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Eridu
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Criando a primeira cidade da humanidade

Eridu é o Éden mesopotâmio, o lugar da criação. Este é o começo de uma história que relata como o deus babilônio Marduk criou o mundo:

Uma casa sagrada, uma casa dos deuses num lugar sagrado não tinha sido feita, juncos não tinham crescido, uma árvore não fora criada, Um tijolo não fora assentado, um molde para tijolo não fora construído, Uma casa não tinha sido feita, uma cidade não fora construída, Uma cidade não tinha sido feita, uma criatura vivente não fora colocada (aí).

(...)

Todas as terras eram mar.

A fonte no mar era um cano de água.

Então Eridu foi feita, Esagila foi construída,

Esagila cujos alicerces Lugaldukuga assentou dentro do Apsu.

(..)

Os deuses, os Anunnaki ele criou iguais.

A cidade sagrada, a morada do prazer para seus corações, assim solenemente a chamaram.

Marduk construiu uma armação de junco na superfície das águas.

Ele criou o barro e despejou-o na armação de junco.

Para instalar os deuses na morada do prazer para (seus) corações.

Ele criou a espécie humana.

Esta narrativa é um mito de origem — como foi criado o mundo que o povo mesopotâmio conhecia, uma prerrogativa que homologa a noção de cidade como lugar sagrado, se bem que, ao mesmo tempo, o mito se refira a uma cidade em particular, Eridu. O tempo anterior à criação é descrito como uma ausência de todos Os traços característicos da vida civilizada, tal como os mesopotâmios a conheciam. No meio do mar primevo são “feitos” — ou melhor, concebidos através de um ato de pensamento divino que deflagra o processo de criação — Eridu, a primeira cidade, e Esagila, o grande templo de Marduk em Babilônia. À semelhança dos moradores dos pântanos do Iraque meridional, que ainda constroem suas cabanas em ilhas flutuantes de junco, o deus despeja lama numa armação de junco para moldar uma plataforma. A partir dessa base primordial, bastante frágil, tiveram seu começo as cidades e seus templos. Daí em diante, os deuses tomaram residência na terra e viveram em cidades. E porque os deuses têm em cidades a morada para “deleite de seus corações”, as cidades da Mesopotâmia são sempre sagradas.

Assim, o Éden mesopotâmio não é um jardim, mas uma cidade formada de um pedaço de terra seca cercado pelas águas. O primeiro edifício é um templo. Depois é criada a humanidade para prestar serviço a deus e ao templo. Eis como a tradição mesopotâmia apresentou a evolução e a função das cidades, e Eridu fomece o mítico paradigma. Ao contrário do Éden bíblico, do qual o homem foi banido para sempre após a Queda, Eridu permaneceu como um lugar real, imbuído de caráter sagrado mas sempre acessível. E digno de nota o forte sabor local dessa narrativa mítica, com suas referências as condições particulares da região, e que 5se6 pode ser entendida se considerarmos o cenário no qual Eridu se integra.

Eridu é o antigo topônimo de um lugar hoje conhecido como Abu Shahrein. A etimologia da palavra Eridu é desconhecida e pode muito bem pertencer a um substrato lingüístico de uma antiga cultura pré-sumeriana. Os sumérios escreveram-na com o signo NUN, que lembra alguma espécie de árvore ou até mesmo um junco.

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Localização geográfica

A situação geográfica de Eridu é singular. É um dos locais mais ao sul, na orla da planície aluvial e perto dos pântanos: zona de transição entre mar e terra, com seus combiantes cursos de água, ilhas e profundos e densos caniçais. Ao mesmo tempo, o deserto ocidental, estendendo-se por muitas centenas de quilômetros e contendo nada mais do que dunas de areia e terras áridas, pejadas de pedregulhos, está suficientemente perto para ameaçar o lugar e soterrá-lo com areia. Essa localização significava que a antiga Eridu tinha acesso imediato a três sistemas físicos amplamente diferentes: a aluvião, o deserto e os pântanos, e, por conseguinte, a três diferentes modos de subsistência: lavoura, pastoreio nômade e pesca. Mais importante, porém, era o fato de a cidade ter o controle do seu ecossistema, por estar edificada sobre uma colina, dentro de uma depressão cerca de 6 metros abaixo do nível do terreno circundante, o que permitia a acumulação das águas subterrâneas. Esse lugar pantanoso pode ainda converter-se num lago de dimensões consideráveis nos meses de cheia. Os mais antigos textos sumerianos, datando do começo do terceiro milênio, destacom a importância dessa laguna. Em sumeriano, isso era conhecido como abzu (Apsa em acadiano). Nas regiões meridionais quase sem chuva, a mais Obvia e crucial manifestação de água era o abzu. Em Eridu, assim rezam os textos, ele circundava o centro religioso e tomou-se seu sinônimo. De acordo com a noção mesopotâmia de cosmo, a terra era uma extensão solida, semelhante a um disco no interior de um corpo gigantesco de água. Abaixo da terra estava o abzu, acima da terra o céu formava uma abobada mais ou menos impermeável que retinha o corpo superior de água, o qual, em certas épocas e lugares, cala como chuva através dos buracos no teto celeste. Eridu era o centro do culto para o deus ou deusa da água doce.

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A primeira das cidades

O texto citado no inicio provém de uma plaqueta cuneiforme escrita no período Neobabilônico, durante o século VI a.e.c. Hormuzd Rassam encontrou-o entre as ruínas de Sippar; talvez pertencesse a um douto sacerdote, porquanto estava escrito em sumeriano e em babilônio. A história da criação serve de introdução a uma extensa fórmula de encantamento para ser recitada a fim de purificar o templo de Nabu em Borsippa. Embora essa versão do texto seja de uma data relativamente tardia (primeiro milênio), a tradição de que Eridu é a mais antiga das cidades remonta aos primeiros textos escritos do final do quarto milênio; Eridu já então encabeça uma lista de nomes geográficos. A lista de reis sumérios começa com as seguintes linhas: “Depois que a realeza desceu do céu, Eridu tomou-se (a sede) da realeza. Alulim reinou 28.000 anos; Alalgar reinou 36.000 anos. Eridu foi abandonada, (e) sua realeza levada para Badtibira.” A antiguidade de Eridu era uma questão de conhecimento tradicional, repetido inúmeras vezes ate que se tomou um fato, ou um lugar-comum, no que diz respeito aos eruditos do mundo ocidental que leram esses textos mesopotâmios antes de o sitio ser descoberto. A história da exploração arqueológica de Eridu mostra como a sabedoria recebida de antigas fontes veio a ser ao mesmo tempo refutada e confirmada.

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As escavações de Eridu

O monte de Eridu, chamado Tell Abu Shahrein, situado uns 24 quilômetros ao sul de Ur, tinha sido agendado para escavações já em meados do século XIX. É um típico tell ou montículo de ruínas, de formato cônico, com meio quilômetro de diâmetro e elevando-se cerca de 25 metros acima da planície. Seis cômoros menores pontilhavam as cercanias, indicando que o centro populacional se deslocava ao longo do tempo, talvez de acordo com as variações da linha das margens da laguna.

As primeiras tentativas de escavação foram realizadas por J. E. Thomp¬son em 1854, com o patrocínio do Museu Britânico. Estava então em curso o movimento para que todos os recém-criados museus nacionais do mundo ocidental se recheassem de artefatos provenientes dos mais distantes lugares e épocas para maior gloria das potências imperiais do século XIX, como símbolos de seu domínio no tempo e no espaço. Em meados desse século eram particularmente cobiçados os objetos de alto nível artesanal e grande antiguidade — estátuas, relevos e vasos feitos de metais preciosos —, e quaisquer documentos em escritas estranhas estavam fadados a ser decifrados e tomados inteligíveis graças às avançadas qualificações lingüísticas dos eruditos vitorianos. A exploração dos grandes sítios arqueológicos do Norte da Assíria já tinha rendido relevos esculpidos em pedra, touros colossais com barbudos rostos humanos e grandes quantidades de plaquetas cuneiformes. Tudo o que Thompson encontrou em Abu Shahrein foi um cômoro de adobe, substancialmente erodido e compactado. Como na época não tinham sido ainda desenvolvidos os métodos para localizar e seguir o traçado de paredes e muros de adobe, os seus operários abriram túneis através da sólida massa de terra-planagem, numa busca em geral infrutífera de “antiguidades”. Até mesmo o leão magnificomente esculpido em granito negro que Thompson desenterrara teve que ser deixado para trás por falta de transporte adequado.

Nesse meio tempo, o Museu Britânico continuou a encher-se de artefatos assírios populares, e Abu Shahrein foi de novo deixada para as raposas e os chacais das redondezas. Compbell Thompson, em 1918, e H. R. H. Hall, em 1919, voltaram a explorar o sitio para o museu, mas essas tentativas também produziram escassos resultados. No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a era colonial da arqueologia chegava ao fim e a recém-criada Diretoria Geral de Antiguidades, no Iraque, escolheu o até então pouco promissor sitio como o alvo para o primeiro projeto iraquiano de escavação em grande escala.

