição ao uso das imagens de alguns setores da hierarquia eclesiástica. Mas foi menos importante que a necessidade sentida pelo imperador de associar-se a uma nova forma de poder, neste caso o culto da Mãe de Deus. Uma imagem foi o meio mais óbvio de ele proclamar sua fidelidade. Os primeiros passos hesitantes para criar uma imagística imperial mais relevante foram assim tornados em meados do século V.

O exemplo de Leão I sugere que pela associação de si mesmo com sua família ele agia mais numa condição pessoal do que apresentando toda a face da autoridade imperial romana. Mas isso é exatamente o que mostram Justiniano e Teodora nos famosos painéis no santuário da Igreja de San Vitale em Ravena. De um lado, vê-se a representação de Justiniano e sua corte; no outro, a de Teodora e a dela. Ambos são mostrados em procissão. Justiniano esta rodeado de clérigos, um dos quais identificado como Maximiniano, Arcebispo de Ravena, e, cobrindo a retaguarda, membros da escolta imperial. O Imperador aperta uma patena na mão. Teodora, acompanhada de suas damas de honra, segura um cálice. A saia de seu manto é bordada com figuras dos Reis Magos. Acha-se sob um dossel e a direita um criado afasta uma cortina e revela um pátio com uma fonte. Essas cenas são mais bem interpretadas como uma versão idealizada da cerimônia da Grande Entrada, quando um imperador e uma imperatriz entram na Igreja de Sta. Sofia com presentes, como os Reis Magos. O significado dos painéis era que Justiniano e Teodora também participavam no plano místico da liturgia da Igreja de San Vitale. A igreja foi planejada como uma declaração da ortodoxia dirigida contra a ocupação ariana de Ravena pelos ostrogodos. A principal igreja ariana (hoje chamada San Apouinare Nuovo) mostrava originalmente ao longo das paredes da nave procissões lideradas pelo rei ostrogodo Teodorico e sua rainha. Os painéis de Justiniano e Teodora foram desenhados para opor-se a isso. O trabalho na Igreja de San Vitale talvez tenha começado na decada de 520, quando Ravena ainda era a capital ostrogoda. Só foi consagrada em 547. Por volta dessa época, Ravena retornara ao dominio bizantino. Os painéis, portanto, adquiriram importância extra: proclamavam que se restaurara o governo ortodoxo.

É possível rejeitar os painéis de Justiniano e Teodora como experimentação, mas eles indicaram a forma como se dava novo sentido a imagem e ao cargo imperiais, associando-os inequivocamente com Cristo, que dá abside preside em majestade a Igreja de San Vtale. A autoridade imperial era um reflexo da divina, assim como a ordem terrena era um reflexo da celestial. Em termos paradoxais, tanto a arte quanto a literatura retratam o céu como um reflexo do palácio imperial.

A idéia de que este mundo é de algum modo um reflexo sombrio e distante das perfeições do mundo celestial é mais bem captada pelas obras de arte, que serviam como transmissoras das orações dos fieis e para responder aos sinais enviados de cima para baixo. Longe de ser uma vitoria da superstição ou do revanchismo pagão, o triunfo do ícone do século VI entremeou-se com a cristalização de uma civilização bizantina. Oferecia o melhor meio de expressar os fundamentos de uma nova ordem e de uma nova visão. Fixava-se numa autoridade imperial de inspiração divina, numa capital imperial sob proteção divina e em uma Igreja em que céu e terra se misturavam. Marcava-o um profundo senso de ordem e hierarquia, que foi mais bem transmitido pelo ritual e pela arte. Isso foi a essência da realização de Justiniano.

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