O significado simbólico desse sítio desempenhou importante papel, uma vez que iria trazer novas provas a favor da “forte linha de continuidade que domina todo o passado do Iraque”. A nova nação iraquiana, o primeiro estado mesopotâmio a usufruir a autodeterminação política após séculos de domínio otomano e europeu, assinalou o seu ressurgimento com a recuperação da mais amiga das cidades, como que para reafirmar a continuidade da cultura local. Também foi significativo que o governo secular escolhesse um sitio arqueológico pré-islâmico, na tentativa de fazer o povo orgulhar-se de sua história antiga e de ajudar a promover um sentimento de identidade nacional, não-islâmica.

O trabalho no sitio começou em 1946, com o iraquiano Fuad Safar como diretor de compo e o arqueólogo britânico Seton Lloyd atuando como conselheiro técnico do Departamento de Antiguidades. A equipe passou três temporadas em Eridu, até o final de fevereiro de 1949. Desde o começo, o objetivo das escavações foi produzir uma exploração abrangente e sistemática do sitio, usando os mais recentes métodos arqueológicos. P sítio foi considerado “representativo da mais recuada época de habitação humana na Mesopotâmia em vias de secagem... o cenário onde se iniciou a evolução da civilização suméria...; mas o principal interesse político era fomecer provas em apoio das antigas reivindicações para considerar Eridu um lugar de origem, não apenas da civilização sumeriana mas, por implicação, de toda a civilização, em particular a do Oriente Próximo.

A equipe iraquiana principiou o trabalho na “acrópole” onde eram claramente visíveis os restos de um vasto monumento disposto em degraus ou zigurate, muito semelhante a um que existia na vizinha Ur. Essa construção pode ser datada, graças a ajuda de alguns tijolos com inscrições dedicadas aos reis Ur-Nammu e Amar-Sin, governantes da Terceira Dinastia de Ur (c. século XXI). Os trabalhadores encontraram sob uma das esquinas do zigurate as paredes de um edifício muito mais antigo, o qual, com base em fragmentos de vasos, pôde ser datado do final do período Ubaid (c. 3800). A expressão “período Ubaid” deriva do sitio arqueológico de Tell Ubaid, perto de Ur, escavado por Sir Leonard Woolley na década de 1920. Refere-se aos níveis culturais calcolíticos da Mesopotâmia meridional, os quais coincidem em grande parte com os níveis Halaf dos sítios mesopotâmicos setentrionais.

Os arqueólogos iraquianos decidiram remover essa última camada ubaidiana para ver se quaisquer remanescentes mais antigos poderiam ser encontrados por baixo, e depararam com outra seqüencia de dezoito níveis de ocupação. No nível mais baixo, “sobre uma duna de areia limpa”, descobriram a construção mais antiga de todas, “uma capela primitiva” cuja área não ia além de 3 metros quadrados. Continha um pedestal de frente para a entrada e um nicho numa parede. A data proposta para essa “capela” é 4900 ou nível Ubaid I. Toda a construção, assim como todas as das camadas subseqüentes, era feita de adobe. Essa era uma característica interessante, a luz do fato de que as típicas habitações ubaidianas da região, conhecidas através das escavações de Woolley, eram feitas de juncos, numa forma de construção ainda hoje usada pelos árabes dos pântanos: braçadas de longos e finos juncos solidamente enfeixados, servindo como postes para formar estruturas cobertas por esteiras de junco. Sendo essa a tradicional técnica de construção no sul, era digno de nota encontrar tanta arquitetura de adobe nos mais antigos níveis de Eridu, com os principais edifícios construídos com esse material. De modo geral, a cultura ubaidiana não está bem documentada na Mesopotâmia meridional, pelo que o material recuperado em Eridu ajudou a modificar a impressão, adquirida como resultado das escavações de Woolley, de que a cultura ubaidiana no sul era uma “cultura de aldeia primitiva e mal desenvolvida”.

A seqüência de “templos” mostrou que eles tinham sido construídos nos mesmos locais durante centenas de anos. Quando a primeira “capela” do nível XVII se desmantelou, uma nova foi construída diretamente sobre as ruínas das paredes mais antigas. O novo edifício era praticamente uma reconstrução do anterior, com o acréscimo de algumas características mais refinadas, como o reboco interior. No nível seguinte, a planta foi alterada de aproximadamente um quadrado para um retângulo, quase o dobro nas dimensões totais. Depois, no nível XIV toda a edificação tinha sido terraplenada e as ruínas anteriores preenchidas com areia e cercadas por um muro de tijolos, a fim de fornecer a base para um novo edifício, elevado 1 metro acima das áreas circundantes e ao qual se tinha acesso por uma rampa. Mostrava características que tinham muito em comum com outras construções monumentais da época, descobertas no Norte da Mesopotâmia. Uma espaçosa câmara central (4,50 metros de largura e pelo menos 12,60 metros de comprimento) estava cercada por salas menores. Também era característica uma articulação rítmica das paredes com nichos e botaréus, e um claro layout simétrico.

Repetiu-se o mesmo layout quando o edifício foi reconstruído nos dois níveis seguintes (X e IX). Ocorreu depois uma completa mudança na planta e no caráter geral. As paredes tomaram-se muito mais espessas (70 centímetros) e o edifício cobria um terreno muito maior. Tinha uma nave central flanqueada por salas subsidiárias. Tanto no interior quanto no lado externo, as grossas e altas paredes eram maciçamente onduladas, o que as tomava mais estáveis e produzia um aprazível efeito estético quando o jogo de luz e sombra criava regulares padrões verticais. No interior da câmara principal havia numerosas portas falsas; uma delas revelava um nicho que continha um jarro com bico cheio de espinhas de peixe. Enterrado sob o pavimento da nave, diretamente abaixo do “altar”, havia um grande número de curiosas roscas de barro com a aparência de serpentes, de uns 30 a 40 centímetros de comprimento. É possível que tivessem algo a ver com um culto secreto.

No nível VI, a construção tomou-se verdadeiramente monumental. As paredes do edifício anterior foram uma vez mais terraplenadas, a 1,2 metro de altura, e os espaços entre elas foram atulhados com tijolos de adobe. Tudo isso formou outra plataforma, consideravelmente ampliada, a fim de dar espaço para a nova construção. O desmonte do cômoro significou que não pode ser recuperada muita coisa da planta, mas o santuário principal era uma sala muito extensa, medindo 14,40 por 3,70 metros. Tinha portas gêmeas colocadas em cada extremidade da parede mais curta. O pódio tinha o emboço queimado num tom vermelho-escuro e estava recoberto por um espesso depósito de cinzas, igualmente espalhadas por todo o chão. Misturadas com as cinzas havia grandes quantidades de espinhas de peixe e ossos de pequenos animais. Esses restos ocupavam toda a área nordeste da câmara. O estado das espinhas indicou que os peixes tinham sido comidos e, curiosamente, as sobras não foram levadas para fora mas conservadas dentro do edifício. Um pequeno compartimento subsidiário repleto de cinzas e rebotalho com a consistência de escória de carvão sugeria que ali eram queimados os restos de peixes e outras oferendas.

Após o desmoronamento do templo VI, foram feitos preparativos, ao que parece, para a edificação de outro templo no topo, num nível mais elevado mas de acordo, mais ou menos, com a mesma planta. Só restam vestígios das construções subseqüentes (templos V-I), por causa das extensas terraplenagens efetuadas no final do segundo milênio, em preparação para o zigurate. Mas, dado que o templo VI tinha sido muito dilapidado quando foram realizadas as tentativas de restauração, ele pode muito bem ter sido o último dos “templos” ubaidianos em Eridu.

Dos humildes começos da primeira “capela” até o gigantesco e requintado templo VI, mais de mil anos tinham transcorrido. Quase sem qualquer interrupção, um edifício seguira-se a outro implantado exatamente no mesmo lugar, cada um sempre maior do que o antecessor; e, em conseqüência do cuidadoso nivelamento dos remanescentes das construções anteriores, as plataformas foram ficando cada vez mais elevadas. Uma reconstituição pelos arquitetos iraquianos mostrou que o último “templo” ubaidiano se erguia muito acima do nível do solo, graças às sucessivas camadas de construções prévias sobre as quais ele assentava. As mobílias e instalações interiores, as plataformas, os nichos e os pódios, também mostram uma notável continuidade de forma e talvez de propósito.

Os arqueólogos tem rotineiramente chamado “templos” a essas construções, uma palavra que indica um lugar dedicado especificamente a um ritual sagrado. Não está esclarecido, em absoluto, se os “templos” de Ubaid eram usados somente para o culto ou vistos como moradia dos deuses, como ocorreu em períodos ulteriores. O certo é que eles forneciam, pelo menos periodicamente, um cenário para determinadas atividades. Como foi sublinhado, eles estavam cheios de “lixo comum”, pequenos ossos, cerâmica vulgar etc. Ao que parece, nada era conservado imaculadamente limpo ou reservado para uma finalidade específica. Poucos objetos de valor foram recuperados: algumas estatuetas de barro de nus humanos masculinos e femininos, pequenas figuras de animais, um modelo de réptil decorado para assemelhar-se a uma das serpentes ainda comuns nos arredores de Abu Shahrein e as acima mencionadas serpentes de barro, enroscadas e enterradas. Quanto ao mais, encontraram-se apenas algumas contas feitas de pedras semipreciosas, ferramentas de pedra, lâminas de obsidiana, polias de rocas de fiar de barro e uma machadinha de bronze.

E claro que as construções não só iam ficando cada vez maiores e mais bem construídas com o passar do tempo, mas os arranjos interiores — os pedestais, as portas falsas, os nichos simetricamente dispostos — parecem ter tido características tanto simbólicas quanto funcionais que apontam para fins mais rituais do que mundanos. Esses últimos templos ubaidianos podem ter prenunciado a arquitetura dos templos mesopotâmios dos períodos históricos, uns 1.500 anos mais tarde. Sua planta, uma câmara central flanqueada por salas de ambos os lados com um pódio independente e isolado no centro, tomou-se uma característica corrente, tal como a fachada decorada com pilastras e nichos. O costume de enterrar presentes votivos e implementos rituais também nunca foi abandonado. Mais significativa, talvez, foi a idéia de vedar os remanescentes de estruturas anteriores e seus conteúdos (para preservar a santidade?) e erguer então o novo edifício no topo dessas ruínas niveladas. Assim, a maioria dos templos mesopotâmios entesourou a substância de templos mais antigos e a própria plataforma onde eles assentavam se tomou venerável em conseqüência do acúmulo de entulho sagrado. Assim, essas plataformas converteram-se num sinal visível de continuidade e antiguidade.

Cumpre lembrar que, sobretudo nas planícies meridionais, as características da paisagem não eram tão permanentes quanto em outras regiões. Os rios alteravam seus leitos, inundações destruíam áreas cultivadas, dunas de areia invadiam e tragavam em semanas aldeias abandonadas — todos fatores que ameaçavam o desejo de permanência e fixação num lugar. Somente as cidades e, em especial, a “obra de tijolo” dos templos persistiram através das idades e cresceram como seres vivos. Esse processo pode ser visto primeiro em Eridu. Na narrativa babilônia, a plataforma que surgiu do Apsu tomou-se a primeira morada dos deuses; na seqüência arqueológica, a simples cabana construída na areia foi continuamente reconstruída e ampliada até converter-se num dos mais veneráveis santuários do país. A reputação de Eridu em épocas ulteriores como o primeiro santuário foi amplamente justificada pela seqüência arqueológica.

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Cerâmica do período calcolítico

Os arqueólogos não escavaram somente no cômoro principal de Abud Shabrein, mas também em numerosos sítios subsidiários. Descobriram uma pequena parte dos setores residenciais e um vasto cemitério. Em todas essas áreas, assim como nos “templos” do cômoro principal, encontraram cacos de louça de barro. Os cacos de louça são sempre importantes em escavações, por serem de extrema valia para fins de datação. Fora isso, raras vezes são particularmente excitantes. A cerâmica do quinto milênio, entretanto, é interessante não só por motivos cronológicos, mas também por ser muito bela, além de nos contar alguma coisa acerca da organização sociocultural da época. Tanto as louças Halaf e Samarra do norte quanto as Ubaid e Hajji Muhammed do sul — todas denominadas de acordo com os seus lugares iniciais de descoberta — são imediatamente reconhecíveis: as paredes são finas, a coloração predominante é creme e são decoradas com uma elegância simples e cativante sem paralelo em todo o Oriente Próximo pré-histórico. Os padrões variam de pontos e traços livremente aplicados ate intricadas incisões geométricas de finas linhas para mostrar sombreados e figuras humanas e zoomorfas. O repertório de formatos inclui copos, pratos redondos e ovais, tigelas, vasilhas de bico, jarras grandes e pequenas, copos com pé, delicadas taças e louça mais grosseira para cozinhar.

Tal cerâmica de alta qualidade era produzida por hábeis especialistas em diferentes centros de produção; a cerâmica descoberta nos primeiros níveis de Eridu (desde os mais antigos no nível XIX ate o nível XIII) era manufaturada no próprio local. Entretanto, a distribuição da cerâmica pintada foi muito além das áreas de produção. Essa cerâmica não era para uso doméstico vulgar e quotidiano, mas um produto de elite; requeria lugares especiais para armazenagem e exibição, não sendo fácil de transportar e imprópria para um modo nômade de vida, para o qual eram preferidos os recipientes de materiais inquebráveis. Mas o sedentarismo e a cerâmica combinam bem, e é concebível que os vasos de barro elaboradamente produzidos e decorados possam ter contribuído para popularizar e proclamar os valores da população estabelecida. Também tinham, e claro, suas funções práticas, pois eram usados para comer, beber e servir alimentos. Relatos etnográficos demonstraram o propósito comunicativo dos objetos decorados e a importância dos festins coletivos, por vezes chamados de “comensalidade conspícua” — uma precursora do “consumo conspícuo”. O termo destaca a importância dos laços grupais através das refeições compartilhadas, elaboradamente servidas e apresentadas. Tais festins coletivos fortaleceram o status daqueles que estavam aptos a obter os recursos para tal, desde os comestíveis até o precioso serviço de mesa.

Os antropólogos defenderam a tese de que o surgimento de bens de prestígio e de preciosos utensílios de mesa está relacionado com as primeiras formas de hierarquia — nas quais um grupo garantiu o acesso ao território e aos bens e é responsável pela distribuição. A cultura do Calcolítico (ou Idade do Bronze) no Oriente Próximo, da qual Ubaid é a manifestação meridional, foi caracterizada por crescente sedentarismo, horticultura e troca. A cerâmica pintada da fase mais recente (c. 4000-3500) pode ser encontrada por toda a Mesopotâmia, Síria, Irã ocidental e meridional, Anatólia, e ao longo do golfo Pérsico. Isso aponta para uma vigorosa rede de trocas por toda a região, a qual iria tomar-se ainda mais intensa e organizada durante a idade subseqüente, conhecida como o período Uruque. Em Eridu, os mais antigos níveis de aldeamento, criados diretamente na areia virgem, já possuem a cerâmica calcolítica típica da cultura ubaidiana meridional. Quem quer que se decidisse a instalar-se nessa área estava familiarizado com a tecnologia e o repertório decorativo.

Assim como aumentou a demanda de tal cerâmica, também se desenvolveu a perícia profissional; as temperaturas podiam ser reguladas de um modo mais uniforme e algum tipo de tournette era usado para produzir formas ainda mais regulares. A cerâmica produzida no local domina nos primeiros níveis, habilitando os arqueólogos a falar de “louça de Eridu”.

Depois, por motivos ainda desconhecidos, cessam todas as provas de manufatura local (a partir do nível XIII). Os pisos dos vários níveis dos “templos” estavam juncados de cacos de louça ubaidiana, se bem que fossem ocasionalmente recuperadas vasilhas e jarras inteiras. Isso pode sugerir que as peças de cerâmica eram usadas para refeições, não apenas para oferendas. Se nos lembrarmos das grandes quantidades de cinzas e de espinhas de peixe, assim como de restos de animais, tão comuns em tomo dos pedestais, é tentador ver o consumo de alimentos como parte importante das atividades que tinham lugar. Entretanto, alguns tipos de cerâmica só eram encontrados nos “templos” e podem ter servido em eventos de um caráter ritual mais claramente definido. Pequenos recipientes, com não mais de 15 centímetros de diâmetro, paredes muito finas e padrões decorativos muito elaborados, foram algumas vezes encontrados em grupos, uns encaixados dentro de outros (típicos dos níveis X e XI). Também dignos de nota são os chamados vasos de tartaruga, uma especialidade de Eridu. Tinham bicos longos que se projetavam em diagonal desde a ombro e eram também anormalmente finos e frágeis. Um deles, repleto de espinhas de peixe, sobreviveu em um nicho atrás do altar do templo VIII.

Especialmente notáveis são os “incensórios” comuns no entulho dos “templos” mais recentes. As aberturas triangulares podiam servir coma janelas para permitir a saída da fumaça do incenso. A colocação das aberturas sugere vãos de portas e todo o padrão decorativo faz com que pareçam edifícios em miniatura — embora nos lembrem mais a arquitetura de juncos do que a de adobe. Terracotas figurativas também foram encontradas no entulho do “templo”, incluindo estatuetas (femininas?) fragmentadas, com a parte inferior do corpo coberta com uma espécie de vestimenta cujos padrões são pintados com listras onduladas em preto. Não está claro se representam qualquer tipo particular de pessoa ou função, ou uma deidade. Outras estatuas antropomorfas dos níveis do cemitério de Ubaid estão todas nuas.

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Os tumbas de Eridu

A descoberta do cemitério de Ubaid na segunda temporada de escavações (1947-48) manteve metade dos trabalhadores atarefados durante a maior parte dela, e estes produziram notáveis provas a respeito dos habitantes da antiga Eridu. O cemitério estava a certa distância do cômoro principal, nos arredores do último povoado ubaidiano, e era contemporâneo do Templo VI (c. 3800). Entre 800 e 1.000 pessoas tinham sido ali enterradas, um número modesto em comparação com a enorme necrópole de Susa, no Sul do Irã, onde tinham sido encontrados mais de dois mil sepultamentos do mesmo período. Das sepulturas de Eridu, somente 193 foram escavadas. Os corpos tinham sido colocados em covas simples ou em caixas de barro sem fundo. Cada cadáver era estendido ao comprido, de costas, com as braços aos lados ou cruzados sobre a pelve. Depois a tumba era cheia de terra até ao topo das paredes e vedada com uma ou mais fileiras de tijolos. Às vezes os restos mortais de sepultamentos prévios eram empurrados para um lado, a fim de dar lugar a outro cadáver, mas nunca havia mais de dois adultos numa sepultura, sendo o terceiro, se houvesse, invariavelmente uma criança.

A cerâmica funerária era colocada num canto, perto do pé direito; em geral, consistia num jarro, num prato e numa taca. Ocasionalmente, havia provas de oferendas de alimentos. Ossos de peças de como eram encontrados no enchimento de terra ou sobre a tumba. Num caso, um jovem de uns 15 anos fora enterrado com o seu cão, colocado de través no regaço do rapaz com um osso na boca. Outra sepultura também continha dois esqueletos fragmentados de cães, talvez animais de estimação do mono. Os corpos humanos exibiam colares ou pulseiras de contas e ornamentos semelhantes em tomo do pescoço ou do pulso, com freqüência feitos de obsidiana. Pareciam ter sido vestidos, porquanto as tiras de contas sugerem seu uso em franjas e cintos decorados.

O exame dos esqueletos mostrou que a população de Eridu era mediterrânea, do mesmo tipo da do atual Iraque e de países vizinhos. A maioria das variações ocorria nos dentes e nas mandíbulas, com alguns indivíduos sempre “notoriamente prógnatos e com dentes grandes e ressaídos, tão volumosos quanto os dos neandertais”. Os dentes grandes não eram, necessariamente, uma vantagem, pois muitos dos mortos apresentavam dentes em mau estado, alguns corroídos e desgastados até as gengivas, com os conseqüentes abscessos e caries. Ainda não está claro se isso era causado por uma dieta rica em cereais pilados ou o resultado de alguma doença.

A existência de um cemitério em qualquer localidade mostra que algumas populações reclamaram o direito de enterrar seus mortos nesse lugar especifico. Nesse caso, havia um grande número de pessoas, embora não possa ser determinado que parte da população de Eridu elas representavam, uma vez que apenas uma pequena fração da área residencial foi escavada. Os cemitérios, em especial no Oriente Próximo, nunca respondem por rodos as mortos, porque múltiplas praticas de sepultamento eram mantidas por motivos obscuros. Algumas práticas não deixam nenhum vestígio arqueológico, como a exposição do cadáver no deserto desabitado, onde os predadores se encarregam de eliminar os restos mortais. A prática de cremação é, de modo geral, mais comum em áreas ricas em materiais combustíveis, mas a cremação secundaria, após a exposição inicial, também é uma possibilidade a levar em conta. Os sepultamentos intramuros, em pátios internos ou sob as grossas paredes dos edifícios, foram comuns em períodos ulteriores, mas a limitada extensão das escavações impede, uma vez mais, quaisquer conclusões sobre se parte da população ubaidiana foi sepultada em seus próprios lares. Por fim, os pântanos e a própria laguna poderiam ter servido como lugares para o repouso final.

Na ulterior tradição escrita, o Apsu está ligado à região dos mortos. E possível que o cemitério de Eridu servisse a uma comunidade local mais vasta, num raio de cerca de 25km, como o local preferido de sepultamento. Por ignorarmos onde e como outras pessoas eram sepultadas, e que o cemitério de Eridu nos conta a respeito das que aí foram enterradas? Quem eram elas? Os sepultamentos familiares de um homem e uma mulher adultos, junto com uma criança (e, as vezes, o cão da família), parecem indicar a vigência de praticas sociais como a monogamia e o prestígio da linhagem. Posses pessoais, como contas e ornamentos de obsidiana importados, mostram que eles tinham acesso a artigos relativamente preciosos (jóias, tecidos para vestuário). Alguns objetos, sobretudo a obsidiana e outras contas de pedra, eram de origem estrangeira e tinham que ser “negociados” ou incluídos em operações de troca. Sua presença nas sepulturas indica que o grupo familiar tinha ligações com lugares distantes.

A cerâmica nas sepulturas também era, em geral, de elevado padrão, e copos altos com bases aneladas eram muito comuns, sendo talvez usados para libações. Vários tipos inigualáveis de vasos, exemplares especialmente bem-feitos e com belos adornos, só eram encontrados no cemitério. Os sepultamentos de crianças eram freqüentemente providos de jogos em miniatura de tigelas e jarros. Outros artigos funerários dignos de nota incluíam um modelo de barro de barco a vela, completo com um pequeno soquete para o mastro, e estatuetas de terracota. Um exemplo de figura masculina sobreviveu intacto. As estatuetas tinham proporções esbeltas e cabeças curiosamente alongadas, com rostos parecidos com os de lagartos. A parte superior do peito era decorada com pequenas protuberâncias redondas que também figuravam ao longo dos braços. A figura masculina segura uma vara curta numa das mãos. Seja qual for o significado dessas representações, elas foram postas nas tumbas com um propósito, muito provavelmente em relação com crenças fúnebres.

Em suma, todo o procedimento de sepultar pessoas no cemitério de Eridu envolvia considerável esforço e planejamento. As tumbas devem ter sido marcadas na superfície para permitir o sepultamento secundário de um cônjuge ou de um filho pequeno. O morto tinha que ser suprido com bens adequados, com ornamentos e cerâmica decorada. Além disso, parece que certos recipientes eram especialmente feitos para fins de ritual fúnebre, libações etc. Cortes de carne e, no caso de crianças, pequenos animais inteiros demonstram que as oferendas de alimentos eram também parte das exéquias. Alguns corpos foram encontrados cobertos de ocre vermelho, embora os escavadores não tivessem certeza sobre se isso fora feito na antiguidade com propósitos simbólicos ou se mudanças no solo tinham produzido o efeito.

De modo geral, as sepulturas de Eridu indicaram que as pessoas ali enterradas eram, de alguma forma, especiais. Todas elas tinham acesso, sem exceção, a valiosos artefatos; podiam fornecer oferendas e carne; tinham direito a um funeral “apropriado,” completo com rituais e, possivelmente, com a prerrogativa de cuidados ulteriores, ao passo que outras pessoas na comunidade não tinham claramente esse privilégio. Não se conhecem os motivos desse status diferençado. Foi sugerido que, nesse período, alguns grupos com extensas ligações, forjadas e mantidas a base de trocas (de mercadorias, talvez também de mulheres), criaram uma rede de comunicações. Tais grupos teriam ampliado os horizontes culturais das comunidades puramente locais, envolvendo-as numa estrutura muito mais vasta — uma espécie de commonwealth calcolítica de suposições e idéias compartilhadas, arqueologicamente materializadas em cerâmica e outros antigos de prestigio. Ligaram o norte mesopotâmico às planícies meridionais, as chapadas e a bacia hidrográfica de Susiana, no Irã. Entretanto, se os esqueletos de Eridu pertenciam a um grupo “aborígine” ou a “recém-chegados”, sem mencionar se eram ou não as ancestrais dos sumérios, eis um ponto para discussão. Tudo o que pode ser dito é que as pessoas enterradas no cemitério de Eridu eram “diferentes” por causa de seus hábitos culturais e não por quaisquer características inerentes.

As mesmas peças de cultura material, com poucas exceções, foram encontradas nas tumbas e nos “templos”. Mas idêntica correlação não pôde ser estabelecida entre as casas de moradia, por um lado, e as sepulturas ou os “templos”, por outro. Isso podia significar que as pessoas que exerceram atividades nos edifícios monumentais eram as mesmas sepultadas no cemitério, que elas podiam ter tido um status ritual especifico para estarem ligadas ao cerimonial de Eridu. Ao mesmo tempo, não havia diferenças acentuadas na qualidade e na quantidade dos presentes funerários, nada para indicar que alguns indivíduos se distinguiam de outros, o que falava a favor de uma identidade coletiva, de um especial status grupal. Eles podiam ter sido membros de uma elite, talvez porque controlavam as trocas inter-regionais. Os sinetes encontrados em “templos” mais recentes sugerem que certas pessoas tinham responsabilidade pela execução de transações. Elas talvez tenham estado ligadas à exploração agrícola da região de Eridu, ao pastoreio e aos campos de cevada, o que poderia explicar o lamentável estado de seus dentes — o fato de terem comido quantidades excessivas de pão arenoso por muito tempo. Infelizmente, nenhuma dessas sugestões pode ser corroborada, por causa da natureza fragmentaria das provas.

Sabemos muito pouco sobre a natureza da sociedade durante o período ubaidiano. Para o arqueólogo tcheco Petr Charvát, foi a última das verdadeiras sociedades igualitárias com famílias auto-suficientes, todos igualmente engajados em atividades de subsistência. Outros encontram provas de hierarquias incipientes em pelo menos algumas áreas, onde certos grupos ou famílias tinham maior acesso do que outros a algumas mercadorias. A questão crucial é o papel que a religião desempenhava em tudo isso. Se os grandes edifícios de tijolos eram, principalmente, para fins rituais, as pessoas que organizaram a sua construção e manutenção derivaram algum “lucro” tangível de seu “investimento”? Sua conexão com o “sagrado” serviu para legitimar a diferenciação emergente entre pessoas, com um grupo exercendo maior domínio sobre o trabalho e a produção de outros? O modo como essas perguntas são formuladas denuncia as próprias posições ideológicas dos autores, com os pontos de vista marxistas focalizando as distinções de classe e o controle sobre os meios de produção como a principal forma de investigação das sociedades. Como tais, elas fazem parte de uma moderna estrutura narrativa, qual seja, a história do trabalho do homem e de quem o controla. Isso pode levar a alguns resultados interessantes, quando existe suficiente material de consulta. Lamentavelmente, o período Ubaid permanece inacessível à investigações mais detalhadas. Os mortos do cemitério de Eridu, com suas peças de carne com osso, suas bonitas tigelas pintadas e maus dentes, revelam e ocultam ao mesmo tempo as realidades da sua existência.

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A Eridu ubaidiana

Não restam dúvidas de que durante o período Ubaid se desenvolveu uma cultura comum que se propagou por todo o Oriente Próximo. Entretanto, antigas formas de vida continuaram a existir a par das novas, e essa mistura de inovação e tradição e característica da Mesopotâmia desde os seus primórdios. As comunidades locais eram auto-suficientes em termos da produção de alimentos, explorando habilmente o potencial natural de uma região circunvizinha. Em Eridu, os recursos dos pântanos e da laguna eram importantes, e a abundância de água favoreceu a criação de gado e de porcos. O alimento favorito consumido no “templo” era o peixe, uma preferência induzida, talvez, por associação com a Apsu.

No tocante a realização espiritual desse período pré-literário, Charvat presume que o que estava aí em jogo era nada menos do que “a formação da primeira religião universal”, com Eridu desempenhando um papel significativo como, talvez, o “representante meridional” recordado pela tradição ulterior, quando a comunidade foi vista como fonte de toda a sabedoria e a morada do deus do conhecimento. Embora sejam poucas as provas que permitem especular sobre que forma essa “religião universal” poderia ter assumido, um componente importante é o enfoque sobre o ritual associado a lugares construídos. Isso não sugere serem essas as únicas formas de ritual, mas que a moldura arquitetônica do ritual certamente se tomou mais importante. A construção num lugar “sagrado” não é necessariamente responsabilidade de um determinado grupo, e que fosse prerrogativa de algum, a passagem do tempo deve concorrer para atenuar a perpetuidade do privilégio. Vimos como os edifícios podiam degradar-se, cair em ruínas e ser depois reconstruídos, usualmente de acordo com um traçado semelhante, mas quase sempre maior do que o anterior. O tijolo de adobe necessita de constante manutenção e de periódica reconstrução, e, embora o corpo arquitetônico seja inerentemente transitório, ele adquire solidez e volume através de cada ato de reconstrução.

A participação no processo continuo de manutenção e ampliação pode ter sido tão espontânea quanto acrescentar uma pedra a um montículo de pedras para assinalar uma tumba em regiões montanhosas do mundo. E tentador considerar a “cidade” de Eridu um espaço cerimonial pertencente a todos, aos moradores dos pântanos e aos caçadores, aos criadores de gado e aos agricultores, aos aldeões e aos nômades. É possível que se tenha tomado um ponto focal por causa de seu distanciamento das ligações sociais familiares, um lugar bom para ser sepultado, um lugar onde a pessoa deu sua contribuição para fazer dele um ponto de referência, onde os deuses das profundezas estavam mais perto do que em qualquer outro lugar, onde a pessoa levava um prato de peixe para cozinhar numa câmara escura e depois ia embora. Só uma população relativamente pequena vivia por perto, e não está clara que espécie de relação tinha com o lugar principal. O exemplo de Eridu não é o único. Havia experiências semelhantes em curso em outros lugares, como na própria Ubaid, em Tell Uqair e também em Ur. Mas Eridu esta não só excepcionalmente bem documentada para o período ubaidiano, como também manteve o mito de sua primazia para as subseqüentes eras da história mesopotâmica até a nossa época.

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Eridu nos períodos Históricos

No final do período Ubaid ocorrem os primeiros sinais de declínio. A qualidade dos cacos de louça deteriora-se, permitiu-se que o último “templo” persistisse por muito tempo num estado de dilapidação. Os escavadores sugeriram que no inicio do “período Uruque”, o nível arqueológico no primeiro terço do quarto milênio que se seguiu ao ubaidiano, Eridu “deixou de ser uma aldeia que apoiava uma comunidade agrícola”. Somente o cômoro central, com sua venerável sucessão de ruínas, estava ainda em uso. Por outro lado, os edifícios públicos eram reconstruídos numa escala ainda maior do que antes, no estilo monumental característico da “cultura uruquiana”. Todo o outeiro estava ocupado com o que os escavadores descrevem como “construções de caráter religioso e moradias de sacerdotes”. Uma vez mais, as ruínas anteriores eram enterradas sob uma grande plataforma, desta vez com um terraço de pedra calcaria.

Calcário e arenito ocorrem naturalmente em Eridu, uma das poucas cidades da Mesopotâmia meridional onde as muralhas são de gesso. O “templo” principal também era construído com pedra calcaria e suas paredes decoradas com mosaicos cônicos cobertos por uma fina película de bronze. Outros edifícios da mesma época (alguns com vestígios de pinturas murais) foram atulhados de areia durante o período Uruque. Como se encontraram camadas de cerâmica votiva incrustada no enchimento de areia, pode ter sido uma prática deliberada preservar e, ao mesmo tempo, pôr fim ao uso de um edifício. Um muro de contenção cercava todo o cômoro, mas é possível que este tenha sido construído mais tarde, durante o período Jemdet-Nasr, por volta de 3000. o sinete de Eridu aparece entre as documentos encontrados em Uruque e Ur, como uma das antigas cidades na região.

Por algumas centenas de anos, Eridu continuou a existir primordialmente como um centro cerimonial (ou religioso) no sul, cada vez mais eclipsado peba vizinha Ur, que rapidamente cresceu em tamanho. Depois, quase de um dia para outro, foi abandonada por completo e logo soterrada por enormes quantidades de areia que encheram os edificios abandonados, só tendo ficado de pé o cômoro principal. O próprio templo foi reconstruído duas vezes no período proto-literário, como uma ilha no deserto, mas a acumulação de areia solta parece ter tornado inabitáveis as áreas em torno do cômoro principal. Quando, após alguns séculos, a área voltou a ser habitada, a população escolheu outro local, cerca de um quilômetro ao norte, e poucos esforços foram feitos para reconstruir o santuário.

O lugar só voltou a ser importante no período Primeiro Dinástico II (c. 2500). Ou um soberano da Primeira Dinastia de Ur ou um governador local construiu um grande palácio, composto de dois edificios idênticos lado a lado. Por que dois edificios, continua sendo um mistério. Foram construídos com os chamados tijolos plano-convexos — retangulares com o topo redondo —, típicos do período. Os escavadores sugeriram que quem quer que tenha residido nesse palácio também freqüentava o santuário do cômoro principal, mas não restam vestígios dele devido a terra-planagem do local uns quinhentos anos mais tarde, na época em que os reis da Terceira Dinastia de Ur (Ur III) voltaram suas atenções para o antigo santuário de Eridu. O principal arquiteto desse projeto foi a rei Amar-Sin (c. 2046-203 8). Seu pai tinha construído em Ur um colossal recinto do templo com um imponente zigurate, e a filho seguiu-lhe o exemplo. Tijolos com inscrições proclamam que Amar-Sin, “rei de quatro regiões”, construiu “para Enki, seu amado rei, seu amado Apsu”.

Não há provas de que outros edificios tenham sido construídos além de um zigurate. Embora o rei de Ur prodigalizasse recursos e mão-de-obra no projeto do zigurate, Eridu não se tornou nessa época, ao que tudo indica, uma povoação funcional, muito menos uma cidade. Continuou sendo um santuário, agora mais proeminente e importante pela construção da torre do templo, mas ainda assim um lugar simbólico dentro do império de Ur — um antigo lugar religioso revitalizado par patrocínio régio. O rei de Ur nomeou sacerdotes e sacerdotisas especiais, e alguns hinos reais sugerem que ritos de coroação dos soberanos de Ur III eram realizados em Eridu. Era também o lugar de destino das jornadas litúrgicas dos deuses, uma forma popular de espetáculo e ritual em que as estátuas de várias deidades viajavam por barco de templo em templo, de uma ponta a outra do país.

Nos séculos seguintes, os soberanos das dinastias de Isin (2000-1800) repararam, pelo menos, a maciça alvenaria de tijolos. Também iniciaram uma intensa busca de tesouros enterrados no templo — muitos de seus túneis e poços foram encontrados pelos escavadores. Depois, o santuário de Enki foi gradualmente desmantelado e durante séculos Eridu foi negligenciada e abandonada. Entretanto, o culta do seu principal deus não foi interrompido mas transferido para outras cidades. De fato, parece que todo o pessoal do templo que trabalhava no santuário foi levado para Ur durante o reinado de Hamurabi (c. 1792-1750) e o culto prosseguiu aí numa capela dentro do complexo do deus-lua Nanna. Só em meadas do primeiro milênio as abandonadas ruínas voltaram a merecer as atenções régias, quando o rei Nabucodonosor (605-562) tentou restaurar alguma coisa, de acordo com as inscrições de alguns tijolos e documentos administrativos. Daí em diante, o templo de Eridu converteu-se em permanente ruína. Entretanto, todo o templo da Mesopotâmia tinha sua própria versão artificial e em miniatura do Apsu — ou um pequeno tanque, ou simplesmente um vaso polido cheio de água. Assim, os numen de Eridu podiam ser simbolicamente representados em qualquer lugar, e talvez as fontes e os tanques que adornam e embelezam as Pátios em casas do Oriente Médio de séculos muito mais recentes retenham uma tênue lembrança da antiga laguna bem no Sul da Mesopotâmia.

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Os Deuses de Eridu

Da lama primordial, da vida sexual de Enki, da bebida e dos Sete Sabios

Quem eram os deuses de Eridu? Pelos textos que datam dos tempos históricos, conhecemos os nomes de Enki (a quem as babilônios chamavam Ea), das deusas Nammu e Damgabnunna, e dos casais divinos Lahmt e Lahamu e Tiamat e Apsu; os nomes de seus antecessores no quinto e quarto milênios permanecem obscuros. O mais importante de todos as conceitos associadas a Eridu é a de Apsu (a sumeriana abzu). Era concebido coma um fenômeno natural em termos abstratos e como uma entidade personificada. Assim, por um lado, Apsu designa o aspecto fertilizante da água subterrânea e a potencial criativo da umidade lamacenta. Por outro, em narrativas mitológicas, Apsu pode aparecer coma um personagem. Na chamada Cosmogonia de Eridu, a matéria primeva era formada peba mistura das águas doce e salgada, personificadas como Apsu e Tiamat, respectivamente. Isso ecoa as condições naturais da área pantanosa, onde se juntam a água salgada e a potável. Apsu é concebido como o elemento masculino, Tiamat como o feminino; tem uma filha chamada Mummu, que é uma espécie de matriz de todas as fêmeas e da origem ao Céu e a Terra; e este último casal é quem procria os grandes deuses. Em relatos ulteriores da criação, Apsu e Tiamat também representam o caos original informe, a qual tem que ser submetido a uma progressiva série de diferenciações. Os elementos originais são poderosas e perigosos, imprevisíveis.

A tensão entre essas forças da natureza e os subseqüentes estágios do desenvolvimento é freqüentemente interpretado como um conflito de gerações. Na épica babilônia da criação, a Enuma Elis, Apsu, “criador dos deuses”, está inerte e sonolento mas vê sua paz perturbada pelo bulício dos deuses mais jovens, de modo que se dispõe a destruí-las. Seu neto Enki é escolhido para representar os deuses mais jovens e recorre a um sortilégio que faz Apsu mergulhar num sono profundo. A intenção do conjuro é conter Apsu no mundo subterrâneo. Dai em diante, Apsu torna-se também um mero lugar: diz-se que o deus Enki instalou seu bar “nas profundezas do Apsu”. Enki assume então as características e funções de Apsu, as quais são enriquecidas pelos poderes intelectuais superiores de Enki. O equivalente feminino de Apsu, Tiamat, não é tão facilmente subjugado, e desencadeia hordas de seres monstruosos que começam a devorar a geração mais jovem de deuses. Só Marduk, filho de Enki ou Ea e paladino dos deuses mais jovens, pode dominá-la, com a ajuda dos quatro ventos e de uma rede mágica. Ele cria o mundo conhecido a partir do corpo de Tiamat, dividido em dois como uma ostra, o Eufrates e o Tigre jorram das órbitas dos olhos dela.

Vale notar a existência de outra tradição, mais antiga, em que a matéria primeva e criadora era concebida coma uma fêmea e personificada na deusa suméria Nammu. Em genealogias divinas e em alguns mitos, ela é a mãe de Enki e a deusa-mãe que teria “dado à luz os grandes deuses”. Nammu e as águas primevas são fruto de geração espontânea, criando vida em si mesmas, sem um parceiro masculino. Admite-se com freqüência que as deidades femininas são mais antigas que as masculinas na Mesopotâmia e no culto de Nammu; ou melhor, que o culto do principio feminino como força criadora aquática, com ligações igualmente fortes com o mundo subterrâneo, pode muito bem antedatar a de Ea-Enki. Com Enki numa interessante mutação do simbolismo de sexo, o agente fertilizante é também a água, em sumeriano, que igualmente significa “sêmen”. Numa passagem evocativa de um hino sumério, Enki está nos leitos vazios dos rios e enche-os com sua “água”. Em outras narrativas ele fecunda e irriga ao mesmo tempo.

Abzu também significa o santuiria (ès) de Eridu, a “montanha sagrada”, a manifestação arquitetônica do lugar e forma sagrados na cidade. A água era a substância sagrada por excelência — sobretudo por sua fundamental importância para a economia no clima de deserto. A água era essencial, na magia, para purificar e transmitir o sortilégio, para auxiliar na adivinhação.

As idéias associadas ao Apsu demonstram como um determinado cenário geofísico inspirou um conceito religioso e metafísico. Isso foi consubstanciado nas construções da cidade de Eridu, que remontam aos começos da vida sedentária no Sul da Mesopotâmia. A noção de água como fonte de vida neste mundo e para além da morte desenvolveu-se desde muito cedo e continuou a informar o pensamento religioso mesopotâmico até o fim.

Durante a primeira metade do terceiro milênio, no período chamada Primeiro Dinástico, as deidades locais chegaram a ser organizadas num panteão hierarquicamente estruturado de distintas linhagens divinas. O sistema Eridu concentrou-se em Enki (o Ea acadiano), apresentado como filho de Nammu, a antiga deusa de Eridu, e de An, a deus-céu, chefe do panteão sumério. A esposa de Enki era Damgalnunna, e o casal vivia no E-engur, a Casa de Apsu, como era chamado o templo de Eridu. Seu filho era Asarluhi, mais tarde identificado com Marduk, o deus babilônio. Havia, além disso, muitas deidades secundárias que se dizia estarem relacionadas com a genealogia de Eridu. As relações entre os vários deuses e deusas mesopotâmias eram uma questão de importância tanto política quanto teológica. Listas de divindades, dispostas de acordo com linhas de parentesco, já estavam estabelecidos no final do quarto milênio, e a literatura religiosa, os hinos e os cânticos associados ao culto desenvolveram e aperfeiçoaram ainda mais essas correlações.

A partir do final do segundo milênio, Marduk assumiu muitas das funções de Ea/Enki, sem contudo substituir totalmente a antiga deidade da água. Enki era o “mestre da magia dos deuses”, uma função mais tarde assumida por seu filho, Marduk. Os mesopotâmios também estabeleceram uma ligação entre água e inteligência, ou sabedoria. Quando Enki (ou Marduk) cria, ele dá origem as coisas através de uma elocução, de uma palavra, pronunciada para ativar a matéria primaria inerte. A sabedoria de Enki é de natureza tanto prática quanto esotérica, e que se harmoniza bem com o aspecto criativo. Ele era a deidade protetora de vários grupos profissionais, como curtidores de couro, lavadores de roupa, artesãos que trabalhavam com junco, barbeiras, tecelões, construtores, ferreiros, oleiros, técnicas de irrigação, hortelões, pastores de cabras, assim como de físicos, adivinhos, sacerdotes carpidores, músicos e escribas. Em histórias mitológicas, Enki conhece a solução para situações aparentemente difíceis.

Eridu, como a manifestação primária do Apsu, também era considerada o lugar do conhecimento, a fonte da sabedoria, sob o controle de Enki. Numerosas narrativas foram elaboradas em tomo desse conceito. Eridu como repositório de decretos divinos é descrita numa narrativa suméria chamada “Enki e Inanna”. Enki, escondido no Apsu, está na posse de todos as me, termo sumeriano que abrange todas aquelas instituições, leis, formas de comportamento social, emoções e símbolos de carga que, em sua totalidade, eram vistos como indispensáveis ao funcionamento regular do mundo. Esses me pertenciam a Eridu e a Enki. Entretanto, Inanna, deusa da cidade de Uruque, deseja obter as me para si própria e levá-las para Uruque. Com esse fim, ela desfralda velas para chegar a Eridu de barco, sempre o caminho mais fácil para ir de uma cidade da Mesopotâmia a outra. Enki toma conhecimento da chegada de Inanna e preocupa-se com as intenções dela. Instrui o seu vizir para a receber com todas as honras e preparar um banquete, no qual ambas as deidades bebem muita cerveja. Enki não tarda em adormecer, deixando o caminho livre para Inanna carregar os preciosos me em seu barco, um por um, e zarpar.

Quando Enki desperta da ébria sonolência e dá-se conta do que aconteceu, procura usar sua magia numa tentativa de recuperar as me. Inanna consegue rechaçar os demônios perseguidores e chegar sã e salva a Uruque. O desfecho da história não é claro, pois nenhuma das versões existentes do texto está suficientemente preservada, mas parece que uma terceira deidade logra a reconciliação entre Inanna e Enki. Esta é, obviamente, uma típica história de Uruque, concentrando-se nos deuses locais e em seu poder superior. Ao libertar as me das profundezas do Apsu, Inanna podia não só ampliar seus próprios poderes, mas também fazer valer os seus decretos entre os humanos. A lista dos me inclui à realeza, as funções sacerdotais, os ofícios e a música, assim como as relações sexuais, a prostituição, a velhice, a justiça, a paz, o silêncio, a calúnia, a perjura, as artes dos escribas e a inteligência, entre muitos outros. A história também mostra que, através da interferência de Inanna, eles se tomaram imanentes no mundo. Ela os libertou do domínio de Enki em Eridu, onde se presume que ele os mantivesse fechados a sete chaves. Eridu é sempre relacionada com potencial com começos, embora não necessariamente com a realização desse potencial.

A fertilidade da Apsu e a fraqueza de Enki para a bebida também figuram em outro mito sumério da criação, “Enki e Ninmah”. O mito principia com uma espécie de “prólogo no céu”. Nascera a primeira geração de deuses, conhecida coletivamente como os Anunnaki, e, através de uma série de casamentos entre eles, surgem novas gerações. Todos eles têm tarefas especificas a cumprir a fim de manterem a terra bem-cuidada e irrigada. Alguns têm de carregar os cestos com terra, enquanto os “grandes deuses” atuam como supervisores. Os deuses trabalhadores queixam-se a respeito de seu trabalho pesada e apelam a Enki para que pense num plano. Enki, aparentemente isenta de trabalho físico, está entregue a um sono profundo no Apsu. Nammu, a deusa-mãe, decide despertá-lo e diz-lhe que ele devia levantar-se e criar o homem.

Enki desperta mas incumbe Nammu da tarefa, ensina-lhe que tudo o que ela tem a fazer é apanhar um pouca do barro do Apsu e dar-lhe forma. Outra deusa, Ninmah, ajuda-a nessa tarefa e transfere para a espécie humana a execução do trabalha pesado. Os deuses celebram a perfeita conclusão da abra de criação do homem com um banquete, e Ninmah e Enki embriagam-se. Ninmah propõe fazer mais algumas criaturas e Enki está disposto a determinar-lhes o destino. Ela faz seis humanos, mas estes estão longe de ser perfeitos; todos têm algum defeito. Enki consegue, por fim, encontrar um “destino” ou ocupação para cada um deles. De um que tem a vista fraca será feito um cantor; a mulher estéril é confiada uma função ritual; a criatura sem órgãos sexuais torna-se um alto funcionário na corte, e assim por diante. Depois, é a vez de Enki moldar novos seres.

As versões existentes do texto estão deterioradas a partir desse ponto, mas parece que Enki faz duas criaturas. Uma recebe o nome de Umul, que se mostra completamente inviável. Não se sustenta de pé, não pode sentar-se, caminhar, falar ou alimentar-se. Ninmah declara-se incapaz de fazer qualquer coisa útil com ele e recrimina Enki, pois sua criatura está condenada a permanecer para sempre no Apsu. Enki diz-lhe que deve tomar Umul em seus braços — ele seria o primeiro bebê. Aparentemente, a história explica em tom bem-humorado as desvantagens físicas e mentais (resultantes da embriaguez das deidades criadoras), a falta de defesas dos bebês humanos e os deveres da humanidade para com as deuses, que descarregaram nos seres humanos a pesada tarefa de sustentar o mundo.

“Enki e Ninhursaga” é outra história suméria que exalta a impetuosa sexualidade de Enki. O “jovem Enki” vive deitado nos pântanos para espiar as deusas núbeis. Consegue engendrar sucessivas gerações de deidades femininas até que a última, Uttu, a deusa-aranha e tecelã, extrai dele mais do que apenas sua “água” (um trocadilho com a palavra suméria para “sêmen”). Enki tem que fazer uma horta para ela e plantar pepinos e frutos. Nessa história, comer um fruto, tal como na história do Genesis, leva ao relacionamento sexual e a subseqüente proliferação da vida vegetal.

A última das histórias de Eridu é a história babilônia de Adapa, o sacerdote de Ea. Cópias do texto foram descobertas na cidade egípcia de Akhetaton (Tell el Amiarna), a capital construída pelo faraó Akhenaton da XVIII Dinastia. No século XIV, os governantes em todo a Oriente Próximo empenhavam-se em trocas diplomáticas de princesas, oura e outros artigos de elevado status e prestígio. O veículo usado para suas comunicações era a escrita babilônia em caracteres cuneiformes. Plaquetas eram transportadas do Egito para a Anatólia, da Palestina para a Egito, da Síria para a Babilônia, e vice-versa. A cultura mesopotâmia chegou assim a cortes bem distantes.

Outra cópia da história vem da biblioteca de Nínive, a mais abrangente coleção de literatura cuneiforme. A versão de Akhetaton é um pouco diferente da assíria, mas o enredo principal é a mesmo. Adapa é um dos Sete Sábios criadas por Enki como seres humanos exemplares. Ele serve a Enki em Eridu, onde está encarregado de prover as oferendas alimentares para o deus. Para isso, tem que ir pescar na laguna, a qual está geralmente tão tranqüila que ele não necessita de leme nem de timão. Um dia, porém, o venta sul virou-lhe o barco. O ensopado Adapa roga uma praga contra o vento capaz de “lhe quebrar as asas”. Suas palavras tem tal poder que o venta ficou imobilizado e não soprou “durante sete dias” (o que significa muito tempo). A falta de vento (que leva ar fresco ao altiplano) atraiu a atenção de Anu, um deus superior, que ordena que a culpado seja conduzido à sua presença para julgamento. Enki, “que conhece o modo como o céu trata das coisas”, decide que Adapa tem que ser preparado para essa importante viagem. Instrui o seu sacerdote a vestir roupa de luta e dizer aos dois deuses, Dumuzi e Ningishzida, a quem encontrara guardando os portões do palácio de Anu, que está lamentando muito o desaparecimento de ambos da terra. Essa exibição de pesar tem o propósito de acalmar os dois deuses da vegetação, que sofreram indiretamente por causa da praga de Adapa.

Adapa é levado ao céu e aí segue ao pé da letra o conselho de Enki. Dumuzi e Ningishzida prometem interceder a favor dele e a cólera dc Anu é apaziguada graças a intercessão de ambas. Pergunta a Adapa de ande vem toda a sua sabedoria, e, quando descobre que Enki está por trás dela, oferece a Adapa óleo, roupas e a “água e o alimento da vida”, o que fará com que ele “se tome igual aos deuses”. Entretanto, como Enki também tinha prevenido Adapa para não aceitar a “água e o alimento da morte”, este rejeita a presente de Anu. Em face dessa aparente insensatez humana, Anu irrompe em “gargalhadas divinas” e manda Adapa de volta a terra.

Qual era a verdadeira intenção de Anu? Pretendeu ele fazer com que Adapa, tão completo em sabedoria a ponto de ser quase divino, se tornasse verdadeiramente imortal? Ou riu por ter sido superado em esperteza pelo astuto Enki, que sabe que aquela “água e alimento da vida” para os deuses significa justamente o oposta para as seres humanos? A intenção da história está nessa ambigüidade, um lembrete de que o homem, mesmo que seja como Adapa, um dos Sete Sábios, não pode conhecer os insondáveis “caminhos do céu”.

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Sete Sábios

Os Sete Sábios eram uma manifestação das forças essencialmente imprevisíveis do Apsu. Isso ocorre com freqüência em textos e fórmulas de magia, como os abgal (as apkâllu acádios), criaturas pisciformes sob o comando de Enki/Ea. As máscaras usadas por alguns sacerdotes representadas em sinetes e em numerosos relevos assírios estão relacionadas com o poder dos Apkablu para rechaçar o mal. Eles também eram tradicionalmente personificados como os sete “heróis da cultura”, enviados por Enki para ensinar a humanidade as artes da civilização. Na composição babilônia tardia conhecida como a épica de Erra, são chamados “os sete sábios do Apsu, os puros peixes paradu, que, a semelhança de Enki, seu amo e senhor, foram datados de sublime sabedoria”. Eram os conselheiros dos reis antediluvianos, também em numero de sete, e os responsáveis pela invenção e construção de cidades. A cidade é, portanto, o produto de inteligência divina.

 

 

Por alguma razão, os Apkallu também simbolizam a hubris, a arrogância resultante de um orgulho excessivo. Um texto bilíngüe de Nínive registra como cada um deles conseguiu importunar um deus importante, pelo que foram todos banidos do Apsu para sempre. Tal como nas outras cosmogonias de Eridu referidas antes, o potenciall criador e a sabedoria do Apsu e de suas criaturas são vistas como perigosas e subversivas. A tradição de sua influência benévola foi um das derradeiras fragmentos do conjunto de conhecimentos mesopotâmios a serem transmitidos a um novo mundo. Um sacerdote babilônio de Marduk, que viveu durante o reinado do rei selêucida Antiaco I (século III a.e.c.), foi o autor de um volume intitulado Babyloniaca. Escreveu-o em grego, sob a nome de Berossus. Apenas algumas passagens sobreviveram, em escritos gregos posteriores, dessa sua ambiciosa obra, a qual se propunha resumir a história e a literatura da antiga cultura a que o autor pertencia. Um desses fragmentos diz respeito aos monstros pisciformes que Enki mandou após o dilúvio para ensinar a humanidade. Um deles chama-se Oannes, a forma grega de U-an, o name sumério de Adapa.

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A Sagrada Eridu - Todas essas narrativas acerca de Enki e Eridu destacam a conexão entre a localidade, especialmente o Apsu, a criação e a fertilidade. Eridu é primordial e imanente, a lugar onde o mundo pela primeira vez se tornou habitável, onde o tijolo e a cidade foram inventados. Mas, como a história babilônia da criação enfatiza, o principal objetivo da “primeira casa” era o culto.

A coleção suméria de hinos de templos começa com o hino para o templo de Enki em Eridu, chamado E-unir. Esses hinos são apresentados em plaquetas do período Babilônio Antigo (c. 1800), mas, de acordo com os colofãos, foram originalmente editados muito antes por uma sacerdotisa da deus-lua em Ur, chamada Enheduanna, que viveu no século XXIII. Os hinos dos templos oferecem uma evocação metaforicamente rica dos principais lugares de culto mesopotâmicos, salientando os aspectos particulares de cada santuário:

E-unir, que cresceu em altura, (unindo) o céu e a terra,  Fundação da céu e da terra, Sancta Sanctarum Eridu Abzu, santuário, erigido para a seu príncipe.

Casa, cômoro sagrado, ande é comido o alimento puro, regada pela canal pura da Principe,  Montanha, lugar puro, lavado e escoimado com sabão,

(. ..)

Tua grande... muralha é conservada em bom estada. No teu... o lugar onde a deus reside.

0 grande... o... belo lugar onde a luz não entra. Tua casa sabidamente montada é limpa, sem igual, Teu príncipe, o grande príncipe, uma caroa sagrada. Ele a colocou para ti em teu... Oh Eridu com uma coroa em tua cabeça!

Crescendo... pura. Santuário Abzu, teu lugar é um grande lugar.

Em teu lugar onde eles intimam Utu a comparecer. Onde a forno fornece pão (bom) para comer. Em teu zigurate, o grandioso santuário, estendendo-se para a céu, onde o forno rivaliza com o Sancta Sanctarum (ou: Salão de Banquetes).

Teu Príncipe é o Príncipe da céu e da terra [cuja] palavra jamais foi alterada, o criador, o sabia, o Senhor Nudimmund {E-engura] colocou sua casa em ti, tomou o seu lugar no teu trono.

As imagens deste texto dedicado ao templo de Eridu não são de todo originais e sem paralelo. Os templos são habitualmente assemelhados a montanhas e apontados como ligação entre o céu e a terra. A palavra “príncipe” é usada numa referência ao trocadilho com o signo NUN, usado para escrever o topônimo Eridu (NUN) e cuja forma caligráfica lembra um junco, e a palavra NUN, um título hoje traduzido como “príncipe”. O santuário propriamente dito, a Sancta Sanctarum, é a sala onde a imagem do deus é guardada em total escuridão. Outras características importantes do templo de Eridu são, obviamente, o Apsu, aqui também usado para referir-se ao “doce canal” e ao próprio santuário. O zigurate mencionado talvez seja o que os soberanos do Primeiro Dinástico poderiam ter construída — do qual não existe nenhuma prova arqueológica —, ou talvez seja o zigurate de Ut III e um acréscimo posterior pela mão de um escriba. O texto também louva o alimento preparada no santuário— outro costume com uma longa Tradição, se nos lembrarmos dos restos de refeições cozinhadas nos “templos” do período ubaidiano. Por fim, a hino revela a identidade de deus: Enki, “o criador, o sábio”, que colocou a casa nesse lugar e tomou o seu próprio lugar no trono.

Fuad Safar tinha nutrido a esperança de que nas escavações das ruínas de Eridu, pelo fato de “serem a mais antiga e importante santuário de Ea-Enki, assim como a sede de um importante oráculo, deveríamos esperar encontrar uma biblioteca de templo sumério ou, pelo menos, grupos de plaquetas, em relação com um centro de cultura teológica”. Não se descobriu tal biblioteca. Com exceção de uns poucos tijolos com inscrições, nenhum documento escrita foi encontrado. Eridu nunca foi um “centra de cultura teológico” no período histórico, uma vez que nunca foi um centro político e nem mesmo uma cidade viável por características ou virtudes próprias. já na período Uruque (a partir de meadas da quanta milênio) Eridu estava estreitamente ligada a Ur. Algumas cidades funcionaram como cidades gêmeas, uma como a centra simbólica e religioso, a outra como os bairros administrativas e residenciais. O reflorescimento do santuário após a período Jemdet-Nasr pode ser associado a ascensão de Ur no Primeiro Dinástico, e o mais ambicioso projeto arquitetônico, a construção do zigurate, foi empreendido pelo rei Amar-Sin de Ur III.

O santuário era, durante os tempos de prosperidade, um importante local de peregrinação. Presumivelmente, as despesas de funcionamento do templo eram cobertas por receitas geradas através de oferendas votivas e fortes similares. Quanta a dispendiosa manutenção dos edifícios, porém, Eridu tinha de contar com a apoio régio, ou seja, do estado. Vimos que essa dependência do investimento oficial, supra-regional, só era exeqüível quando o governo central tinha os meios econômicos e quando isso era considerado vantajosa do ponta de vista ideológico. Durante o império Ur III, a revitalização de antigos centros de cura tornou-se uma prioridade para promover e reforçar a legitimidade dos governantes de Ur, a qual era proclamada como rendo relações muito intimas com os grandes deuses da Suméria. O santuário de Enki era não só o local; era também um dos mais antigos e prestigiosos. O vasto dispêndio no zigurate de Enki foi justificada como um meio de restabelecer o adequado funcionamento do santuário — para beneficio de todo o país, cortesia do rei de Ur. Havia em Ur um importante centro de escribas, e a maioria dos textos referentes ao deus Enki estavam preservadas e talvez fossem compostos em Ur. Um centro intelectual separado, longe de Ur e da censura dos funcionários da corte, seria incompatível com o firme controle ideológico do governo de Ur. Seus esforços para investir no valor simbólico de Eridu por certo ajudaram a manter viva a memória da antiguidade do santuário e sua associação com a deus Enki. Mesmo quando Marduk, a deidade babilônia — em termos de genealogia divina, a “filho de Enki/Ea” —, assumiu a maioria das funções e poderes do antigo deus, Ea permaneceu um “grande deus” — sobretudo como um mestre de magia.

Através dos tempos, a tradição mesopotâmia identificou Eridu como a mais antiga das cidades, como um lugar sagrado, o própria lugar da criação. As nações mesopotâmias de cidade tem muito pouco a ver com tamanho, densidade populacional e status político. Com exceção dos dois reis lendários mencionados na lista de monarcas sumérios, não houve reis em Eridu. Não constitui um centro de poder político durante qualquer dos períodos históricos. Tampouco foi muito importante nos planos econômico ou estratégico. A importância de Eridu era principalmente simbólica. Representou o elo da Mesopotâmia com o princípio do mundo, prova da assombrosa longevidade de sua civilização. Era também sagrada. Em Eridu, as características da paisagem — em particular a grande massa de água doce, uma espécie de lago a beira do deserto — eram vistos como manifestações de divindade. Depois que a natureza especial do lugar foi estabelecida e repetidamente consolidada num esforço contínuo ao longo de um milhar de anos, Eridu acumulou credibilidade suficiente para manter o status de um lugar muito importante, apesar de suas pequenas dimensões e dos longos períodos de decadência física e negligência. Eridu passou a fazer parte da paisagem cultural, algumas vezes mais como um conceito, outras vezes magnificamente reconstruída.

Tal como o Apsu, o mais potente símbolo da santidade de Eridu, podia estar presente em qualquer templo da terra, em analogia com o onipresente embora subterrâneo lençol de água, também Eridu era onipresente e imortal, mesmo quando suas ruínas estavam cobertas pela areia. Eridu e a cultura mesopotâmia tem a mesma origem, com suas criaturas pisciformes emergindo do lodo primevo. Assinalam a começo de um processo que continua até hoje.

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Referências Bibliográficas

LEICK Gwendolyn, Mesopotamia, a invenção da cidade: Rio de Janeiro, Imago, 2003.

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